Meu pai continuava parado no meio da sala, olhando para o estetoscópio sobre a mesa como se aquele pequeno objeto tivesse acabado de destruir tudo o que ele acreditara durante cinco anos.
Eu não disse nada imediatamente.
Elliot também permaneceu em silêncio. Ele sabia que aquele momento não pertencia a ele. Era uma conversa que meu pai e eu deveríamos ter tido muitos anos antes.
— De quem é isso? — meu pai perguntou finalmente.
Olhei para o estetoscópio.
— Meu.
Ele soltou uma risada curta, nervosa.
— Seu? Você guardou isso da faculdade?
— Não.
Caminhei até a mesa e peguei o crachá que estava ao lado de uma pilha de prontuários e livros. Entreguei a ele.
Meu pai leu meu nome.
Depois leu novamente.
Seus olhos ficaram presos nas palavras abaixo dele.
— Você voltou?
— Voltei.
Ele ergueu os olhos devagar.
— Quando?
Respirei fundo.
— Há quase quatro anos.
Pela expressão dele, aquela resposta parecia impossível.
Quando deixei a faculdade para cuidar de Elliot, meu pai imaginou que eu havia fechado aquela porta para sempre. O que ele nunca soube era que abandonar temporariamente um sonho não significava enterrá-lo.
Nos primeiros meses, eu realmente não sabia se conseguiria voltar.
A doença de Elliot exigia quase tudo de nós. Havia consultas, tratamentos, noites em claro e dias em que ele mal conseguia sair da cama.
Mas, aos poucos, seu quadro começou a melhorar.
E então aconteceu algo que eu nunca havia contado ao meu pai.
Certa manhã, encontrei Elliot sentado à mesa da cozinha com meu antigo livro de anatomia aberto diante dele.
— O que você está fazendo? — perguntei.
Ele apontou para a cadeira.
— Senta.
— Elliot...
— Você deixou a faculdade porque eu precisava de você. Agora estou melhor. Então não vou permitir que você use a minha doença como motivo para desistir do que sempre quis.
Eu tentei argumentar.
Dinheiro era um problema.
Tempo também.
Eu estava atrasada em relação à minha antiga turma e tinha medo de descobrir que não era mais capaz de acompanhar o ritmo.
Elliot apenas segurou minha mão.
— Você ficou ao meu lado quando eu achei que minha vida tinha acabado. Agora deixa eu ficar ao seu lado enquanto você recupera a sua.
Foi assim que comecei novamente.
Não foi fácil.
Trabalhei durante meses para reorganizar nossa situação financeira. Reestudei conteúdos que acreditava ter esquecido. Fiz provas, entrevistas e enfrentei toda a burocracia necessária para retomar minha formação.
Houve noites em que dormi três horas.
Houve dias em que pensei em desistir.
Mas dessa vez Elliot estava ao meu lado.
Quando eu finalmente fui aceita de volta, ele apareceu com um pequeno presente.
Um estetoscópio.
O mesmo que agora estava nas mãos do meu pai.
Meu pai passou os dedos lentamente pelo metal.
— Por que você nunca me contou?
A pergunta me atingiu de um jeito estranho.
— Eu tentei.
Ele franziu a testa.
— Quando?
— No primeiro ano. Liguei no seu aniversário. Você não atendeu. Mandei uma mensagem dizendo que tinha uma notícia importante.
Seu rosto perdeu um pouco da cor.
— Depois tentei no Natal. E novamente quando passei em uma das provas mais difíceis do curso. Depois parei.
— Eu pensei que você estivesse tentando me convencer a aceitar Elliot.
Balancei a cabeça.
— Eu estava tentando contar ao meu pai que sua filha tinha voltado para a faculdade de Medicina.
O silêncio que veio depois pareceu preencher toda a casa.
Então meu pai olhou ao redor novamente.
Foi quando seus olhos encontraram a fotografia emoldurada sobre a estante.
Era uma foto minha usando jaleco branco, com Elliot ao meu lado.
Atrás de nós havia um prédio hospitalar.
Meu pai caminhou até a fotografia.
— Isso foi quando?
— Minha cerimônia de conclusão.
Ele virou-se imediatamente.
— Você já se formou?
Assenti.
Aquela foi a primeira vez que vi meu pai completamente sem resposta.
Mas ainda havia algo que ele não sabia.
Algo muito maior.
Ele colocou a fotografia de volta e olhou para mim.
— Então você é médica?
Antes que eu pudesse responder, Elliot sorriu discretamente.
— Acho melhor você mostrar a ele.
Meu pai olhou de Elliot para mim.
— Mostrar o quê?
Peguei minhas chaves sobre a mesa.
— Você dirigiu horas até aqui para me levar para casa, não foi?
— Sim.
Abri a porta.
— Então venha comigo. Quero mostrar onde é a minha casa de verdade.
Vinte minutos depois, estacionamos diante de um grande hospital.
Meu pai ficou olhando pela janela.
— O que estamos fazendo aqui?
Saí do carro.
Ele me acompanhou até a entrada principal.
Assim que atravessamos as portas, uma enfermeira atrás do balcão levantou a cabeça.
— Doutora Almeida! Ainda bem que encontrei você. O doutor Ribeiro deixou os resultados que pediu.
Meu pai parou.
A enfermeira me entregou uma pasta.
— Obrigada, Camila.
Seguimos pelo corredor.
Duas pessoas me cumprimentaram pelo nome.
Um residente perguntou rapidamente minha opinião sobre um caso que seria discutido na manhã seguinte.
Meu pai não dizia uma palavra.
Até que chegamos diante de uma porta.
Havia uma placa com meu nome.
Dra. Helena Almeida.
Meu pai levou a mão à boca.
Eu achava que finalmente tinha mostrado tudo.
Mas ele ainda não sabia da parte mais importante.
Porque voltar à Medicina não tinha sido a única coisa que aconteceu durante aqueles cinco anos.
E a verdadeira razão pela qual eu havia escolhido aquela especialidade estava diretamente ligada à doença de Elliot.
Quando meu pai descobrisse isso, entenderia que a decisão que ele considerava o maior erro da minha vida havia, na verdade, transformado completamente o tipo de médica que eu me tornara.






