Miguel não desviou os olhos de Caroline.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou. À volta deles, os passageiros continuavam sentados, sem perceber que uma conversa iniciada nove anos antes estava finalmente a chegar ao momento que Caroline mais temera.
— O que queres dizer com isso? — perguntou ela.
Miguel olhou discretamente para Inês, que continuava a dormir algumas filas à frente.
— Não aqui.
— Não — respondeu Caroline, num tom firme. — Escreveste o nome da minha filha numa mensagem, fizeste-me acreditar durante nove anos que estavas morto e apareces agora num avião onde está a acontecer uma falha que aparentemente já sabias que iria ocorrer. Vais explicar-me tudo. Agora.
Miguel fechou os olhos por um instante.
— Tens razão.
Fez sinal para que ela se sentasse no lugar vazio ao lado dele.
— Naquela última missão, não perdi o controlo do avião como dizia o relatório. Os meus instrumentos começaram a mostrar informações contraditórias. Exatamente como está a acontecer agora.
Caroline sentiu um arrepio.
— Então porque não disseste nada?
— Eu disse.
Miguel baixou a voz.
— O meu último contacto contigo não foi a última transmissão que fiz naquela noite.
Caroline ficou imóvel.
Lembrava-se perfeitamente daquele momento.
A voz de Miguel pelo rádio.
Depois interferência.
Depois silêncio.
Durante anos, acreditara que aquelas tinham sido as últimas palavras dele.
— Houve outra transmissão? — perguntou.
Miguel assentiu.
— Quase quatro minutos depois. Consegui recuperar comunicações durante alguns segundos. Informei a base de que os dados do sistema estavam a ser manipulados. Dei a minha posição. Disse que ainda estava vivo.
— Nunca recebi essa transmissão.
— Eu sei.
Caroline olhou para ele, horrorizada.
— Alguém a apagou?
— Alguém garantiu que nunca chegasse à equipa de investigação.
Miguel explicou que conseguira realizar uma aterragem de emergência longe da zona inicialmente prevista. Ficara gravemente ferido, mas sobrevivera. Quando finalmente conseguiu contactar as autoridades, percebeu que a situação era muito maior do que imaginara.
O relatório oficial já o dava como desaparecido e presumivelmente morto.
E alguém dentro do sistema parecia extremamente interessado em manter essa versão.
— Porque desapareceste durante nove anos? — perguntou Caroline. — Porque não me procuraste?
A pergunta saiu mais magoada do que ela pretendia.
Miguel baixou os olhos.
— Porque duas pessoas que tentaram ajudar-me receberam ameaças. Uma delas tinha família. Foi aí que percebi que, se aparecesse, não seria apenas eu a correr riscos.
— E decidiste por mim que eu não devia saber?
— Na altura, tu também estavas sob observação.
Caroline franziu o sobrolho.
— Eu?
Miguel assentiu.
— Pouco depois da investigação, descobri que estavas grávida.
Caroline levantou-se de repente.
— Não metas Inês nisto.
— Ouve-me.
— Porque sabes sequer que eu estava grávida?
Miguel demorou alguns segundos a responder.
— Porque o teu nome apareceu num ficheiro que eu consegui recuperar.
Caroline voltou lentamente a sentar-se.
Miguel continuou:
— Havia vários pilotos naquele ficheiro. Pessoas envolvidas em testes, investigações e incidentes técnicos. Ao lado do teu nome havia informações pessoais. Morada. Contactos. E, mais tarde, apareceu uma atualização: “dependente — filha, Inês Almeida”.
Caroline sentiu uma onda de raiva.
— Estavam a vigiar-nos?
— Não sei até onde chegou. Mas foi por isso que escrevi o nome dela na mensagem. Precisava que percebesses imediatamente que isto não era uma coincidência.
Caroline apertou a insígnia na mão.
— E este voo?
Miguel olhou em direção à cabine.
— Há três meses, comecei a encontrar referências ao mesmo padrão de interferência que aconteceu no meu avião. Mas desta vez os dados apontavam para sistemas civis antigos que estavam a ser investigados por várias entidades europeias. Descobri o número deste voo há quatro dias.
— E descobriste que eu estava nele?
— Sim.
— Como?
Miguel hesitou.
Essa hesitação deixou Caroline ainda mais inquieta.
— Miguel.
— Porque alguém me enviou a lista parcial de passageiros.
Caroline sentiu o estômago apertar-se.
— Quem?
— Não sei.
Ele tirou um telemóvel antigo do bolso.
No ecrã estava uma mensagem recebida dois dias antes.
Voo 417. Lugar 12A. Ela ainda consegue reconhecer o padrão.
Por baixo havia apenas uma inicial.
R.
Caroline ficou a olhar para o ecrã.
— Quem é R.?
— É isso que ainda estou a tentar descobrir.
Nesse momento, o avião inclinou-se ligeiramente.
Nada suficientemente brusco para provocar pânico, mas Caroline percebeu imediatamente que tinham alterado a trajetória.
Um segundo depois, a voz do comandante surgiu nos altifalantes, pedindo aos passageiros que permanecessem sentados e com os cintos apertados.
A hospedeira aproximou-se rapidamente.
— Senhora Almeida, o comandante precisa de si outra vez.
Caroline levantou-se.
Miguel também.
— Eu vou contigo.
— Não.
— Caroline, conheço este padrão melhor do que qualquer pessoa naquele cockpit.
Ela olhou para ele durante alguns segundos.
Depois assentiu.
Antes de regressar à cabine, Caroline parou junto de Inês.
Desta vez, a menina estava acordada.
— Mamã?
Caroline ajoelhou-se.
— Está tudo bem, querida.
— Porque estão todos assustados?
Caroline sorriu e afastou-lhe suavemente uma madeixa do rosto.
— Porque os adultos às vezes ficam assustados quando não entendem uma coisa. Mas estamos a tentar percebê-la.
Inês olhou para Miguel.
— Quem é aquele senhor?
Caroline ficou sem resposta.
Miguel também.
— Um amigo antigo da mamã — disse finalmente Caroline.
Inês apertou o coelho contra o peito.
— Então ele pode ajudar-te.
Caroline beijou-lhe a testa.
— Espero que sim.
Quando os dois chegaram à cabine, Duarte apontou imediatamente para os instrumentos.
— Temos outro problema.
Os dados falsos tinham desaparecido.
Agora tudo parecia perfeitamente normal.
Demasiado normal.
Miguel aproximou-se do painel.
— Foi exatamente isto que aconteceu comigo.
Caroline percebeu imediatamente.
— Primeiro confunde os pilotos. Depois desaparece.
Duarte franziu o sobrolho.
— Para quê?
Caroline olhou para os dados registados pelo sistema.
E então compreendeu.
— Para fazer parecer que nunca aconteceu.
O silêncio caiu sobre a cabine.
Se aterrassem normalmente, qualquer investigação posterior poderia concluir que os alertas tinham sido erros momentâneos.
Tal como acontecera nove anos antes.
Miguel apontou para o registo independente.
— Precisamos de preservar os dados antes que sejam substituídos.
Duarte começou imediatamente a seguir os procedimentos adequados para conservar todas as informações disponíveis e contactar o controlo aéreo.
Caroline observava os instrumentos quando ouviu um pequeno som atrás de si.
Uma notificação.
Não vinha do painel.
Vinha do telemóvel de Miguel.
Ele retirou-o do bolso.
Uma nova mensagem tinha acabado de chegar.
Miguel empalideceu.
— Caroline...
Ela aproximou-se.
No ecrã havia apenas uma frase:
“Agora já sabes que Miguel sobreviveu. Pergunta-lhe por que razão estava realmente naquela missão.”
Caroline virou lentamente a cabeça.
Miguel já não parecia apenas preocupado.
Parecia assustado.
— O que significa isto? — perguntou ela.
— Caroline...
— O que fazias realmente naquela missão?
Miguel permaneceu em silêncio.
Duarte e o copiloto olharam para ele.
Finalmente, Miguel pousou a insígnia sobre a consola.
— A missão que te disseram que era um exercício nunca foi apenas um exercício.
Caroline sentiu o coração acelerar.
— Então o que era?
Miguel olhou diretamente para ela.
— Estávamos a testar um sistema experimental. E tu nunca devias ter sido incluída naquele voo.
— Mas fui.
— Sim.
— Porquê?
Miguel respirou fundo.
— Porque alguém alterou a escala poucas horas antes da partida.
Caroline lembrou-se imediatamente.
Era verdade.
Outro piloto deveria ter voado naquele dia.
Ela fora chamada inesperadamente.
Durante nove anos, nunca dera importância àquela mudança.
— Quem alterou a escala? — perguntou.
Miguel pegou novamente no telemóvel e abriu um documento antigo.
Havia uma assinatura digital no fundo.
Caroline aproximou-se.
E sentiu o mundo parar.
Reconhecia aquele nome.
Era impossível não reconhecer.
O homem responsável pela alteração não era um desconhecido.
Não era sequer alguém do passado distante.
Era alguém que Caroline tinha visto poucas horas antes de embarcar naquele avião.
Alguém que sabia que ela viajaria com Inês.
E, naquele instante, Caroline percebeu algo ainda mais perturbador:
essa pessoa também estava a bordo do voo 417.






