Caroline continuou a olhar para o nome no ecrã, incapaz de acreditar no que estava a ver.
Ricardo Vale.
O homem que, nove anos antes, coordenara parte da operação e assinara a alteração que colocara Caroline naquela missão.
Mas Ricardo não pertencia apenas ao passado.
Naquela mesma tarde, no aeroporto, Caroline tinha-o visto junto à zona de embarque.
Ele aproximara-se dela como se o encontro fosse uma coincidência.
“Caroline? Há quanto tempo.”
Ela quase não o reconhecera. Estava mais velho, com o cabelo grisalho e óculos de armação escura, mas mantinha a mesma voz calma.
Tinham conversado durante menos de dois minutos.
Ricardo perguntara para onde ia.
Caroline respondera que viajaria para Portugal com a filha.
Ele sorrira para Inês.
“Já estás tão crescida.”
Na altura, Caroline não dera importância à frase.
Agora sentiu um frio percorrer-lhe o corpo.
— Ele sabia o nome dela — murmurou.
Miguel aproximou-se.
— Quem?
— Ricardo. No aeroporto. Chamou Inês pelo nome.
Miguel ficou imóvel.
— Tu apresentaste-a?
Caroline tentou recordar cada segundo daquele encontro.
Depois abanou lentamente a cabeça.
— Não.
Duarte levantou-se parcialmente do lugar.
— Tem a certeza de que ele está neste avião?
— Vi-o entrar na zona de embarque — respondeu Caroline. — Mas não o vi depois disso.
Miguel tirou imediatamente o telemóvel.
— Temos de descobrir o lugar dele.
Duarte contactou discretamente a chefe de cabine. Não queria qualquer anúncio nem movimentos que alarmassem os passageiros.
Pouco depois, receberam a resposta.
Ricardo Vale constava da lista.
Lugar 4C.
Classe executiva.
Caroline olhou para Miguel.
— Então vamos falar com ele.
Duarte abanou a cabeça.
— Não sem sabermos exatamente o que está a acontecer. Se esse homem estiver envolvido, confrontá-lo pode fazê-lo destruir informação importante.
Miguel concordou.
— Precisamos de provas.
Caroline olhou novamente para os instrumentos.
Os sistemas pareciam normais.
O avião seguia estável.
Mas agora ela compreendia que o verdadeiro perigo talvez nunca tivesse sido fazer o avião cair.
Talvez alguém estivesse a tentar provar outra coisa.
— Miguel, há nove anos, qual era o objetivo do sistema experimental?
Ele demorou a responder.
— Avaliar até que ponto informações contraditórias podiam afetar a tomada de decisão de um piloto.
Caroline franziu o sobrolho.
— Estavam a testar pilotos?
— E sistemas.
— Sem nos dizer?
— Eu sabia parcialmente. Tu não.
A revelação magoou-a.
— Então mentiste-me naquela noite.
— Sim.
A resposta direta deixou Caroline em silêncio.
Miguel continuou:
— Foi o maior erro da minha vida. Aceitei participar porque me disseram que tudo estaria controlado. Quando percebi que tinham colocado um piloto que desconhecia completamente o teste...
— Eu.
— Sim. Tentei cancelar a operação. Não consegui.
Caroline afastou-se.
Durante nove anos, culpara-se pela perda de Miguel.
Agora descobria que tinha sido colocada numa situação que nunca compreendera verdadeiramente.
— E Ricardo?
— Era um dos responsáveis pela análise dos resultados.
Nesse momento, Duarte recebeu uma chamada interna.
Ouviu durante alguns segundos.
A expressão dele mudou.
— O lugar 4C está vazio.
Caroline virou-se.
— Onde está Ricardo?
— A tripulação não sabe.
Duarte pediu que verificassem discretamente as casas de banho e as áreas acessíveis aos passageiros.
Dois minutos depois chegou nova informação.
Nada.
Ricardo Vale não estava em nenhum local onde deveria estar.
Mas a bagagem de mão permanecia junto ao lugar 4C.
Miguel olhou para Caroline.
— Ele não desapareceu.
— Então onde está?
Duarte ficou pensativo.
— Existem zonas neste avião às quais os passageiros normalmente não têm acesso.
A chefe de cabine iniciou uma verificação seguindo os procedimentos da tripulação.
Caroline queria acompanhá-la, mas Duarte recusou.
— A sua prioridade neste momento é ajudar-nos a compreender os dados. A tripulação trata do passageiro.
Caroline sabia que ele tinha razão.
Regressou ao painel.
Foi então que reparou numa coisa.
— Esperem.
Ampliou mentalmente a sequência temporal dos alertas que Duarte lhe mostrara.
Primeiro alerta.
Pausa.
Segundo alerta.
Pausa maior.
Terceiro alerta.
Os intervalos não eram aleatórios.
— Miguel, lembras-te dos intervalos da nossa missão?
Ele olhou para os registos.
A expressão dele mudou.
— Meu Deus.
Duarte perguntou:
— O quê?
Miguel começou a escrever os intervalos num papel.
47 segundos.
113 segundos.
47 segundos.
203 segundos.
Caroline conhecia aqueles números.
— São referências.
Miguel assentiu.
— Coordenadas de ficheiros.
Durante a antiga operação, os dados de teste eram identificados através de sequências numéricas semelhantes.
Caroline pegou na fotografia antiga e voltou-a.
No canto inferior havia um número quase apagado:
47-113-47-203.
Era a mesma sequência.
— A fotografia é a chave — disse Caroline.
Miguel olhou para ela.
— Não estão apenas a repetir o incidente.
— Estão a tentar levar-nos até alguma coisa.
Nesse momento, a chefe de cabine voltou a contactar Duarte.
Tinham encontrado Ricardo.
Estava sentado numa pequena área próxima da galley traseira, aparentemente tranquilo.
Não tentara fugir.
Não estava a fazer nada de suspeito.
Na verdade, parecia estar à espera.
E pedira para falar com Caroline.
— Não vás — disse Miguel imediatamente.
Caroline olhou para ele.
— Passei nove anos sem respostas. Não vou passar mais nove minutos.
Duarte concordou com uma condição: dois membros da tripulação permaneceriam por perto e Caroline não ficaria sozinha com Ricardo.
Ela saiu da cabine.
Ao passar pelo lugar 12A, viu Inês acordada a desenhar num pequeno caderno.
Caroline sorriu para ela.
Inês sorriu de volta.
Aquele pequeno gesto deu-lhe a força de que precisava.
Quando chegou à parte traseira, encontrou Ricardo sentado calmamente.
— Sabia que acabarias por perceber — disse ele.
Caroline permaneceu de pé.
— Porque estou neste avião?
Ricardo levantou os olhos.
— Porque compraste um bilhete.
— Não brinques comigo.
O sorriso desapareceu.
Caroline colocou a fotografia sobre a mesa diante dele.
— Porque tinha Miguel isto? Porque o meu nome foi colocado naquela missão? E porque é que o mesmo padrão apareceu hoje?
Ricardo observou a fotografia.
— Miguel está vivo, então.
Caroline sentiu imediatamente que havia algo errado naquela reação.
— Tu não sabias?
Ricardo riu sem humor.
— Passei nove anos a tentar descobrir.
Miguel surgiu atrás de Caroline.
Quando Ricardo o viu, perdeu completamente a expressão tranquila.
— Tu...
Miguel aproximou-se.
— Olá, Ricardo.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Ricardo fez algo que Caroline não esperava.
Levantou-se e abraçou Miguel.
Miguel ficou rígido.
— Pensei que te tinham encontrado — murmurou Ricardo.
Caroline estava completamente confusa.
— Quem são “eles”?
Ricardo afastou-se.
— As pessoas que transformaram aquele teste numa operação que nunca deveria ter acontecido.
— Tu assinaste a minha entrada na missão.
— A minha assinatura foi utilizada. Mas eu não fiz aquela alteração.
Caroline ficou imóvel.
— Estás a dizer que foi falsificada?
— Estou a dizer que, quando percebi o que tinha acontecido, o ficheiro original já tinha desaparecido.
Miguel abanou a cabeça.
— Conveniente.
— Achas que não pensei que fosses tu durante anos?
Os dois homens ficaram em silêncio.
Caroline percebeu então a dimensão do problema.
Miguel suspeitava de Ricardo.
Ricardo suspeitava de Miguel.
E alguém tinha conseguido mantê-los separados durante nove anos.
— Então quem enviou as mensagens? — perguntou Caroline.
Ricardo franziu o sobrolho.
— Que mensagens?
Miguel mostrou-lhe o telemóvel.
Ricardo leu.
O rosto dele perdeu a cor.
— Esta inicial...
— R — disse Caroline. — Pensámos que eras tu.
Ricardo abanou lentamente a cabeça.
— Não significa Ricardo.
Ele olhou para Caroline.
— Significa Raven.
Miguel recuou um passo.
— Isso não existe.
— Existe.
Ricardo explicou que Raven fora o nome interno de um pequeno projeto de análise de comportamento e resposta a informação contraditória. O projeto tinha sido encerrado oficialmente depois do incidente de Miguel.
Mas algumas partes dos dados tinham desaparecido antes da investigação.
— Durante anos, achei que alguém tinha roubado os resultados para esconder responsabilidades — disse Ricardo. — Agora começo a pensar que alguém continuou o trabalho.
Caroline olhou para a cabine.
— E escolheu este voo para quê?
Ricardo respondeu:
— Talvez não tenha escolhido o voo.
Depois olhou diretamente para ela.
— Talvez tenha escolhido a ti.
Caroline sentiu o estômago apertar-se.
— Porquê?
Ricardo aproximou a fotografia.
— Porque naquela missão aconteceu uma coisa que nunca apareceu no relatório.
— O quê?
— Quando os teus instrumentos começaram a contradizer-se, foste a única piloto que deixou de seguir os dados principais e começou a comparar fontes independentes.
Miguel assentiu lentamente.
— Foi assim que ela percebeu que havia manipulação.
Ricardo continuou:
— O sistema foi criado para estudar quanto tempo demoraria um piloto a deixar de confiar nos próprios instrumentos.
Olhou para Caroline.
— Tu fizeste o contrário. Descobriste o padrão.
Caroline compreendeu.
— Então hoje queriam saber se eu ainda conseguia fazê-lo.
Ninguém respondeu.
De repente, as luzes da cabine piscaram uma vez.
Depois regressaram.
O avião permaneceu estável.
Mas Caroline já sabia que aquilo significava alguma coisa.
Correu de volta à cabine com Miguel e Ricardo.
Duarte apontou para o painel.
— Voltou.
Outro alerta.
Mas desta vez Caroline não olhou para o aviso principal.
Olhou para os sistemas que continuavam coerentes.
Comparou os valores.
Depois viu algo que os outros ainda não tinham percebido.
— Isto não está a tentar enganar-nos.
Miguel aproximou-se.
— Então?
Caroline apontou para a sequência.
— Está a comunicar connosco.
Os alertas surgiam em intervalos específicos.
Duarte registou os números.
Miguel começou a convertê-los usando a mesma referência encontrada na fotografia.
Pouco a pouco, surgiu uma nova sequência.
Não era uma coordenada.
Era uma hora.
02:17.
Caroline olhou para o relógio da cabine.
02:11.
Seis minutos.
Ricardo empalideceu.
— Às 02:17 aconteceu o quê há nove anos?
Miguel respondeu imediatamente:
— Foi a hora em que o meu avião desapareceu oficialmente dos sistemas.
Caroline sentiu o coração bater mais depressa.
Faltavam cinco minutos.
Então o telefone interno tocou.
Duarte atendeu.
Era uma hospedeira junto da fila 12.
A voz dela parecia confusa.
— Comandante... temos uma situação estranha.
Caroline aproximou-se imediatamente.
— É a Inês?
— Ela está bem. Mas encontrou uma coisa dentro do coelho de peluche.
Caroline gelou.
— O quê?
— Há um pequeno envelope escondido no interior.
Caroline saiu da cabine a correr.
Quando chegou ao lugar 12A, Inês segurava o brinquedo enquanto a hospedeira tinha nas mãos um envelope branco.
— Mamã, o coelhinho estava descosido — explicou a menina. — E isto caiu.
Caroline pegou no envelope.
Não havia nome.
Abriu-o.
Dentro estava uma pequena pen USB e um pedaço de papel.
Apenas uma frase:
“02:17. A verdade esteve contigo durante toda a viagem.”
Caroline olhou para Inês.
— Quem tocou no teu coelho antes de entrarmos no avião?
A menina pensou.
— O senhor simpático.
— Que senhor?
— Aquele que falou contigo no aeroporto.
Caroline sentiu o sangue gelar.
— Ricardo?
Inês abanou a cabeça.
— Não. O outro senhor.
Caroline ajoelhou-se diante dela.
— Que outro senhor, querida?
Inês apontou lentamente para a frente do avião.
— O homem que estava contigo quando compraste o café.
Caroline ficou completamente imóvel.
Porque, naquele momento, lembrou-se.
Tinha realmente falado com alguém antes do embarque.
Uma conversa de menos de trinta segundos que considerara insignificante.
Um homem aproximara-se dela dizendo que o coelho de Inês tinha caído ao chão.
Entregara-lhe o brinquedo.
Caroline agradecera.
E nunca mais pensara nisso.
Até agora.
— Como era ele? — perguntou Miguel.
Caroline levantou-se lentamente.
— Não preciso de me lembrar.
Olhou para a câmara instalada no teto da zona de embarque que vira antes de entrar no avião.
— O aeroporto terá imagens.
Depois olhou para o relógio.
02:16.
Faltava menos de um minuto.
Caroline apertou a pen USB na mão.
E compreendeu finalmente que a emergência nunca tinha sido criada para derrubar o avião.
Tinha sido criada para obrigá-la a encontrar aquela pen.
Às 02:17 em ponto, todos os alertas desapareceram.
O painel regressou ao normal.
E o telemóvel de Miguel recebeu uma última mensagem:
“Agora já tens a verdade. Mas quando vires quem colocou a pen no brinquedo de Inês, vais desejar nunca ter aberto o ficheiro.”






