A mensagem continuava aberta na tela rachada do meu celular.
“Confirmamos a transferência. Não foi um erro. E encontramos mais três.”
Levantei os olhos devagar.
Meu pai já não parecia o homem arrogante que, menos de uma hora antes, segurava um microfone enquanto centenas de pessoas riam de mim. Ele estava imóvel, com os ombros tensos, observando o aparelho na mão de Gabriel.
— Jessi — disse Arthur. — Quero falar com você. Em particular.
— Agora você quer privacidade?
Algumas pessoas próximas ouviram. Meu pai apertou a mandíbula.
— Isto é assunto de família.
— Não — respondi. — Acho que deixou de ser assunto de família quando quatrocentas pessoas foram convidadas a participar da minha humilhação.
Chloe se aproximou rapidamente.
— Podemos parar com isso? Este é o meu casamento.
Olhei para minha irmã.
Por um instante, senti pena dela. Chloe passara a vida inteira sendo colocada num pedestal construído pelo nosso pai. Talvez nem percebesse quantas vezes eu precisara ser diminuída para que ela permanecesse lá em cima.
— Você tem razão — falei. — Hoje deveria ser sobre você. Eu não pretendia revelar nada aqui.
Arthur respirou aliviado cedo demais.
— Então vá embora.
Gabriel virou o rosto para ele.
Meu pai imediatamente percebeu o erro.
— Quero dizer… talvez seja melhor todos se acalmarem.
Foi quando Roberto Vasconcelos se aproximou novamente.
— Jessi, essas transferências têm relação com a documentação que recebemos do Grupo Sterling?
Arthur empalideceu.
— Roberto, não vamos misturar negócios com uma discussão familiar.
Roberto nem olhou para ele.
Eu hesitei.
Não queria transformar o casamento da minha irmã em uma audiência improvisada. Ao mesmo tempo, havia uma pergunta que precisava ser respondida.
— Pai, você conhece a empresa Aurora Consultoria Ltda.?
O silêncio dele respondeu antes de sua boca.
Chloe franziu a testa.
— Aurora? O que é isso?
— Uma empresa que recebeu quatro pagamentos do Grupo Sterling nos últimos onze meses — expliquei. — Valores altos. Todos registrados como serviços de consultoria.
— Isso é perfeitamente normal — Arthur respondeu depressa.
— Seria, se a Aurora tivesse funcionários, escritório ou histórico real de prestação desses serviços.
A capitã Mariana permaneceu alguns passos atrás de Gabriel, sem interferir. Gabriel também não disse nada. Ele sabia que aquela era uma batalha que eu precisava conduzir sozinha.
Meu telefone vibrou novamente.
Outra mensagem.
Dessa vez havia um documento anexado.
Abri.
Li a primeira página.
Depois a segunda.
Quando cheguei à última linha, minhas mãos ficaram frias.
— Não pode ser…
Gabriel se inclinou.
— O que encontraram?
Mostrei o documento.
Era o registro societário original da Aurora.
Havia um nome associado à empresa.
Não era o de meu pai.
Era o da minha mãe.
Eleanor Sterling.
Minha mãe havia morrido cinco anos antes.
— Pai… — minha voz quase falhou. — Por que existe uma empresa movimentando dinheiro em nome da mamãe?
Chloe perdeu a cor.
— O quê?
Arthur não respondeu.
— Ela morreu há cinco anos — continuei. — A Aurora foi registrada dois meses depois da morte dela.
Meu pai olhou ao redor.
Pela primeira vez, pareceu perceber que o salão inteiro havia ficado silencioso.
— Você não entende.
— Então me faça entender.
— Não aqui.
— Onde, então? Na fonte?
Ele fechou os olhos por um segundo.
Aquela frase o atingiu.
Mas o que aconteceu em seguida me surpreendeu ainda mais.
Chloe caminhou até nosso pai e estendeu a mão.
— Me dê seu telefone.
— Não seja ridícula.
— Me dê.
— Chloe…
— Você usou o nome da mamãe?
Arthur permaneceu calado.
Minha irmã começou a chorar.
Não eram lágrimas de noiva preocupada com uma festa arruinada. Pela primeira vez naquela noite, Chloe parecia simplesmente uma filha tentando entender quem era o próprio pai.
Então uma voz surgiu atrás dela.
— Chloe?
Era Daniel, seu recém-marido.
Ele tinha ouvido praticamente tudo.
— Existe alguma coisa que você precisa me contar?
Chloe se virou.
— Eu não sabia de nada.
— Não estou perguntando sobre a empresa.
Ela ficou imóvel.
Daniel retirou do bolso interno do paletó um envelope branco.
Meu pai deu um passo para trás.
E foi nesse instante que percebi que Arthur reconhecia aquele envelope.
— Onde você conseguiu isso? — perguntou.
Daniel olhou para ele.
— Estava no escritório reservado para os presentes. Um funcionário disse que um homem pediu que fosse entregue à Chloe depois da cerimônia.
Minha irmã abriu o envelope com as mãos trêmulas.
Dentro havia uma carta antiga.
No canto superior, reconheci imediatamente a caligrafia.
Meu coração parou.
— Essa letra…
Chloe levantou os olhos para mim.
— É da mamãe.
Meu pai avançou.
— Me dê isso.
Gabriel se colocou discretamente entre Arthur e Chloe.
Não precisou ameaçá-lo. Apenas permaneceu ali.
Chloe começou a ler.
Depois de algumas linhas, levou a mão à boca.
— Meu Deus…
— O que diz? — perguntei.
Ela não respondeu.
Então me entregou a carta.
As primeiras palavras eram simples:
“Minhas filhas, se vocês estiverem lendo isto, significa que Arthur finalmente fez exatamente aquilo que eu temia.”
Meu peito apertou.
Continuei lendo.
Nossa mãe falava de documentos, contas e de um patrimônio que havia deixado para nós duas. Dizia que tinha tomado providências para impedir que Arthur controlasse tudo depois de sua morte.
Mas havia uma última frase que mudou completamente o significado daquela noite:
“Jessi, há uma razão para eu ter colocado a maior responsabilidade em suas mãos. Um dia, sua irmã vai precisar que você a proteja do próprio pai.”
Olhei para Chloe.
Ela estava chorando em silêncio.
Durante toda a minha vida, eu acreditara que minha mãe também havia escolhido Chloe.
Que eu sempre tinha sido a segunda filha.
A difícil.
A dispensável.
Mas talvez eu tivesse entendido tudo errado.
Talvez minha mãe tivesse visto o que estava acontecendo muito antes de mim.
E talvez aquele casamento não tivesse reunido nossa família por acaso.
Virei a carta.
Havia algo escrito no verso.
Um endereço.
E abaixo dele, apenas quatro palavras:
“O original está no cofre.”
Meu pai viu.
E seu rosto perdeu completamente a cor.
Naquele momento, eu soube que precisávamos descobrir o que havia naquele cofre antes que Arthur tivesse a oportunidade de chegar até ele primeiro.






