Gabriel atendeu no segundo toque.
— Jessi?
— Meu pai desapareceu. Maurício também. E doze milhões foram transferidos ontem à noite.
Houve alguns segundos de silêncio.
— Você e Chloe estão seguras?
— Estamos na fazenda.
— Fiquem aí. Não tentem procurar ninguém por conta própria. Henrique já acionou as medidas legais?
— Sim.
— Então deixem que ele cuide disso.
Olhei para Chloe. Ela estava parada junto à janela do quarto azul, abraçando os próprios braços.
— Gabriel… eu não sei mais o que pensar.
Sua voz suavizou.
— Você não precisa descobrir tudo hoje.
Desliguei pouco depois.
Naquela noite, Chloe e eu decidimos dormir na fazenda.
Teresa preparou dois quartos, mas nenhuma de nós conseguiu descansar.
Às duas e dezessete da manhã, ouvi passos no corredor.
Sentei-me imediatamente.
— Chloe?
Nenhuma resposta.
Abri a porta.
Minha irmã estava parada diante do quarto azul.
— Você também ouviu? — sussurrou.
Assenti.
Então vimos uma sombra atravessar o final do corredor.
Meu coração disparou.
— Quem está aí?
A luz acendeu.
Era Teresa.
Ela estava pálida.
— Desculpem assustar vocês. Mas tem um carro no portão.
— A esta hora?
— O homem disse que precisa falar com vocês.
— Quem?
Teresa hesitou.
— Seu pai.
Quinze minutos depois, Arthur entrou na sala.
Estava sozinho.
O homem impecável que eu conhecia havia desaparecido.
Sua camisa estava amarrotada, o cabelo desarrumado e o rosto parecia exausto.
Chloe foi diretamente ao assunto.
— Onde está Maurício?
Arthur olhou para nós.
— Não sei.
— E os doze milhões?
Ele fechou os olhos.
— Foi por isso que vim.
Coloquei o telefone sobre a mesa, já preparado para registrar qualquer informação que pudesse ser relevante, com o conhecimento dele e de Henrique por chamada.
— Então fale.
Arthur sentou-se.
— A transferência não foi minha.
— A autorização saiu da sua conta — respondi.
— Eu sei.
— Então alguém teve acesso.
Ele assentiu.
— Maurício.
Chloe soltou uma risada amarga.
— E espera que acreditemos nisso?
— Não. Espero que vocês verifiquem.
Meu pai retirou um envelope do bolso.
Dentro havia registros impressos de acesso ao sistema financeiro da empresa.
Um login tinha sido realizado às 23h48 da noite do casamento.
— Onde você estava nesse horário? — perguntei.
Arthur olhou para mim.
— Tentando encontrar você.
— Eu estava no hotel.
— Eu sei agora.
Ele empurrou outro papel para mim.
O acesso havia sido feito de um endereço eletrônico associado ao antigo escritório de Maurício.
— Por que você não entregou isso imediatamente a Henrique?
— Porque fui atrás dele.
— Você fez o quê?
— Eu queria recuperar o dinheiro antes que tudo viesse à tona.
Fechei os olhos.
Mesmo naquele momento, meu pai continuava tentando controlar as consequências sozinho.
— Você ainda não entendeu nada.
— Jessi…
— Encontrou Maurício?
Arthur demorou para responder.
— Encontrei o carro dele.
— Onde?
— No estacionamento do aeroporto.
Chloe ficou branca.
— Ele fugiu?
— Talvez.
Meu pai colocou algo sobre a mesa.
Um celular.
— Estava dentro do carro.
— Você pegou o telefone dele? — perguntei, incrédula.
— Não toquei em nada além disso. Já falei com Henrique. Ele está vindo com as autoridades competentes.
Aquilo pelo menos demonstrava que Arthur finalmente começava a entender que não poderia resolver tudo escondendo provas.
Mas então o aparelho vibrou.
Uma mensagem apareceu na tela bloqueada.
Não abrimos.
Só conseguimos ver a prévia.
“Você deveria ter seguido o plano. Agora suas filhas sabem.”
Chloe olhou para nosso pai.
— Que plano?
Arthur empalideceu.
— Eu não sei.
— Pai.
— Estou falando a verdade.
Dessa vez, porém, havia algo diferente na voz dele.
Não parecia arrogância.
Parecia medo.
Henrique chegou pouco antes das quatro da manhã acompanhado pelas pessoas responsáveis por preservar o aparelho e encaminhar o caso corretamente.
Ninguém tentou desbloquear o telefone.
Os documentos também foram entregues.
Quando finalmente amanheceu, eu estava exausta.
Foi então que Henrique recebeu uma ligação.
Ele ouviu durante quase um minuto.
— Entendi. Não façam nada até eu chegar.
Desligou.
— Encontraram Maurício.
Arthur levantou-se.
— Onde?
Henrique olhou para ele.
— Em um hotel próximo ao aeroporto.
— Ele estava tentando fugir?
— Não.
— Então o quê?
Henrique respirou fundo.
— Ele estava esperando alguém.
Meu estômago apertou.
— Quem?
— Ainda não sabemos. Mas encontraram uma passagem aérea comprada em nome de outra pessoa.
Chloe franziu a testa.
— Quem?
Henrique mostrou o nome no celular.
Eu nunca tinha visto aquela pessoa.
Arthur, sim.
No instante em que leu, segurou a cadeira.
— Não pode ser.
— Quem é? — perguntei.
Meu pai demorou alguns segundos.
— Beatriz Nogueira.
— E quem é Beatriz?
Arthur olhou para mim.
— A antiga assistente particular da sua mãe.
Eu conhecia vagamente o nome.
Mas Chloe aparentemente lembrava.
— A mulher que desapareceu depois do funeral?
Arthur assentiu.
— Ela não desapareceu. Eu a demiti.
— Por quê?
Meu pai desviou os olhos.
— Porque ela sabia demais.
O silêncio caiu sobre a sala.
Henrique abriu os documentos que havia trazido.
— Parece que Beatriz também tinha acesso aos registros da Aurora.
— Ela trabalhava com Maurício? — perguntei.
Arthur balançou a cabeça.
— Não naquela época.
— Então por que eles estariam se encontrando agora?
Meu pai ficou calado.
Chloe perdeu a paciência.
— Pare de esconder pedaços da história!
Arthur olhou para nós.
Então finalmente falou:
— Porque Beatriz tinha uma cópia do documento que Eleanor mais queria proteger.
— Qual documento?
Ele olhou para o teto por alguns segundos, como se procurasse coragem.
— O acordo original de propriedade do Grupo Sterling.
Eu não entendi imediatamente.
— E daí?
— O Grupo Sterling não começou comigo.
— Sabemos. Foi fundado pelo vovô.
— Não.
Meu pai balançou a cabeça.
— Essa é a história que contei.
Chloe e eu ficamos imóveis.
— A empresa foi criada com dinheiro da família da sua mãe.
Meu coração disparou.
Arthur continuou:
— Eleanor era a acionista original majoritária.
— Era?
Ele assentiu.
— Quando nos casamos, ela tinha cinquenta e um por cento.
Tudo começou a fazer sentido.
O patrimônio.
A necessidade de controlar os documentos.
O medo de minha mãe se separar.
— O que aconteceu com as ações dela?
Meu pai não respondeu.
Henrique respondeu por ele.
— É isso que precisamos descobrir.
Naquela tarde, Beatriz foi localizada.
Ela não estava no aeroporto.
Não estava sequer na mesma cidade.
Havia retornado ao Brasil três semanas antes e estava hospedada discretamente em São Paulo.
Quando Henrique conseguiu falar com ela, a resposta foi simples:
Ela conversaria conosco.
Mas somente comigo e Chloe.
Dois dias depois, encontramos Beatriz em uma sala do escritório de Henrique.
Ela tinha pouco mais de sessenta anos.
Quando nos viu, começou a chorar.
— Vocês se parecem tanto com Eleanor.
Sentamos.
Beatriz colocou uma pequena caixa sobre a mesa.
— Sua mãe me pediu para guardar isso caso alguma coisa acontecesse.
— Por que esperou cinco anos? — perguntei.
Ela abaixou os olhos.
— Porque eu tive medo.
Não julguei.
Depois de tudo que descobrira, compreendia o poder que Arthur exercia sobre quem dependia dele.
Beatriz abriu a caixa.
Dentro havia documentos originais.
Entre eles, o contrato societário do Grupo Sterling.
Henrique começou a analisar.
Dez minutos depois, retirou os óculos.
— Arthur não mentiu sobre essa parte.
Chloe apertou minha mão.
— Mamãe realmente era dona da maioria?
— Originalmente, sim.
— Então para quem foram as ações?
Henrique continuou lendo.
Seu rosto mudou.
— Esperem.
Virou várias páginas.
Depois olhou para Beatriz.
— Isto foi registrado?
— O documento original, sim.
— Onde?
Ela indicou uma anotação.
Henrique levantou-se imediatamente e chamou outro advogado.
Eu não conseguia esperar.
— Henrique, o que está acontecendo?
Ele voltou para a mesa.
— Antes de morrer, Eleanor transferiu a participação dela.
Meu coração acelerou.
— Para quem?
Henrique colocou o documento diante de nós.
Havia dois nomes.
Jessica Sterling — 25,5%.
Chloe Sterling — 25,5%.
Minha irmã ficou imóvel.
Juntas, tínhamos 51%.
Controle majoritário.
— Isso significa… — Chloe começou.
— Que, se os documentos forem válidos e a transferência tiver sido efetivamente registrada — Henrique explicou — vocês duas podem ser as acionistas controladoras do Grupo Sterling.
Pensei na fonte.
Nas risadas.
Na voz de meu pai diante de quatrocentas pessoas:
“Ela nem conseguiu encontrar um acompanhante.”
Durante todos aqueles anos, Arthur acreditara que controlava a empresa que usava para medir o valor de todos ao redor dele.
Mas talvez a empresa nunca tivesse sido realmente dele.
Olhei para Chloe.
— Não vamos fazer nada até verificarem tudo.
Ela assentiu.
— Nada impulsivo.
Henrique sorriu discretamente.
— Sua mãe ficaria feliz em ouvir isso.
Mas Beatriz ainda não havia fechado a caixa.
— Existe mais uma coisa.
Ela retirou um envelope vermelho.
Na frente estava escrito:
PARA ARTHUR.
— Eleanor me pediu que entregasse isso a ele apenas depois que as meninas descobrissem a verdade.
Olhei para Henrique.
— Podemos?
— É endereçado a Arthur. Ele deve recebê-lo.
Naquela noite, meu pai veio ao escritório.
Coloquei o envelope diante dele.
Arthur reconheceu a letra imediatamente.
Suas mãos começaram a tremer.
Abriu.
Leu em silêncio.
Então, pela primeira vez em toda a minha vida, vi meu pai chorar.
Não discretamente.
Não para conseguir alguma coisa.
Ele simplesmente desabou.
A carta tinha apenas alguns parágrafos.
Arthur finalmente a colocou sobre a mesa.
No final, minha mãe havia escrito:
“Se você estiver lendo isto, Arthur, então nossas filhas finalmente descobriram que nunca precisaram competir pelo seu amor. Você ainda terá uma escolha: perder apenas o controle da empresa ou perder suas filhas também.”
Meu pai ficou olhando para aquela frase por muito tempo.
Então levantou os olhos para nós.
— O que vocês vão fazer comigo?
Olhei para Chloe.
Depois para ele.
— Essa é a primeira coisa que você ainda não entendeu.
— O quê?
— Isso não é sobre o que vamos fazer com você.
Empurrei os documentos para Henrique.
— As irregularidades serão tratadas legalmente. O dinheiro será rastreado. As responsabilidades serão determinadas pelas provas.
Arthur engoliu em seco.
— E a empresa?
Chloe respondeu:
— Também será auditada.
— E eu?
Dessa vez, fui eu quem respondeu.
— Você vai ter que aprender a viver sem controlar nossas decisões.
Meu pai abaixou a cabeça.
Mas havia ainda uma decisão que Chloe e eu precisávamos tomar.
Uma decisão que definiria se o Grupo Sterling continuaria sendo o monumento ao poder de Arthur…
ou se finalmente se tornaria aquilo que nossa mãe havia tentado construir antes de morrer.






