Eu fiquei olhando para o valor na tela, tentando entender o que estava vendo.
— Quanto tem nessa conta?
Daniel ampliou a planilha.
Helena respondeu antes dele.
— Atualmente, pouco mais de três milhões de reais.
Senti minhas pernas enfraquecerem.
— Isso não faz sentido.
Minha irmã nunca fora milionária. Ela vivia confortavelmente, mas nada em sua vida sugeria que pudesse deixar uma quantia daquele tamanho.
Daniel começou a analisar as transações.
— O valor original era muito menor.
Ele apontou para a primeira entrada.
— Aqui. Marina transferiu uma quantia inicial para a Aurora Heritage Holdings. Depois disso, houve rendimentos, novos depósitos e investimentos durante vários anos.
— Quem administrava?
— Essa é a pergunta.
Helena puxou uma cadeira para perto.
— E precisamos ter cuidado. O fato de o nome da Clara aparecer como beneficiária não significa que ela tenha acesso imediato ao dinheiro.
Daniel concordou.
Passamos quase uma hora seguindo o rastro documental.
Aos poucos, uma história começou a surgir.
Marina havia percebido muito antes de morrer que algo estava errado com os Whitmore. Quando retirou o fundo das meninas, não colocou todo o dinheiro em um único lugar.
Ela dividiu os recursos.
Uma parte foi para o fundo protegido das filhas.
Outra permaneceu em investimentos convencionais.
E uma terceira foi colocada naquela estrutura chamada Aurora.
Mas havia algo que eu não compreendia.
— Por que nunca fui avisada?
Daniel encontrou a resposta em um documento antigo.
— Porque havia uma condição.
Helena leu em voz alta:
— “A beneficiária terá acesso mediante apresentação dos documentos previstos no instrumento complementar.”
— Que documentos?
Daniel abriu outra pasta.
Vazia.
— Não estão aqui.
Pensei imediatamente na carta.
Peguei novamente as três páginas de Marina.
Dessa vez, li cada palavra devagar.
No final da última página havia uma frase que antes parecera apenas sentimental:
“Quando as meninas estiverem grandes o suficiente para entender, entregue a elas aquilo que guardei onde nossa mãe costumava guardar os verões.”
Fiquei imóvel.
Mason percebeu.
— Você sabe o que significa?
Eu sabia.
Nossa mãe havia morrido muitos anos antes de Marina.
Quando éramos crianças, passávamos praticamente todos os verões numa pequena casa de madeira perto de Paraty. Nossa mãe guardava fotografias, cartões-postais e lembranças das férias dentro de uma caixa azul.
Depois que nossos pais morreram, a casa foi vendida.
Mas a caixa não.
— Está na minha casa — murmurei.
Helena olhou para mim.
— O quê?
— A caixa da minha mãe.
Saímos do escritório pouco depois.
Helena insistiu em vir comigo, e Daniel também nos acompanhou.
Quando chegamos, Mason ficou com as meninas na sala enquanto subi até o depósito no segundo andar.
Havia caixas que eu não abria há anos.
Decorações de Natal.
Roupas antigas de Mason.
Álbuns de família.
Então encontrei.
Uma caixa azul desbotada, escondida atrás de duas malas.
Sentei-me no chão.
Por alguns segundos, não consegui tocá-la.
A última vez que a abrira, Marina ainda estava viva.
Levei-a para baixo.
As meninas imediatamente reconheceram algumas fotografias da mãe.
— Essa é a mamãe? — uma delas perguntou, segurando uma foto de Marina adolescente.
— É.
Ela sorriu.
Aquilo me deu forças.
Retiramos tudo cuidadosamente.
Fotografias.
Conchas.
Cartões-postais.
Uma pulseira antiga.
No fundo havia uma pequena divisória de papelão.
Eu não lembrava daquilo.
Levantei-a.
Debaixo estava um envelope.
Meu nome aparecia na frente.
Dessa vez, não havia dúvida de que Marina queria que eu encontrasse aquilo.
Dentro havia uma chave pequena, uma sequência de números e outra carta.
Comecei a ler.
“Clara, se você encontrou isso, provavelmente minhas meninas já estão sob seus cuidados. Sinto muito por colocar mais um peso sobre você.”
As lágrimas vieram imediatamente.
Continuei.
Marina explicava que, depois dos problemas com a empresa dos Whitmore, perdera a confiança em algumas pessoas que administravam seu patrimônio.
Por isso, criara uma camada adicional de proteção.
A Aurora não era dinheiro escondido da família.
Era uma reserva destinada ao futuro das filhas.
Meu nome aparecia como beneficiária porque Marina confiava em mim para administrar os recursos até que elas atingissem a idade determinada.
Mas então veio a parte que me fez parar.
“Se alguém tentar convencer você a misturar esse dinheiro com seu patrimônio, não faça isso. Principalmente se essa pessoa tiver qualquer ligação com os Whitmore.”
Helena soltou lentamente o ar.
— Ela realmente tentou prever tudo.
Eu não conseguia parar de pensar em Lucas.
Ele havia perguntado várias vezes se Marina deixara documentos comigo.
Se havia cofres.
Se eu guardava objetos da minha irmã.
Na época, pareciam perguntas inocentes.
Agora tudo fazia sentido.
Daniel examinou a sequência numérica.
— Isso parece referência de um cofre bancário.
Helena concordou.
Na manhã seguinte fomos ao banco indicado nos documentos.
Foram necessárias horas para verificar minha identidade, os registros de Marina e a documentação que me autorizava a acessar o cofre.
Finalmente, uma funcionária nos levou até uma pequena sala privada.
Colocou uma caixa metálica sobre a mesa.
— Podem ficar à vontade.
Quando ela saiu, usei a chave.
Dentro havia documentos originais, um pequeno caderno e um envelope lacrado.
Mas também havia algo que eu não esperava.
Uma fotografia.
Marina estava nela.
Ao lado dela estava Richard Whitmore, pai de Lucas.
Não pareciam amigos.
Pareciam estar discutindo.
No verso, Marina havia escrito uma data.
Daniel pegou o pequeno caderno.
— Clara...
— O quê?
Ele abriu numa página marcada.
Marina havia anotado nomes, datas e valores.
Não era apenas um registro dos investimentos dela.
Parecia um levantamento de outras pessoas que haviam relatado problemas semelhantes com empresas ligadas aos Whitmore.
Helena começou a fotografar cada página.
— Isso pode explicar por que ela estava tão preocupada.
Então abri o envelope lacrado.
Havia uma declaração assinada por Marina.
Ela descrevia as irregularidades que acreditava ter descoberto e afirmava que Richard havia concordado em ajudá-la a corrigir parte delas.
Foi aí que percebi algo inesperado.
Richard talvez não estivesse trabalhando contra Marina.
Talvez estivesse tentando ajudá-la.
No final do documento, havia uma frase:
“Richard afirma que Evelyn desconhece que ele está colaborando comigo. Ele teme o que acontecerá quando ela descobrir.”
Olhei para Daniel.
— Evelyn sempre disse que o marido controlava todas as decisões da empresa.
Daniel balançou a cabeça.
— Depois de ver isso, começo a achar que era exatamente o contrário.
Meu telefone tocou.
Número desconhecido.
Helena fez sinal para eu não atender.
A ligação terminou.
Segundos depois, chegou uma mensagem.
“Encontrou o cofre, não foi?”
Meu coração disparou.
Outra mensagem apareceu.
“Você não entende o que Marina fez. Nem Daniel conhece a história inteira.”
Dessa vez havia uma assinatura.
Evelyn.
Mostrei o telefone a Helena.
Ela fotografou a tela imediatamente.
Então chegou uma terceira mensagem.
“Pergunte a Daniel por que Richard o demitiu de verdade.”
Olhei lentamente para ele.
Daniel havia perdido toda a cor do rosto.
— O que ela está querendo dizer?
Ele não respondeu.
— Daniel?
Ele fechou o caderno de Marina.
— Existe uma coisa que eu não contei.
Helena se colocou imediatamente entre nós.
Daniel levantou as mãos.
— Não vou fazer nada. Mas vocês precisam ouvir.
— Então fale — respondi.
Ele respirou fundo.
— Richard não me demitiu porque descobri as transferências.
— Então por quê?
Daniel olhou diretamente para mim.
— Ele me mandou embora porque eu ajudei Marina a criar a Aurora Heritage Holdings.
O silêncio voltou à sala.
— Você conhecia minha irmã?
— Sim.
Minha garganta apertou.
— Desde quando?
— Quase cinco anos antes da morte dela.
— E por que fingiu não saber quem ela era no casamento?
Daniel fechou os olhos por um instante.
Quando tornou a abri-los, havia culpa em seu rosto.
— Porque eu prometi a Marina que nunca contaria a você até que encontrasse aquela caixa azul.
A raiva subiu imediatamente.
— Por quê?
Daniel apontou para o caderno.
— Porque ela não estava apenas tentando proteger dinheiro.
Ele abriu na última página.
Ali havia uma lista curta de nomes.
O primeiro era Richard Whitmore.
O segundo, Daniel.
O terceiro era Marina.
E o quarto fez meu coração parar por um instante.
Clara Duarte.
Ao lado do meu nome, minha irmã havia escrito:
“Ela é a única pessoa que pode terminar o que começamos.”






