Mariana continuava a olhar para a nossa mãe.
— O que aconteceu ao primeiro convite?
Helena não respondeu.
A mão da minha irmã apertou a minha com mais força.
— Mãe, estou a perguntar-te diretamente.
Álvaro pousou o copo com demasiada força.
— Mariana, amanhã vais casar. Não achas que há assuntos que podem esperar?
— Não.
A resposta dela foi imediata.
— Durante anos disseram-me que a minha irmã não aparecia porque não queria saber de nós. Agora descubro que ela tentou estar presente em momentos que eu julgava que tinha ignorado. Portanto, não. Isto não vai esperar.
Olhei para Mariana e, pela primeira vez em muitos anos, vi nela algo que reconheci imediatamente.
Determinação.
A mesma expressão que o nosso pai fazia quando sabia que alguém estava a esconder-lhe alguma coisa.
Helena sentou-se lentamente.
— O convite chegou cá a casa.
Senti o estômago apertar.
— Cá a casa?
— Sim.
— Porquê?
Mariana respondeu antes dela.
— Porque, quando fiz a lista inicial, não tinha a tua morada atual. Pedi à mãe que te enviasse o convite.
Olhei novamente para Helena.
— E enviaste?
Ela desviou os olhos.
Foi resposta suficiente.
— Mãe...
— Eu ia enviar.
Mariana soltou a minha mão.
— O quê?
— Ia enviar, mas depois soube que a Leonor estava novamente fora e pensei que provavelmente nem conseguiria vir.
Fiquei imóvel.
— Então decidiste por mim.
— Não foi assim.
— Guardaste o convite durante meses.
— Eu sabia como estas coisas acabam contigo, Leonor. Primeiro dizes que vais tentar. Depois surge uma missão, uma viagem, uma emergência qualquer...
— Por isso decidiste que era melhor eu nem saber?
A voz dela subiu.
— Eu estava a tentar proteger a Mariana de outra desilusão!
A minha irmã recuou como se tivesse levado uma bofetada.
— Proteger-me?
Helena levantou-se novamente.
— Tu não sabes como era quando eras mais nova. Esperavas pela Leonor. Perguntavas quando ela vinha. Depois ela não aparecia e ficavas destruída.
— Porque estava a servir o país — disse Miguel calmamente.
A minha mãe virou-se para ele.
— Com todo o respeito, isto é um assunto de família.
Miguel não se moveu.
— Vou casar com a sua filha amanhã. Acho que já faz parte da minha família.
Mariana olhou para ele.
Ele segurou-lhe a mão.
E naquele pequeno gesto percebi uma coisa que me tranquilizou: independentemente do que acontecesse naquela noite, a minha irmã tinha escolhido um homem que não a abandonaria quando as conversas se tornassem difíceis.
Helena respirou fundo.
— Vocês estão todos a transformar-me numa vilã.
— Ninguém está a fazer isso — respondi. — Estamos apenas a perguntar o que aconteceu.
Ela olhou para mim.
— Queres mesmo saber?
— Quero.
— Sempre que voltavas, esta família mudava.
Franzi o sobrolho.
— O que quer isso dizer?
— O teu pai falava de ti constantemente. “A Leonor conseguiu isto. A Leonor foi promovida. A Leonor está a fazer aquilo.” Mesmo quando não estavas presente, eras sempre a pessoa mais importante da sala.
A expressão de Mariana mudou.
Finalmente começava a aparecer a verdadeira ferida.
— Então era isto? — perguntei. — Estavas zangada comigo por causa do pai?
— Não.
Mas respondeu depressa demais.
A minha tia Teresa baixou os olhos.
Eu reparei.
— Tia?
Ela hesitou.
— Leonor...
— Sabias?
Teresa fechou os olhos por um instante.
— Sabia que a tua mãe tinha dificuldade em lidar com a relação que tinhas com o teu pai.
Helena virou-se imediatamente.
— Teresa, não te metas.
— Já devia ter-me metido há muitos anos.
A frase mudou o ambiente da sala.
A minha tia levantou-se.
— Depois de o teu pai morrer, a Helena encontrou uma caixa com cartas.
O meu coração acelerou.
— Que cartas?
Teresa olhou para mim.
— Cartas que ele te escreveu durante os últimos meses de vida.
Deixei de respirar por um segundo.
— Nunca recebi cartas nenhumas.
— Eu sei.
Olhei para a minha mãe.
Ela estava branca.
— Onde estão?
— Leonor...
— Onde estão as cartas do pai?
Mariana levou a mão à boca.
— Mãe, por favor diz-me que não fizeste isso.
Helena sentou-se novamente.
Desta vez parecia subitamente mais velha.
— Ele estava doente. Escrevia coisas emocionais. Eu não sabia se te faria bem recebê-las.
Não consegui acreditar no que estava a ouvir.
— Eram cartas para mim.
— Eu era a mulher dele.
— E eu era filha dele.
A minha voz falhou pela primeira vez.
Afastei a cadeira e caminhei alguns passos para longe da mesa.
Durante anos carregara uma culpa que nunca conseguira abandonar.
O meu pai morrera enquanto eu estava longe.
A última conversa que tivemos tinha durado apenas onze minutos.
Ele perguntou-me se estava a comer bem.
Eu disse-lhe que sim.
Ele disse que tinha orgulho em mim.
Eu respondi:
— Também te adoro, pai. Ligo-te quando regressar.
Nunca regressei a tempo.
Durante doze anos pensei que aquelas tinham sido as últimas palavras que ele me deixara.
Agora descobria que não eram.
— Ainda tens as cartas?
A minha mãe começou a chorar.
— Tenho.
Fechei os olhos.
Não sabia se queria abraçá-la ou sair dali e nunca mais voltar.
Mariana aproximou-se.
— Onde?
— Em casa.
— Quero que as entregues à Leonor esta noite.
— Mariana...
— Esta noite.
A firmeza da minha irmã surpreendeu toda a gente.
A nossa mãe limpou as lágrimas.
— Está bem.
Pensei que aquela fosse a pior revelação da noite.
Não era.
Miguel recebeu uma chamada poucos minutos depois.
Olhou para o ecrã e franziu o sobrolho.
— Desculpem. Tenho de atender.
Afastou-se da mesa.
Enquanto isso, alguns convidados começaram discretamente a conversar novamente, tentando devolver alguma normalidade a um jantar que já estava irreparavelmente transformado.
Sentei-me.
Mariana ficou ao meu lado.
— Desculpa.
Olhei para ela.
— Pelo quê?
— Por acreditar em tudo.
— Eras uma criança quando isto começou.
— Deixei de ser criança há muito tempo.
Não respondi.
Ela tinha razão.
Mas eu também.
Nenhuma de nós tinha feito perguntas suficientes.
— Também podia ter tentado mais — admiti. — Era mais fácil convencer-me de que vocês não queriam saber de mim do que continuar a bater a uma porta que parecia sempre fechada.
Mariana encostou a cabeça ao meu ombro.
— Então talvez possamos abrir a porta outra vez.
Sorri.
— Talvez.
Foi nesse momento que Miguel regressou.
A expressão dele estava diferente.
Muito mais séria.
— Leonor, posso falar contigo?
O uso do meu primeiro nome, depois de toda a formalidade anterior, chamou imediatamente a minha atenção.
Levantámo-nos e afastámo-nos alguns metros.
— O que aconteceu?
Ele baixou a voz.
— Era o Contra-Almirante Vasconcelos.
Fiquei surpresa.
— Porque te está a ligar esta noite?
Miguel olhou rapidamente para os convidados.
— Porque ele vai estar amanhã no casamento.
— Está na tua lista de convidados?
— Sim. Foi meu mentor durante anos.
Assenti.
— E?
Miguel hesitou.
— Ele perguntou se eu já te tinha visto.
O meu corpo ficou tenso.
— Como sabia que eu estava aqui?
— Não sabia. Mas alguém lhe disse que tinhas regressado a Portugal.
Aquela conversa estava a tomar uma direção que eu não gostava.
— Miguel, chega ao ponto.
Ele respirou fundo.
— Amanhã não vai ser apenas o meu casamento.
— O que queres dizer?
— O almirante recebeu autorização para fazer um anúncio depois da cerimónia.
Olhei para ele.
— Que anúncio?
Miguel sorriu.
— Um que aparentemente te estão a tentar esconder até ao último momento.
— Miguel.
— Não posso contar-te tudo porque me pediu especificamente que não estragasse a surpresa.
Cruzei os braços.
— Estás a falar com alguém que detesta surpresas.
— Eu sei.
— Então dá-me pelo menos alguma coisa.
Ele aproximou-se ligeiramente.
— Ouvi duas palavras.
— Quais?
— “Nova nomeação.”
Fiquei imóvel.
Durante os últimos seis meses, existiam rumores sobre uma reestruturação importante. Vários nomes tinham circulado. Eu recusara alimentar expectativas.
— Isso não significa nada.
Miguel sorriu.
— Também ouvi o teu nome.
Antes que eu pudesse responder, Mariana apareceu atrás de nós.
— O que estão vocês os dois a esconder?
Miguel olhou para mim.
— Desta vez, nada que vá estragar o casamento.
— Espero bem.
Ela segurou-me pelo braço.
— Porque ainda tenho uma pergunta para a minha irmã.
— Qual?
Mariana sorriu através dos olhos ainda vermelhos.
— Amanhã vais ao meu casamento vestida assim?
Olhei para as minhas roupas de viagem.
— Estava a pensar tomar banho primeiro.
Ela riu-se.
Foi uma gargalhada verdadeira.
Talvez a primeira que partilhávamos daquela maneira desde adolescentes.
— Não estou a falar disso. Quero saber se vais de uniforme.
O sorriso desapareceu-me.
— Mariana...
— Quero a minha irmã no casamento. Toda ela. Não a versão que passa o tempo a tentar parecer mais pequena para não incomodar a família.
As palavras ficaram comigo.
Olhei para Miguel.
Ele não disse nada.
Não precisava.
— Tenho o uniforme no hotel.
Mariana sorriu.
— Então usa-o.
Duas horas mais tarde, estávamos na antiga casa da minha mãe.
Helena colocou uma pequena caixa de madeira sobre a mesa da sala.
Reconheci-a imediatamente.
Tinha pertencido ao meu pai.
As minhas mãos começaram a tremer antes mesmo de a abrir.
Lá dentro estavam onze envelopes.
Todos tinham o meu nome escrito com a letra dele.
Leonor.
Passei o dedo sobre o primeiro.
Doze anos desapareceram naquele instante.
A minha mãe ficou junto à porta.
— Desculpa.
Não olhei para ela.
Ainda não conseguia.
Peguei no último envelope.
Era diferente dos restantes.
Na frente, o meu pai escrevera:
“Para a Leonor — abrir quando finalmente perceberes que não precisas da aprovação de ninguém.”
O meu coração apertou.
Virei o envelope.
Ainda estava selado.
Mariana sentou-se ao meu lado.
— Vais abrir?
Olhei para a letra do nosso pai.
Depois para a minha mãe.
E finalmente para a minha irmã.
— Sim.
Passei o dedo pela extremidade do envelope.
Sem saber que as palavras que o meu pai tinha escrito doze anos antes iriam mudar não apenas a forma como eu via a minha família...
mas também a decisão que teria de tomar no dia seguinte.






