Carolina guardou o envelope no bolso e voltou os olhos para os instrumentos.
— Primeiro, precisamos manter este avião seguro. Depois descobrimos quem colocou isso no meu assento.
O comandante assentiu.
— Concordo.
Carolina sentou-se no lugar do copiloto e colocou o headset. Por alguns segundos, suas mãos permaneceram imóveis sobre as pernas.
Fazia oito anos que ela não ocupava uma cabine de comando.
O ambiente era diferente dos caças que pilotara, mas a lógica continuava familiar: instrumentos, comunicação, procedimentos e, acima de tudo, disciplina.
Ela respirou lentamente.
— Qual é a situação real?
— O piloto automático está funcionando, mas estamos recebendo alertas contraditórios nos sistemas de navegação. Alguns desaparecem e retornam sem motivo aparente. O controle de tráfego já foi informado.
Carolina analisou as telas.
— Então não confie no alerta. Confie no que pode ser confirmado.
O comandante olhou para ela.
Era exatamente o tipo de frase que um instrutor militar diria.
Nos minutos seguintes, os dois começaram a comparar cada indicação com sistemas independentes. Aos poucos, uma conclusão surgiu.
O avião não estava perdendo o controle.
Alguém havia criado uma situação para fazer a tripulação acreditar que estava.
— Isso foi deliberado — murmurou o comandante.
Carolina concordou.
— E quem fez isso provavelmente queria que vocês pedissem ajuda.
— Queria você aqui.
Carolina olhou para a porta fechada.
Sua filha estava do outro lado.
— Então precisamos descobrir por quê.
Nesse instante, a comissária entrou novamente.
— O copiloto está melhor. Um médico que estava entre os passageiros o examinou. Parece que ele teve uma queda brusca de pressão, mas está consciente.
— Ótimo — respondeu o comandante. — E o envelope?
— Perguntei discretamente à tripulação. Ninguém viu quem colocou.
Carolina pensou por alguns segundos.
— Minha filha estava comigo praticamente o tempo todo. O envelope só poderia ter sido colocado quando fui ao banheiro antes de dormir.
A comissária hesitou.
— Talvez tenhamos como descobrir.
Ela explicou que a área próxima à cozinha dianteira possuía um sistema interno usado pela tripulação para acompanhar determinadas zonas de serviço e acesso.
Não mostraria diretamente o assento 12A, mas talvez revelasse quem havia circulado pelo corredor naquele período.
Poucos minutos depois, Caroline observava as imagens.
Passageiros caminhavam até o banheiro.
Comissários passavam com carrinhos.
Nada parecia estranho.
Até que ela viu um homem.
Boné escuro.
Jaqueta cinza.
Ele saiu de uma fileira mais distante, caminhou na direção do assento 12A e permaneceu fora do campo de visão por aproximadamente quinze segundos.
Depois voltou.
Carolina pediu:
— Pare.
A imagem congelou.
O rosto estava parcialmente escondido.
— Amplie.
A qualidade não era perfeita.
Ainda assim, Carolina viu uma cicatriz fina próxima à orelha esquerda do homem.
Seu coração pareceu parar.
— Não...
— Você conhece esse passageiro? — perguntou o comandante.
Carolina não respondeu.
Ela conhecia aquela cicatriz.
Oito anos antes, havia ajudado a colocar um curativo exatamente naquele lugar depois de um acidente durante um treinamento.
O nome dele era Daniel Mercer.
Piloto militar.
Seu parceiro de treinamento.
E uma das poucas pessoas que conheciam o símbolo desenhado no envelope.
Mas havia um problema impossível.
Segundo o relatório oficial que Carolina recebera oito anos antes, Daniel havia morrido.
— Quero ver esse homem — disse ela.
A comissária consultou a lista de passageiros.
Nenhum Daniel Mercer aparecia.
Mas havia um passageiro sentado na fileira 27 que correspondia aproximadamente à descrição.
Nome registrado:
David Miller.
Carolina sentiu o estômago apertar.
— Fique aqui — ordenou o comandante. — Não sabemos com quem estamos lidando.
— Minha filha está naquela cabine.
— Justamente por isso.
Carolina sabia que ele tinha razão.
A comissária voltou discretamente para verificar a fileira 27.
Dois minutos depois, retornou.
— O assento está vazio.
— Banheiro? — perguntou o comandante.
— Já verificamos.
— Então procurem sem alarmar os passageiros.
A busca começou discretamente.
Enquanto isso, Carolina voltou sua atenção aos instrumentos.
De repente, um dos alertas desapareceu.
Depois outro.
E outro.
Em menos de dez segundos, quase todas as anomalias que haviam assustado a tripulação simplesmente cessaram.
As telas voltaram ao normal.
O comandante encarou Carolina.
— Alguém desligou alguma coisa.
Carolina teve a mesma impressão.
Aquilo significava que a pessoa responsável talvez soubesse que estava sendo procurada.
Então o interfone interno tocou.
O comandante atendeu.
Uma voz masculina surgiu do outro lado.
Calma.
Baixa.
— Caroline?
Ela congelou.
Ninguém naquele avião deveria ter acesso àquela linha.
— Quem está falando?
Houve alguns segundos de silêncio.
Então o homem respondeu:
— Você ainda faz a mesma pergunta antes de olhar para os fatos.
Carolina reconheceu a voz.
Oito anos desapareceram em um instante.
— Daniel?
O comandante arregalou os olhos.
A voz continuou:
— Eu não tenho muito tempo. E não fui eu quem colocou este avião em risco.
— Onde você está?
— Isso não importa.
— Você estava morto.
Uma breve pausa.
— Foi isso que disseram a você.
Carolina sentiu uma mistura de raiva e confusão.
— Minha filha está neste avião. Se você fez qualquer coisa que pudesse colocar a vida dela em perigo...
— Eu jamais faria isso.
A voz dele mudou.
Pela primeira vez, parecia emocionada.
— Na verdade, Caroline, foi por causa dela que eu apareci.
Carolina olhou para o comandante.
— Do que você está falando?
Daniel respirou fundo.
— O problema desta noite não começou quando o avião decolou. Começou oito anos atrás, na sua última missão.
Carolina apertou o headset.
— Então me diga a verdade.
— Eu vou dizer.
Uma pausa.
— Mas primeiro você precisa fazer uma coisa.
— O quê?
A resposta fez Carolina olhar imediatamente para a porta da cabine.
— Vá buscar sua filha.
— Por quê?
Daniel permaneceu em silêncio por dois segundos.
Então disse:
— Porque existe algo sobre o pai dela que você nunca soube.
E a ligação caiu.






