A chegada que ninguém esperava
Quando entrei no saguão do hotel, meus pais já estavam me esperando perto das portas de vidro.
Minha mãe foi a primeira a se aproximar.
— Hannah, graças a Deus. Você veio.
Ela tentou segurar meu braço, mas eu me afastei.
Meu pai olhou rapidamente para minha roupa simples — jeans, blusa clara e tênis — e depois para os convidados elegantes que circulavam atrás de nós.
Mesmo naquele momento, aquilo parecia incomodá-lo.
— Você não podia ter colocado um vestido? — ele murmurou.
Eu quase ri.
Algumas horas antes, eu não era sofisticada o bastante para entrar naquela festa.
Agora, depois de aparecer no noticiário como fundadora de uma empresa avaliada em milhões, minha roupa ainda era o problema.
— Não vim para a festa — respondi. — Vim por causa disso.
Mostrei no celular a fotografia que Olivia havia me enviado.
O rosto do meu pai mudou.
— Podemos conversar lá dentro.
— Não.
Minha mãe olhou nervosamente ao redor.
— Hannah, por favor. Há pessoas importantes aqui.
— Eu sei. Foi exatamente por isso que vocês me disseram para ficar em casa.
Ela abaixou os olhos.
Meu pai perdeu a paciência.
— Não transforme isso numa vingança familiar. A Reed Capital está negociando uma rodada de investimentos. Eu só usei o nome da Northstar para mostrar que temos contatos no setor médico.
Fiquei alguns segundos olhando para ele.
— Você colocou minha empresa como “parceira estratégica”.
— É apenas linguagem de apresentação.
— Não quando você está pedindo dinheiro a investidores.
Foi então que percebi três homens atravessando a entrada.
O primeiro era Daniel Mercer, diretor jurídico da Northstar.
Ao lado dele estava nosso responsável por compliance.
O terceiro homem eu não conhecia.
Meu pai conhecia.
Assim que o viu, ficou pálido.
— Sr. Bennett...
O homem não apertou sua mão.
— Richard, precisamos conversar.
Meu pai olhou para mim.
— O que você fez?
— Eu? Nada.
Daniel se aproximou e me entregou uma pasta.
— Hannah, confirmamos a distribuição dos materiais. Pelo menos 74 convidados receberam cópias impressas ou digitais.
Minha mãe levou a mão à boca.
— Setenta e quatro?
Daniel assentiu.
— E alguns receberam projeções financeiras que mencionam contratos futuros com a Northstar.
Virei lentamente para meu pai.
— Contratos futuros?
— Hannah, eu posso explicar.
— Então explique.
Ele olhou para Daniel, para Bennett e depois para os convidados que começavam a observar a discussão.
— Não aqui.
— Você usou meu nome aqui. Podemos conversar aqui.
Olivia apareceu atrás da nossa mãe.
Ela ainda segurava uma taça, mas suas mãos tremiam.
— Pai... tem mais uma coisa.
Ele fechou os olhos.
— O quê?
Olivia colocou o celular diante de mim.
Na tela havia uma página do material apresentado naquela noite.
Meu nome aparecia em letras pequenas.
HANNAH REED — CONSULTORA DE TECNOLOGIA E MEMBRO DO CONSELHO ESTRATÉGICO DA REED CAPITAL.
Senti algo muito diferente da raiva.
Era quase incredulidade.
— Você me colocou no conselho da sua empresa?
— Era provisório — meu pai respondeu rapidamente.
— Sem me perguntar?
— Você é minha filha!
A frase ecoou pelo saguão.
Algumas pessoas se viraram.
Meu pai percebeu tarde demais o que acabara de dizer.
Olhei diretamente para ele.
— Engraçado. Às oito e doze desta manhã, ser sua filha não foi suficiente para eu entrar na sua festa.
Ele ficou em silêncio.
Daniel abriu a pasta.
— Hannah, precisamos interromper imediatamente qualquer apresentação que associe a Northstar à Reed Capital.
— Faça isso.
Meu pai deu um passo à frente.
— Espere.
Olhei para ele.
— Você não entende o que isso vai causar.
— Então me explique.
Sua voz baixou.
— Se esses investidores saírem daqui acreditando que mentimos, posso perder tudo.
Pela primeira vez naquela noite, percebi que havia medo verdadeiro em seus olhos.
Mas ainda não sabia o tamanho do problema.
Bennett finalmente falou:
— Richard, talvez seja melhor contar a ela.
Meu pai lançou-lhe um olhar furioso.
— Não.
— Contar o quê? — perguntei.
Ninguém respondeu.
Olivia olhou para nosso pai.
Depois para mim.
— Hannah... acho que a festa não era realmente uma comemoração.
Minha mãe começou a chorar.
— Olivia, fique quieta.
Mas minha irmã continuou.
— Ouvi o papai conversando com dois investidores antes de você chegar. Ele precisa fechar alguma coisa esta noite.
Meu pai bateu a mão contra o balcão.
— Chega!
O saguão inteiro pareceu ficar em silêncio.
Então Bennett disse calmamente:
— A Reed Capital tem uma dívida vencendo segunda-feira.
Olhei para ele.
— Quanto?
Meu pai não respondeu.
— Quanto, pai?
Bennett respondeu por ele:
— Dezessete milhões de dólares.
Olivia ficou imóvel.
Minha mãe fechou os olhos.
Eu simplesmente encarei meu pai.
Agora tudo fazia sentido.
Os duzentos convidados.
Os investidores.
A festa extravagante.
A insistência em mostrar status.
E principalmente a falsa parceria com a Northstar.
Meu pai não estava comemorando quarenta anos de casamento.
Ele estava tentando salvar sua empresa.
E havia decidido usar a minha para conseguir isso.
Mas aquela ainda não era a pior descoberta.
Meu celular vibrou.
Era uma mensagem de Daniel.
“Precisamos conversar em particular. Encontramos algo nos documentos da Reed Capital relacionado à Northstar. Isso começou muito antes desta festa.”
Levantei os olhos lentamente.
Meu pai estava me observando.
E, pela expressão dele, tive certeza de uma coisa:
ele já sabia exatamente o que Daniel tinha encontrado.






