Saí do hotel com a sensação de que aquela noite já tinha me mostrado tudo o que eu precisava saber sobre minha família.
Eu estava errada.
O nome Thomas Reed não saía da minha cabeça.
No estacionamento, antes mesmo de entrar no carro, procurei o nome no celular.
Nada relevante.
Nenhum executivo ligado à Reed Capital.
Nenhum investidor.
Nenhum funcionário antigo que eu reconhecesse.
Daniel apareceu ao meu lado.
— Hannah, não acho uma boa ideia você encontrar Ethan sozinha.
— Ele pediu que eu fosse sozinha.
— Justamente por isso.
Olhei novamente para a mensagem.
O endereço ficava em Somerville, a menos de vinte minutos dali.
— Se eu levar advogado, segurança ou polícia, ele pode desaparecer.
— E se ele estiver tentando manipular você?
— Então quero descobrir por quê.
Daniel suspirou.
— Pelo menos compartilhe sua localização comigo.
Concordei.
Antes de entrar no carro, olhei para as portas de vidro do hotel.
Meu pai ainda estava lá dentro.
Mas não estava mais olhando para mim.
Estava falando ao telefone.
E parecia desesperado.
Vinte e dois minutos depois, parei diante de um pequeno prédio comercial quase vazio.
O endereço correspondia a um antigo escritório de contabilidade.
Subi até o segundo andar.
Ethan estava esperando.
Parecia muito diferente do homem que eu via todas as manhãs na Northstar.
Sem paletó.
Sem sorriso.
Olheiras profundas.
Uma mala pequena estava ao lado da cadeira.
— Vai fugir? — perguntei.
— Estou considerando.
— Isso não ajuda a parecer inocente.
Ele soltou uma risada sem humor.
— Nunca disse que era inocente.
Fechei a porta.
— Quem é Thomas Reed?
O sorriso desapareceu.
— Seu pai nunca contou?
— Se tivesse contado, eu não estaria aqui.
Ethan puxou uma cadeira.
— Sente-se.
— Prefiro ficar em pé.
Ele me observou por alguns segundos.
Então abriu o notebook.
— Há três anos, comecei a investigar os primeiros investidores da Northstar.
— Por quê?
— Porque estava negociando minha participação na empresa. Queria entender a estrutura acionária original.
Aquilo fazia sentido.
— Foi quando descobriu os seiscentos mil dólares?
— Sim.
Ele abriu um documento bancário antigo.
— Malcolm Price nunca colocou dinheiro na Northstar. Ele apenas serviu como intermediário.
— Meu pai já admitiu isso.
Ethan balançou a cabeça.
— Richard colocou parte.
Meu coração acelerou.
— Parte?
— Trezentos mil.
— E o restante?
Ethan virou o notebook para mim.
Outra transferência.
Mesmo valor.
US$ 300.000.
Remetente:
T. REED FAMILY TRUST.
— Thomas — murmurei.
— Sim.
— Quem é ele?
Ethan respirou fundo.
— Oficialmente?
Fez uma pausa.
— Seu tio.
Eu quase ri.
— Meu pai não tem irmão.
— Tem.
Fiquei olhando para ele.
— Isso é absurdo.
— Foi exatamente o que pensei.
Ethan abriu outra pasta.
Fotografias antigas.
Documentos.
Uma certidão de nascimento.
Dois meninos apareciam em uma fotografia amarelada diante de uma casa simples.
Um deles era claramente meu pai.
Muito mais jovem.
Talvez doze anos.
Ao lado dele havia outro garoto.
— Thomas é três anos mais velho que Richard — explicou Ethan. — Eles cresceram juntos.
— Então por que nunca ouvimos falar dele?
— Porque há trinta e dois anos eles romperam completamente.
— Por quê?
Ethan fechou a fotografia.
— Dinheiro.
Claro.
Parecia que tudo naquela família acabava voltando para dinheiro.
— O pai deles, seu avô, começou uma pequena empresa imobiliária. Richard e Thomas trabalharam juntos nela durante anos.
— Reed Capital.
— O que viria a se tornar a Reed Capital.
Ele continuou:
— Thomas era responsável pela parte financeira. Richard cuidava das vendas e dos projetos. Quando a empresa começou a crescer, os dois entraram em conflito.
— E Thomas saiu?
— Essa é a história que Richard contou.
— E a verdade?
Ethan me encarou.
— Thomas acusou seu pai de desviar dinheiro.
Meu corpo ficou rígido.
— Você tem provas?
— Tenho documentos.
— Documentos não significam que a acusação era verdadeira.
— Concordo.
Ele abriu outra pasta.
— Mas seu avô acreditou em Richard.
Thomas perdeu sua participação na empresa.
Mudou-se para outro estado.
E, aparentemente, desapareceu da história da família.
— Então por que ele colocou dinheiro na Northstar?
— Essa foi a parte que eu não conseguia entender.
Ethan se inclinou para trás.
— Até falar com ele.
— Você encontrou Thomas?
— Há oito meses.
A transferência de 2,8 milhões.
— Foi para ele?
— Não.
— Então por que o nome dele aparece?
Ethan respirou fundo.
— Porque Richard estava devolvendo dinheiro.
Fiquei em silêncio.
— Devolvendo o quê?
— O que deveria ter pertencido a Thomas desde o início.
Senti um peso no peito.
— Ethan, pare de falar em enigmas.
Ele abriu um último documento.
Era o testamento do meu avô.
Li devagar.
Depois novamente.
A Reed Capital deveria ter sido dividida igualmente entre Richard e Thomas.
Cinquenta por cento para cada um.
Mas aquilo nunca aconteceu.
— Isso é uma cópia?
— Sim.
— Onde está o original?
— Essa é a pergunta de 17 milhões de dólares.
Olhei para ele.
Ethan continuou:
— Há cerca de um ano, Thomas reapareceu com documentos que, segundo ele, provavam que seu pai havia usado uma versão alterada do testamento décadas atrás.
Minha cabeça começou a doer.
— E os dezessete milhões?
— Um acordo.
Finalmente tudo começou a se encaixar.
— Meu pai está pagando Thomas.
— Exatamente.
— Para ele ficar em silêncio.
— E renunciar a qualquer reivindicação sobre a Reed Capital.
Sentei-me.
Pela primeira vez desde que chegara.
— Então a dívida que vence segunda-feira...
— É a última parcela.
Dezessete milhões.
Meu pai não estava apenas tentando salvar a empresa.
Estava tentando comprar o silêncio do irmão que havia apagado da nossa história.
— E os 2,8 milhões?
— Um pagamento anterior.
Passei as mãos pelo rosto.
— Por que Thomas investiu na Northstar?
Ethan ficou em silêncio por tempo demais.
— Ethan.
— Porque ele sabia quem você era.
— Nunca conheci esse homem.
— Ele conhecia você.
Meu coração acelerou.
— Como?
— Acompanhava sua carreira à distância.
Não consegui responder.
— Quando soube que você estava prestes a perder a empresa, ofereceu trezentos mil dólares. Mas exigiu anonimato.
— Por quê?
Ethan fechou o notebook.
— Segundo ele, você não tinha nada a ver com o que aconteceu entre os irmãos.
Aquilo me atingiu.
Um homem cuja existência minha família escondera havia ajudado a salvar minha empresa.
E nunca pedira nada em troca.
— Então por que você procurou meu pai?
Ethan baixou os olhos.
Finalmente chegávamos à parte dele.
— Porque fiquei com raiva.
— Por causa das ações?
— Sim.
Ele respirou fundo.
— Descobri que Richard tinha financiado parte da Northstar e pensei que talvez existisse algum acordo secreto. Achei que você estava usando aquilo para manter controle da empresa enquanto dizia aos primeiros funcionários que não podia oferecer mais participação.
— Então resolveu vender informações para ele.
— No começo, não vendi nada.
— Mas depois vendeu.
Ele assentiu.
— E me arrependo.
— Depois de receber quatrocentos mil dólares?
Ethan não respondeu.
— Não tente transformar ganância em arrependimento.
Ele aceitou aquilo.
— Você tem razão.
Fiquei de pé.
— Vou entregar tudo ao jurídico.
— Eu esperava que fizesse isso.
— E você provavelmente será processado.
— Eu sei.
Peguei minha bolsa.
Mas antes que eu chegasse à porta, Ethan falou:
— Hannah, tem mais uma coisa.
Parei.
— Sempre tem.
— Thomas está em Boston.
Virei-me.
— O quê?
— Ele veio para receber o pagamento final.
— Onde?
— Eu não sei.
Meu telefone começou a tocar.
Olivia.
Atendi.
Ela estava chorando.
— Hannah, você precisa voltar.
— O que aconteceu?
— O papai desapareceu.
— Como assim?
— Ele saiu do hotel logo depois de você.
— Com quem?
— Ninguém sabe.
Olhei para Ethan.
— E a mamãe?
— Está aqui comigo.
Ouvi minha mãe ao fundo.
Então Olivia disse:
— Hannah... encontramos uma carta no quarto deles.
Meu estômago apertou.
— Leia.
Ouvi papel sendo aberto.
A voz de Olivia tremia.
— “Margaret, desculpe. Passei trinta anos tentando proteger uma mentira e acabei destruindo tudo que queria proteger.”
Fechei os olhos.
— Continua.
Olivia respirou fundo.
— “Não vou permitir que minhas filhas paguem pelo que fiz. Vou resolver isso com Thomas esta noite.”
Abri os olhos.
— Há mais alguma coisa?
— Sim.
Olivia ficou em silêncio.
— O quê?
— Ele deixou uma pasta.
— Que pasta?
— Está cheia de documentos antigos.
Minha mãe começou a falar ao fundo:
— Não abra!
Olivia ignorou.
— Hannah...
— Estou ouvindo.
— Tem uma cópia do testamento do vovô.
Meu coração acelerou.
— Igual à que eu acabei de ver?
— Não sei.
Ouvi páginas sendo viradas.
Então Olivia parou.
— Meu Deus.
— O quê?
— Tem uma carta presa atrás dele.
— De quem?
Silêncio.
— Do vovô.
— Para quem?
Quando Olivia respondeu, sua voz quase desapareceu.
— Para você.
Fiquei imóvel.
— Isso é impossível. Ele morreu quando eu tinha seis anos.
— Está escrito seu nome.
“Para Hannah, quando ela tiver idade suficiente para entender.”
Não consegui respirar por alguns segundos.
— Leia.
Minha mãe gritou:
— Olivia, não!
Mas minha irmã começou.
— “Querida Hannah, se algum dia você estiver lendo esta carta, significa que seus pais finalmente decidiram contar a verdade sobre Thomas...”
Ela parou.
— Continua.
Olivia não respondeu.
— Olivia?
Começou a chorar.
— Hannah... você precisa voltar.
— Leia a carta.
— Não pelo telefone.
Minha voz endureceu.
— Leia.
Ela respirou fundo.
Então pronunciou a frase que mudou completamente tudo o que eu acreditava saber sobre aquela família:
— “Thomas não é apenas irmão do seu pai. Ele é o homem que deveria ter criado você.”
O mundo pareceu parar.
— O quê?
Olivia continuou chorando.
— Hannah... tem outra página.
Minha mão começou a tremer.
— O que diz?
Ouvi minha irmã virar o papel.
Depois, silêncio.
— Olivia?
— A carta diz que, quando você nasceu, houve um acordo entre Richard e Thomas.
— Que acordo?
Ela respirou fundo.
— Não consigo entender tudo. Mas fala sobre sua mãe, sobre Thomas e sobre um segredo que deveria ter sido contado quando você completasse dezoito anos.
Olhei para Ethan.
Ele parecia tão chocado quanto eu.
— Olivia, me diga exatamente o que está escrito.
Minha irmã começou a ler a próxima linha.
Então alguém bateu com força na porta do quarto do hotel.
Ouvi minha mãe gritar.
A ligação ficou confusa.
— Olivia?
— Tem alguém aqui.
— Não abra.
Mas ouvi a porta.
Depois uma voz masculina desconhecida.
— Margaret Reed?
Minha mãe respondeu alguma coisa que não consegui entender.
O homem disse:
— Meu nome é Thomas Reed.
Meu coração parou.
E então ouvi a frase seguinte:
— Vim buscar a carta que Richard deveria ter entregue à Hannah dezoito anos atrás.
A ligação caiu.






