Caroline ficou a olhar para o nome como se esperasse que as letras mudassem.
David Morgan.
Não mudaram.
Durante quase sete anos, David tinha sido uma presença constante na sua vida. Conhecera-o depois de abandonar a aviação, numa altura em que Caroline estava determinada a construir uma existência completamente diferente.
David parecia representar tudo aquilo de que ela precisava.
Era tranquilo.
Paciente.
Nunca fazia demasiadas perguntas sobre o passado.
Quando Caroline acordava de madrugada depois de um pesadelo, ele limitava-se a sentar-se ao lado dela.
Quando Inês nasceu, David estivera no hospital.
E embora a relação entre os dois tivesse terminado três anos antes, continuavam a falar regularmente por causa da menina.
— Deve haver algum erro — murmurou Caroline.
Miguel permaneceu em silêncio.
Ricardo ampliou o documento.
— Não é apenas o nome.
Ao lado de David aparecia um código.
RAVEN — Behavioral Systems / Civilian Integration
Caroline sentiu um arrepio.
— Ele disse-me que trabalhava em consultoria tecnológica.
— Talvez não tenha mentido completamente — respondeu Ricardo. — Raven precisava de especialistas capazes de estudar como pessoas treinadas reagiam quando recebiam informação contraditória.
Miguel olhou para Caroline.
— Quando o conheceste?
Ela pensou.
— Cerca de oito meses depois da missão.
Ricardo e Miguel trocaram um olhar.
Caroline percebeu imediatamente.
— Não.
— Caroline...
— Não digas isso.
— Temos de considerar a possibilidade.
Ela afastou-se do computador.
— Estás a dizer que David se aproximou de mim deliberadamente?
Ninguém respondeu.
O silêncio foi suficiente.
Caroline sentiu algo dentro dela quebrar.
Durante anos acreditara que o encontro com David tinha sido uma coincidência feliz num período terrível da sua vida.
Agora começava a perguntar-se se alguma parte daquela relação tinha sido verdadeira.
Pegou no telemóvel.
Havia cobertura limitada através do serviço de bordo, mas algumas mensagens ainda chegavam.
Abriu a conversa com David.
A última mensagem dele tinha sido enviada naquela manhã:
“Boa viagem. Dá um abraço à Inês por mim quando chegarem.”
Caroline releu-a.
Depois reparou numa coisa que anteriormente lhe parecera completamente normal.
David sabia que elas iam viajar.
Mas Caroline nunca lhe tinha enviado o número do voo.
Mesmo assim, duas noites antes, ele perguntara:
“Ainda vais no voo noturno?”
Na altura, Caroline presumira que já lhe tinha contado.
Agora já não tinha tanta certeza.
— Ele sabia — disse.
Miguel aproximou-se.
— Sabia o quê?
— Que era um voo noturno.
Caroline percorreu mensagens antigas.
Quanto mais procurava, mais pequenos detalhes encontrava.
David perguntara a hora de partida.
Perguntara onde ficariam em Portugal.
Perguntara até se Inês continuava a levar o coelho de peluche para todo o lado.
Perguntas que pareciam banais quando vinham do pai de uma criança.
Mas agora tinham outro significado.
— Quero ligar-lhe — disse Caroline.
— Não — respondeu Ricardo imediatamente.
— Se ele estiver envolvido, quero ouvir a voz dele.
— E se ele perceber que encontrámos os ficheiros?
Caroline olhou para o computador.
— Talvez seja exatamente isso que precisamos.
Miguel compreendeu primeiro.
— Queres fazê-lo falar.
Caroline assentiu.
Duarte autorizou que utilizassem uma ligação disponível, desde que nada interferisse com as comunicações operacionais.
Caroline marcou o número.
Chamou uma vez.
Duas.
Três.
David atendeu.
— Caroline?
A voz era familiar.
Demasiado familiar.
— Olá, David.
— Está tudo bem? Não devias estar sobre o Atlântico?
Caroline olhou para Miguel.
David sabia aproximadamente onde estavam.
— Estamos.
— Então porque estás a ligar?
Caroline respirou fundo.
— Aconteceu uma coisa estranha.
Silêncio.
Muito curto.
Mas suficiente.
— O quê?
— Encontrámos algo dentro do coelho da Inês.
Desta vez, o silêncio foi mais longo.
— Dentro do coelho?
— Sim.
Caroline ouviu David respirar.
— O que encontraste?
Não perguntou se Inês estava bem.
Não perguntou como alguma coisa poderia ter ido parar ao brinquedo.
Perguntou diretamente o que encontraste.
Caroline sentiu todas as dúvidas desaparecerem.
— Uma pen.
David não respondeu.
— Sabes alguma coisa sobre isso? — perguntou Caroline.
— Não.
— David.
— Caroline, ouve-me. Não abras essa pen.
Miguel e Ricardo olharam imediatamente para ela.
Caroline fechou os olhos.
— Porque não?
— Porque não sabes o que contém.
— Como sabes que contém alguma coisa perigosa?
Outra pausa.
David percebeu o erro.
— Estou apenas a dizer para teres cuidado.
Caroline deixou cair a máscara.
— Encontrei Raven.
Do outro lado, silêncio absoluto.
— David?
Finalmente ele respondeu:
— Onde estás agora?
— Isso interessa?
— Interessa muito.
— Porquê?
A voz de David mudou.
Não parecia ameaçadora.
Parecia desesperada.
— Porque se encontraste o arquivo, Caroline, significa que Bennett conseguiu chegar até ti.
Ela sentiu um choque.
— Conheces Bennett.
— Claro que conheço.
— Então diz-me a verdade.
David respirou fundo.
— Não pelo telefone.
— Tiveste sete anos para me dizer pessoalmente.
— Eu sei.
A voz dele vacilou.
— E vou carregar isso para o resto da vida.
Caroline ficou em silêncio.
— Aproximaste-te de mim por causa de Raven?
David não respondeu imediatamente.
Quando finalmente falou, a resposta foi simples.
— Sim.
Caroline fechou os olhos.
Era como ouvir a confirmação de uma traição que já conhecia.
— Então tudo foi mentira.
— Não.
— Não me digas isso.
— O início foi mentira.
Caroline sentiu lágrimas nos olhos.
— E depois?
— Depois apaixonei-me por ti.
Ela soltou uma pequena gargalhada amarga.
— Que conveniente.
— Caroline, fui enviado para observar-te durante seis semanas. Só isso. Raven queria saber se ainda te lembravas dos padrões da missão.
Miguel aproximou-se do telefone.
— Quem te enviou?
David reconheceu imediatamente a voz.
— Miguel?
O silêncio voltou.
— Estás vivo.
Miguel respondeu friamente:
— Parece que muita gente fica surpreendida com isso.
David respirou fundo.
— Então Bennett conseguiu juntar-vos.
— Bennett não criou os alertas — disse Caroline. — Quem criou?
David demorou demasiado a responder.
— Não sei.
— Mentira.
— Caroline, eu abandonei Raven há anos.
— Quando?
— Quando Inês nasceu.
Caroline ficou imóvel.
— Porquê precisamente nessa altura?
David respondeu tão baixo que quase não se ouviu.
— Porque percebi finalmente o que aquele projeto fazia às pessoas.
Caroline olhou para o lugar onde Inês estava sentada.
— E agora?
— Agora tens de aterrar, entregar a pen às autoridades e não confiar em ninguém que apareça dizendo representar Raven.
— Incluindo tu?
David ficou em silêncio.
— Especialmente eu, se não conseguir provar quem sou.
A resposta surpreendeu Caroline.
— Há uma coisa que preciso de saber — disse ela. — Quem é responsável por Raven atualmente?
David respirou fundo.
— Oficialmente, ninguém. O projeto foi encerrado.
— E na realidade?
— Na realidade, dividiu-se. Algumas pessoas queriam destruir tudo. Outras queriam continuar.
— Nomes.
— Não os tenho todos.
— Dá-me um.
David hesitou.
Depois respondeu:
— Elias Ward.
Ricardo deixou cair a caneta que tinha na mão.
Caroline olhou para ele.
— Conheces?
Ricardo empalideceu.
— Foi o diretor científico original.
Miguel abanou a cabeça.
— Ward morreu há onze anos.
David ouviu.
— Não. Foi isso que ele quis que acreditassem.
Caroline sentiu um arrepio.
Outra pessoa oficialmente morta.
Outra mentira.
— Onde está ele?
— Não sei. Mas há meses que alguém usa os protocolos dele.
Nesse instante, ouviu-se um sinal na cabine.
Duarte recebeu uma comunicação.
As autoridades portuguesas tinham sido informadas da situação e preparavam procedimentos para a chegada do avião.
O comandante olhou para Caroline.
— Estamos a aproximar-nos da costa europeia.
Pela primeira vez em horas, Caroline sentiu esperança.
— David — disse ela —, quando aterrarmos, vou entregar tudo.
— Faz isso.
— E depois quero respostas.
— Vais tê-las.
Caroline ia desligar quando David disse:
— Espera.
— O quê?
— Há uma coisa sobre a Inês que precisas de saber.
Caroline ficou imediatamente tensa.
— Se vais dizer-me outra vez que Raven a observava...
— Não.
David respirou fundo.
— A pasta com o nome dela não existe apenas porque Bennett a estava a proteger.
Caroline sentiu o coração acelerar.
— Então porquê?
— Porque, quando Inês nasceu, descobri que alguém tinha aberto um perfil Raven em nome dela.
— Uma bebé?
— Sim.
— Porquê?
— Não sei. Foi nesse momento que decidi sair.
Caroline apertou o telefone.
— E nunca me disseste?
— Tentei apagar o perfil. Depois passei anos a garantir que ninguém se aproximava dela.
Caroline olhou para Miguel.
— Qual era a classificação?
David demorou alguns segundos.
— Legacy.
Ricardo levantou imediatamente a cabeça.
— Isso é impossível.
— O que significa? — perguntou Caroline.
Ricardo aproximou-se.
— Legacy não era uma categoria operacional. Era apenas uma hipótese teórica.
— Que hipótese?
Ricardo hesitou.
— Estudar se determinadas respostas ao stress, reconhecimento de padrões e tomada rápida de decisões apareciam também nos descendentes dos participantes.
Caroline ficou horrorizada.
— Estavam interessados na minha filha por causa de mim?
— Parece que sim.
A raiva substituiu o medo.
— Então ouve-me muito bem, David. Ninguém vai aproximar-se da minha filha.
— Concordo.
— Nunca mais.
— Foi por isso que tentei destruir o ficheiro dela.
Caroline desligou.
Não queria ouvir mais.
Pouco depois, Duarte anunciou que começariam a preparar a aproximação.
O céu à frente já não era completamente negro.
Uma linha muito ténue começava a surgir no horizonte.
Portugal.
Terra.
Segurança.
Caroline regressou ao lugar 12A.
Inês estava acordada.
— Já acabaste de ajudar o comandante?
Caroline sorriu.
— Quase.
— Vamos chegar?
Caroline pegou-lhe na mão.
— Vamos.
Inês encostou a cabeça ao ombro da mãe.
— Eu sabia.
— Como?
— Porque tu nunca desistes.
A frase atingiu Caroline de uma maneira inesperada.
Durante nove anos, tinha pensado que abandonar a aviação significava ter desistido.
Talvez estivesse errada.
Talvez tivesse apenas escolhido outra coisa para proteger.
Minutos depois, voltou à cabine para acompanhar a fase final.
Duarte e o copiloto tinham tudo sob controlo.
Desta vez, Caroline não precisava de assumir nada.
Ficou apenas atrás deles, observando.
O avião desceu através das nuvens.
As primeiras luzes da costa portuguesa apareceram ao longe.
Depois cidades.
Estradas.
Finalmente, a pista.
Quando as rodas tocaram o solo, Caroline ouviu aplausos espalharem-se pela cabine.
Alguns passageiros choraram.
Outros abraçaram-se.
Caroline fechou os olhos.
Tinham conseguido.
Mas a história ainda não tinha terminado.
Quando o avião parou numa zona reservada do aeroporto, vários veículos oficiais aguardavam.
Duarte recebeu instruções para manter os passageiros sentados durante alguns minutos.
Caroline voltou para junto de Inês.
Miguel sentou-se do outro lado.
— Há nove anos pensei que nunca voltaria a ver-te — disse Caroline.
— Eu também.
— Ainda estou zangada contigo.
Miguel sorriu ligeiramente.
— Tens todo o direito.
— Mas estou contente por estares vivo.
Os olhos dele ficaram húmidos.
— Isso já é mais do que mereço.
A porta do avião abriu-se.
Dois representantes das autoridades portuguesas entraram, acompanhados por técnicos responsáveis por preservar os registos do voo.
Caroline entregou-lhes a pen.
Ricardo entregou os documentos.
Miguel apresentou-se.
Tudo foi registado.
Tudo ficou oficialmente documentado.
Desta vez, ninguém poderia simplesmente apagar uma transmissão e reescrever a história.
Caroline acreditou que finalmente podia respirar.
Até uma das autoridades se aproximar.
— Senhora Almeida?
— Sim?
— Há uma pessoa no terminal que pediu para falar consigo.
Caroline ficou tensa.
— Quem?
O homem olhou para a identificação que tinha nas mãos.
— Thomas Bennett.
Caroline sentiu o coração parar por um instante.
Bennett estava ali.
Vivo.
À espera dela.
— Está sozinho?
A autoridade hesitou.
— Não.
— Quem está com ele?
O homem consultou novamente a informação.
— Um cidadão norte-americano chamado David Morgan.
Caroline ficou imóvel.
David estava em Portugal.
Mas ela acabara de falar com ele ao telefone.
E, segundo tudo aquilo em que acreditava, David estava a milhares de quilómetros dali.
Caroline pegou imediatamente no telemóvel e voltou a ligar para o número.
O telefone tocou.
Uma vez.
Duas.
Então, através da porta aberta do avião, Caroline ouviu um toque distante vindo do corredor do terminal.
O mesmo toque.
Cada vez mais próximo.
Ela levantou os olhos.
Uma figura apareceu ao fundo.
Era David.
Tinha o telemóvel na mão.
E caminhava na direção dela.
Mas não estava sozinho.
Ao seu lado vinha Bennett.
Caroline apertou a mão de Inês.
David parou a alguns metros.
Olhou primeiro para Caroline.
Depois para Miguel.
Finalmente para a filha.
— Caroline — disse ele. — Agora posso explicar tudo.
Ela manteve-se imóvel.
— Espero que sim.
David respirou fundo.
— Porque há uma última coisa que nenhum dos ficheiros te mostrou.
— O quê?
Ele olhou para Bennett.
O antigo comandante abriu uma pasta que trazia consigo.
Retirou um documento original, envelhecido pelo tempo.
Colocou-o diante de Caroline.
Era a primeira autorização do Projeto Raven.
Caroline percorreu a página até encontrar a data.
Depois viu uma coisa impossível.
O projeto não tinha começado nove anos antes.
Tinha começado trinta e dois anos antes.
Antes de Caroline entrar para a Força Aérea.
Antes de conhecer Miguel.
Antes de conhecer David.
Caroline levantou lentamente os olhos.
— Porque é que o meu nome está num projeto criado quando eu era criança?
Bennett ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— Porque, Caroline, tu nunca foste escolhida para Raven quando te tornaste piloto.
Fechou a pasta.
— Raven já te acompanhava muito antes disso.






