Julian mal chegou à porta.
— Onde você pensa que vai? — perguntei.
Ele parou, mas não se virou.
— Para um hotel. Foi isso que você queria, não foi?
Khloe se levantou.
— Então deixa seu celular aqui.
Ele finalmente olhou para ela.
— O quê?
— Se você não tem nada para esconder, deixa o celular.
— Você enlouqueceu.
A reação dele respondeu muito mais do que qualquer explicação.
Harrison aproximou-se de mim e falou baixo:
— Não tente impedi-lo fisicamente. Já temos informação suficiente para começar a preservar registros e verificar os documentos.
Julian abriu a porta.
Antes de sair, olhou para minha mãe.
— Martha, pense muito bem no que está fazendo. Quando Natalie voltar para Dubai, quem vai ficar aqui para cuidar de você?
Minha mãe ficou em silêncio por alguns segundos.
Então respondeu:
— Minha filha voltou para casa e, em poucas horas, fez por mim o que você não fez em dois anos.
Julian bateu a porta.
Khloe começou a chorar.
Eu deveria estar com raiva dela. Uma parte de mim estava.
Mas quando olhei para minha irmã naquele sofá, não vi a mulher arrogante que havia encontrado horas antes.
Vi alguém apavorado.
— Há quanto tempo você sabe? — perguntei.
— Não sei de tudo.
— Então me conte o que sabe.
Khloe respirou fundo.
— Há uns oito meses, Julian começou a receber ligações tarde da noite. Ele saía para atender no jardim ou se trancava no escritório. Achei que estivesse me traindo.
— E você verificou o celular dele.
Ela assentiu.
— Foi quando encontrei as mensagens com “R”.
— Roberto?
— Eu não sabia quem era.
Khloe abriu novamente as fotografias.
— Continuei tirando fotos porque Julian começou a falar sobre “resolver a situação da casa” antes de você voltar.
Harrison sentou-se diante dela.
— Você consegue lembrar das palavras exatas?
Khloe pensou.
— Uma vez ouvi Julian dizer: “Quando a procuração estiver pronta, ela não poderá impedir a operação.”
Meu coração acelerou.
— Que operação?
— Eu não sabia.
Harrison pediu o celular e ampliou algumas das imagens.
Depois de quase cinco minutos, parou em uma fotografia aparentemente banal: uma folha sobre a mesa de Julian.
— Natalie, veja isso.
Havia números escritos à mão.
600.000.
1.850.000.
2.400.000.
E, ao lado, três endereços.
Reconheci apenas um.
O da casa onde estávamos.
— O que são os outros dois?
Minha mãe se aproximou.
Quando viu o segundo endereço, levou a mão à boca.
— Esse era do seu pai.
— Como assim?
— Um terreno.
Eu nunca tinha ouvido falar dele.
— Onde?
— Nos arredores de Austin. Seu pai comprou muitos anos atrás.
— Por que ninguém me contou?
Minha mãe começou a chorar.
— Porque ele dizia que seria sua segurança no futuro. Depois que morreu, Roberto me falou que cuidaria dos documentos até você voltar definitivamente.
Olhei para Harrison.
— Quanto vale?
— Não sei. Mas aquele número ao lado pode ser uma estimativa.
US$ 1,85 milhão.
Senti minha garganta secar.
A casa de US$ 600 mil já não parecia ser o verdadeiro objetivo.
— E o terceiro endereço?
Minha mãe balançou a cabeça.
— Não conheço.
Harrison fotografou a folha.
— Amanhã verificaremos todos os registros disponíveis.
Foi então que Khloe falou:
— Talvez não precisemos esperar até amanhã.
Todos olharam para ela.
— Julian guarda uma chave no cofre do quarto.
— Chave de quê?
— Não sei. É pequena. Tem uma etiqueta escrita “D-214”.
Minha mãe ficou imóvel.
— Duzentos e quatorze?
— Sim.
Minha mãe olhou para mim.
— Seu pai tinha uma caixa de depósito bancário.
Harrison franziu a testa.
— Tem certeza?
— Absoluta. Eu fui com ele algumas vezes quando vocês eram crianças. Depois da morte dele, Roberto disse que tudo havia sido encerrado.
Khloe balançou a cabeça.
— Então por que Julian tem uma chave com esse número?
Ninguém respondeu.
Naquela noite, não toquei no escritório nem procurei a chave. Harrison insistiu que qualquer passo envolvendo possíveis documentos contestados deveria ser feito de maneira cuidadosamente documentada.
Minha prioridade era minha mãe.
Voltamos para o hotel pouco depois da meia-noite.
Quando entramos no quarto, ela parecia exausta.
Ajudei-a a sentar na cama.
— Você vai dormir agora.
Ela segurou minha mão.
— Natalie, preciso te contar outra coisa.
Sentei-me.
— Pode falar.
— Eu menti quando disse que Julian pegou apenas os cartões.
Meu estômago apertou.
— O que mais ele pegou?
— Meu telefone antigo.
— Por quê?
— Ele disse que estava quebrado e compraria outro.
— E comprou?
— Sim.
— Então?
Ela hesitou.
— Naquele telefone havia todas as mensagens que seu pai me mandou durante os últimos meses de vida.
Eu não entendi imediatamente.
— E por que isso importa?
Minha mãe olhou para a porta do quarto como se ainda tivesse medo de que Julian pudesse aparecer.
— Porque seu pai sabia que estava doente. E começou a desconfiar de Roberto.
Fiquei em silêncio.
— Desconfiar do quê?
— De dinheiro desaparecendo de uma empresa que os dois tinham juntos.
A história havia mudado novamente.
Minha mãe explicou que, anos antes, meu pai e Roberto tinham investido juntos em pequenos imóveis e terrenos. Quando meu pai adoeceu, deixou a administração temporariamente nas mãos de Roberto.
Poucos meses depois, começou a encontrar inconsistências.
— Ele dizia que havia propriedades sendo movimentadas sem que ele entendesse como — contou minha mãe.
— E por que nunca procurou a polícia ou um advogado?
— Ele ia procurar. Mas ficou muito doente muito rápido.
— E a caixa?
— Era onde ele guardava as cópias.
Agora tudo começava a fazer sentido.
A caixa desaparecida.
A procuração.
Os documentos assinados por minha mãe.
O terreno.
Roberto.
Julian.
Mas havia uma contradição enorme.
— Se Roberto estava envolvido desde o começo, por que acabou de me ligar alertando sobre Julian?
Minha mãe balançou a cabeça.
— Não sei.
Meu telefone vibrou.
Uma mensagem de um número desconhecido.
Abri.
Era uma fotografia.
Julian estava entrando em um prédio comercial.
O horário registrado era 23h48.
Abaixo da foto havia apenas uma frase:
“Ele veio buscar a caixa.”
Outra mensagem chegou imediatamente.
“Se quiser saber o que seu pai descobriu, venha amanhã às 8h.”
E então uma terceira:
“Não confie em ninguém até ver o conteúdo.”
Mostrei para minha mãe.
— Roberto? — ela perguntou.
— Provavelmente.
Mas Harrison era a única pessoa, além de nós, que sabia que Julian havia saído daquela casa.
E Roberto aparentemente sabia exatamente para onde ele iria.
Na manhã seguinte, às 7h55, eu estava diante do escritório de Roberto.
Não fui sozinha.
Harrison estava comigo.
Quando entramos, a recepcionista estava chorando.
— Senhorita Natalie?
— Sim.
Ela apontou para o corredor.
— O senhor Roberto não está aqui.
— Então onde está?
— Não sabemos.
— Ele marcou comigo às oito.
Ela respirou fundo.
— Eu sei.
Então colocou um envelope sobre o balcão.
Meu nome estava escrito à mão.
“NATALIE — SOMENTE SE EU NÃO ESTIVER AQUI ÀS 8H.”
Harrison e eu nos entreolhamos.
Abri o envelope.
Dentro havia um endereço, um código de acesso e uma única folha.
No topo, reconheci imediatamente a assinatura do meu pai.
Mas foram as primeiras palavras que fizeram minhas mãos começarem a tremer:
“Para minha filha Natalie: se você está lendo isto, alguém finalmente encontrou o que tentei esconder.”
Abaixo havia uma lista de seis propriedades.
A casa da minha mãe era apenas uma delas.
E ao lado da última propriedade aparecia um valor que me fez reler três vezes.
US$ 4,7 milhões.
No final da página, meu pai havia escrito outra frase:
“Não foi Roberto quem roubou de mim.”
Harrison aproximou-se.
Continuei lendo.
A linha seguinte revelava o nome da pessoa que meu pai realmente suspeitava.
E quando vi aquele nome, entendi por que minha mãe havia sido mantida com medo durante dois anos.
Não era um estranho.
Era alguém da nossa própria família.






