Naquela tarde, Arthur enviou cópias dos documentos mais importantes para uma equipa especializada em fraude financeira. Eu queria respostas rápidas, mas ele insistiu que fizéssemos tudo corretamente.
— A pior coisa que podemos fazer agora é avisar o Brandon sobre aquilo que sabemos — explicou. — Se existirem outras contas ou documentos, ele pode tentar fazê-los desaparecer.
Pensei na chamada.
Eu já lhe tinha dito demasiado.
— Ele vem para casa.
— Eu sei. E provavelmente vai tentar falar consigo antes da leitura do testamento.
Arthur retirou a pen drive do computador e guardou-a num envelope.
— Não se encontre com ele sozinha.
Assenti.
Mas havia uma pergunta que não me saía da cabeça.
— Quem é a mulher que está com ele?
Arthur não sabia.
Eu, porém, tinha uma forma de descobrir.
Ainda tinha acesso à nossa conta conjunta. Brandon raramente pensava nisso porque, durante anos, eu praticamente nunca verificara os movimentos.
Abri a aplicação do banco.
Restaurantes.
Hotel.
Spa.
Uma joalharia.
Depois encontrei uma despesa feita dois dias antes.
Pacific Pearl Jewelry — 8 400 euros.
O mesmo estabelecimento cujo recibo eu tinha encontrado no carro.
Senti o estômago apertar-se.
Talvez tivesse comprado um anel.
Mas aquilo já não me magoava como teria magoado uma semana antes.
Continuei a procurar.
Foi então que encontrei algo muito mais interessante.
Uma transferência de 15 000 euros para uma mulher chamada:
Vanessa Cole.
O nome pareceu-me familiar.
Pesquisei nas mensagens antigas do meu telemóvel.
Nada.
Depois lembrei-me.
Cerca de oito meses antes, Brandon mencionara uma nova consultora contratada para ajudar numa operação imobiliária.
Vanessa.
A mulher da piscina não era apenas amante dele.
Ela estava ligada aos negócios.
Telefonei imediatamente a Arthur.
— Acho que descobri quem está com ele.
Menos de uma hora depois, eu estava novamente no escritório.
Arthur pesquisou o nome nos documentos de Rosalind.
Encontrou-o três vezes.
Na terceira ocorrência, ficámos ambos em silêncio.
Vanessa Cole aparecia como representante de uma pequena empresa chamada Blue Horizon Advisory.
Era precisamente essa empresa que deveria receber parte do dinheiro da operação em Honolulu.
— Portanto, eles estão a trabalhar juntos — disse eu.
Arthur abanou a cabeça.
— Talvez seja mais do que isso.
Abriu outro ficheiro.
Blue Horizon tinha sido criada apenas sete meses antes.
E o endereço registado correspondia a um apartamento em San Diego.
Reconheci imediatamente a rua.
Brandon tinha-me dito que aquele apartamento pertencia a um cliente.
De repente, dezenas de pequenos momentos começaram a encaixar.
As noites em que chegava tarde.
As chamadas que atendia no jardim.
A mudança súbita da palavra-passe do computador.
As viagens “profissionais”.
Mas a maior mentira ainda estava por descobrir.
Na manhã seguinte, recebi uma chamada de um número desconhecido.
— Senhora Almeida?
— Sim.
— O meu nome é Daniel Mercer. Trabalho na administração do resort onde o seu marido está hospedado.
Endireitei-me na cadeira.
— Como conseguiu o meu número?
Houve uma pausa.
— O seu contacto aparece num documento que recebemos para concluir uma operação privada.
O meu coração acelerou.
— Que documento?
— Uma autorização conjugal.
Fechei os olhos.
Outra assinatura.
— Eu não autorizei nada.
Daniel ficou imediatamente sério.
— Nesse caso, talvez seja melhor falar com o seu advogado.
Passei o telefone a Arthur.
A conversa durou quase quinze minutos.
Quando terminou, ele pousou lentamente o telemóvel.
— O Brandon está a tentar usar parte dos ativos da Marlowe Coastal Holdings como garantia para adquirir uma propriedade no Havai.
— Mas ele não é dono desses ativos.
— Exatamente.
— E precisava da minha autorização?
— Para a estrutura que tentou utilizar, sim.
Olhei para ele.
— Então falsificou novamente a minha assinatura.
Arthur assentiu.
Mas havia algo que ainda não compreendia.
— Porque tanta pressa?
Ele fez exatamente a mesma pergunta a Daniel.
A resposta chegou pouco depois.
A assinatura final estava marcada para aquela tarde.
Brandon pretendia concluir tudo antes de regressar para casa.
Antes de saber oficialmente da morte da mãe.
Antes da leitura do testamento.
Ele acreditava que estava prestes a garantir para si próprio uma propriedade milionária usando património que esperava herdar.
Só que Rosalind tinha morrido antes de a operação estar concluída.
E isso mudava tudo.
Arthur contactou imediatamente os responsáveis jurídicos envolvidos e comunicou formalmente a contestação das assinaturas.
A operação foi suspensa.
Às 16h42, o meu telemóvel começou a tocar.
Brandon.
Não atendi.
Voltou a ligar.
Depois outra vez.
Finalmente chegou uma mensagem:
“O QUE FIZESTE?”
Olhei para aquelas três palavras durante alguns segundos.
Não respondi.
Outra mensagem.
“Cancelaram tudo por tua causa.”
Depois:
“Lucia, atende. Podemos resolver isto.”
Quase ri.
Durante anos, “podemos resolver isto” significava sempre que eu deveria resolver os problemas que ele criava.
Desta vez, bloqueei o número.
Na manhã seguinte, soube que Brandon tinha regressado a San Diego.
Não foi ao hotel procurar-me.
Não foi ao cemitério.
Não perguntou onde estavam as cinzas da mãe.
Foi diretamente ao escritório de Arthur.
Eu não estava presente, mas Arthur contou-me depois o que aconteceu.
Brandon entrou furioso.
— Quero saber o conteúdo do testamento da minha mãe.
Arthur manteve-se sentado.
— A leitura será amanhã.
— Sou o único filho dela!
— Isso não lhe concede o direito de conhecer antecipadamente o conteúdo.
Brandon bateu com a mão na secretária.
— Aquela mulher está a manipular tudo!
“Aquela mulher.”
Eu.
A pessoa que tinha cuidado da mãe dele durante três anos.
Arthur respondeu calmamente:
— Se está a referir-se à Lucia, recomendo que tenha cuidado com as acusações que faz a partir deste momento.
Foi então que Brandon perguntou:
— Ela abriu a caixa?
Arthur não respondeu.
E aparentemente isso foi suficiente.
Brandon saiu do escritório pálido.
Naquela noite, alguém bateu à porta do meu quarto de hotel.
Olhei pelo óculo.
Brandon.
Não abri.
— Lucia, sei que estás aí.
Fiquei em silêncio.
— Por favor.
A palavra surpreendeu-me.
Brandon raramente dizia “por favor”.
— Eu cometi erros — continuou. — Mas há coisas que não compreendes.
Não respondi.
— A Vanessa não significa nada.
Fechei os olhos.
Nem sequer tinha mencionado o nome dela.
Ele acabara de confirmar tudo sozinho.
— Abre a porta e deixa-me explicar.
Finalmente respondi:
— Fala com o meu advogado.
— Isto não é sobre o divórcio!
A voz dele tornou-se desesperada.
— É sobre a caixa.
Aproximei-me da porta, mas não a abri.
— O que há naquela caixa que te assusta tanto, Brandon?
Silêncio.
Depois ouvi:
— A minha mãe estava doente. Não sabia o que fazia.
— Sabia o suficiente para guardar provas.
— Provas de quê?
Sorri tristemente.
— Tu sabes melhor do que eu.
Ele ficou calado.
Depois disse algo que me deixou completamente imóvel.
— Se encontraste um envelope azul, não o abras.
Não havia nenhum envelope azul.
Pelo menos, eu não tinha visto nenhum.
— Vai-te embora, Brandon.
— Lucia…
— Ou chamo a segurança.
Alguns segundos depois, ouvi os passos dele afastarem-se pelo corredor.
Telefonei imediatamente a Arthur.
— Temos um problema.
— O que aconteceu?
— Brandon perguntou por um envelope azul.
Silêncio do outro lado.
— Não encontrou nenhum envelope azul na caixa?
— Não.
Arthur respirou fundo.
— Então talvez exista uma segunda caixa.
Na manhã seguinte, encontrámo-nos antes da leitura do testamento.
Arthur trouxe consigo o inventário original que Rosalind tinha escrito à mão.
Lemos item por item.
Documentos financeiros.
Gravador.
Três pen drives.
Carta para Lucia.
Fotografia.
Tudo correspondia.
Até chegarmos à última linha.
Arthur aproximou o papel.
Ali estava escrito:
“O original fica onde ele nunca procuraria. A chave pequena abre a primeira verdade. A fotografia mostra onde está a segunda.”
Peguei novamente na fotografia de Rosalind.
Observei a janela.
A cadeira.
As mãos dela.
Nada.
Depois virei a fotografia.
A frase continuava lá:
“Quando ele perceber que não pode controlar-te…”
Mas desta vez reparei numa coisa que me tinha escapado.
No canto inferior, quase escondidos pela moldura da fotografia original, havia quatro números escritos a lápis:
1978.
— O que significa isto? — perguntei.
Arthur ficou pensativo.
Então os olhos dele mudaram.
— O ano em que o marido da Rosalind morreu?
— Não. Ele morreu em 2009.
De repente, lembrei-me.
Rosalind tinha contado aquela história dezenas de vezes.
1978 era o ano em que os pais dela tinham comprado uma pequena casa perto de Cascais, em Portugal, décadas antes de a família se mudar definitivamente para os Estados Unidos.
Uma propriedade que Brandon considerava velha, inútil e sem valor.
Rosalind nunca a vendeu.
Arthur levantou-se imediatamente.
— Onde estão os documentos dessa casa?
Demorámos quase uma hora a encontrá-los.
E quando finalmente apareceram, compreendi por que razão Brandon nunca tinha procurado ali.
A casa não fazia parte da Marlowe Coastal Holdings.
Estava exclusivamente em nome de Rosalind.
Arthur encontrou ainda uma anotação anexada à escritura.
Era recente.
“Lucia saberá o que fazer.”
Mas antes que pudéssemos investigar mais, a rececionista bateu à porta.
— Senhor Pendelton?
— Sim?
Ela parecia nervosa.
— A família já chegou para a leitura do testamento.
Fez uma pausa.
— E o senhor Brandon não veio sozinho.
Olhei para Arthur.
— Vanessa?
A rececionista abanou a cabeça.
— Não.
Engoliu em seco.
— Veio acompanhado de um advogado e afirma ter consigo um novo testamento assinado pela mãe duas semanas antes de morrer.
Arthur ficou completamente imóvel.
Eu também.
Porque, segundo o documento que estava diante de nós, Rosalind tinha assinado o seu verdadeiro testamento três meses antes.
E, naquele momento, percebi que a leitura do testamento não seria o fim da guerra.
Seria apenas o começo.






