O endereço escrito no verso da carta não levava a um banco.
Levava a uma casa.
Quando reconheci o nome da rua, senti um arrepio.
— A casa da vovó — murmurei.
Chloe levantou os olhos.
— Aquela casa ainda existe?
— Existe — respondeu Arthur imediatamente. — Mas não há nada lá.
Foi rápido demais.
Todos perceberam.
Gabriel se aproximou de mim.
— Jessi, não precisamos resolver isso esta noite.
Ele tinha razão. Eu também sabia que qualquer documento potencialmente relevante precisava ser tratado da maneira correta, não arrancado de um cofre no meio de uma disputa familiar.
Mas havia algo que meu pai ainda não sabia.
— Não precisamos ir até lá — falei.
Arthur franziu a testa.
— Como assim?
Virei a carta novamente.
Abaixo do endereço havia uma sequência de números quase apagada. Eu reconhecia aquele formato.
Era o número de registro do escritório de advocacia que cuidara do patrimônio da minha avó.
Peguei o celular.
— Minha mãe não estava nos mandando procurar fisicamente um cofre. Ela estava nos dizendo onde procurar o registro dele.
Arthur avançou um passo.
— Jessi, chega.
Dessa vez, Chloe se colocou entre nós.
— Não. Agora eu quero saber também.
Meu pai olhou para ela como se estivesse vendo uma desconhecida.
— Depois de tudo que fiz por você?
Chloe soltou uma risada amarga.
— É exatamente isso que estou tentando descobrir, pai. O que você realmente fez por mim?
Daniel segurou a mão dela.
Pela primeira vez naquela noite, minha irmã não procurou a aprovação de Arthur.
Procurei o nome do escritório no celular. Ele ainda existia.
Mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Roberto se aproximou.
— Acho que deveríamos encerrar qualquer conversa comercial esta noite. Segunda-feira, meus advogados vão revisar toda a documentação do Grupo Sterling.
Meu pai virou-se bruscamente.
— Roberto, não tome uma decisão precipitada por causa de uma briga entre pai e filha.
— Não estou tomando decisão nenhuma por causa da sua filha.
Roberto apontou para meu telefone.
— Estou tomando uma decisão porque aparentemente existem pagamentos que precisam ser esclarecidos.
O salão começou a se encher de cochichos.
Arthur olhou ao redor.
Eu conhecia aquele homem.
Para ele, perder dinheiro era doloroso.
Mas perder controle diante de uma plateia era insuportável.
— Muito bem — disse ele. — Vocês querem a verdade?
Chloe ficou imóvel.
— Quero.
Arthur colocou o microfone sobre uma mesa.
Então olhou diretamente para mim.
— Sua mãe criou a Aurora.
— Dois meses depois de morrer?
Ele hesitou.
— Os documentos foram preparados antes.
— Por quê?
Meu pai passou a mão pelo rosto.
De repente, parecia dez anos mais velho.
— Porque ela estava se preparando para me deixar.
As palavras me atingiram com força.
Chloe balançou a cabeça.
— Mamãe nunca disse isso.
— Ela não teve tempo.
Meu peito apertou.
Nossa mãe morrera depois de uma doença que avançara rápido demais. Durante aqueles últimos meses, Arthur controlara praticamente tudo ao redor dela: visitas, documentos, médicos, contas.
Na época, eu acreditara que era cuidado.
Agora já não tinha certeza.
— Continue — falei.
— Eleanor descobriu algumas decisões financeiras das quais discordava. Ela queria separar parte do patrimônio e garantir que vocês duas tivessem independência.
— Então por que o dinheiro continua passando pela Aurora? — perguntei.
Arthur ficou calado.
Era a pergunta que ele não queria responder.
Meu celular vibrou novamente.
Dessa vez, minha colega não enviou uma mensagem.
Ela ligou.
Afastei-me alguns metros e atendi.
— Laura?
— Jessi, você está sozinha?
Olhei para quatrocentas pessoas.
— Definitivamente não.
— Então apenas escute.
Minha garganta ficou seca.
— Encontramos a origem dos quatro pagamentos. Eles não foram enviados para a Aurora.
— Como assim?
— Foram enviados através da Aurora.
Fechei os olhos.
— Para onde?
Houve uma pausa.
— Uma conta fiduciária.
— De quem?
Laura respirou fundo.
— Sua.
Por alguns segundos, pensei que tivesse entendido errado.
— Repete.
— A beneficiária registrada é Jessica Sterling.
Olhei para meu pai.
Ele estava me observando.
— Isso não faz sentido. Eu nunca recebi esse dinheiro.
— Eu sei. E tem mais. A conta foi criada cinco anos atrás.
Cinco anos.
O ano em que minha mãe morreu.
— Quanto existe nela?
Laura ficou em silêncio por alguns segundos.
Quando respondeu, sua voz havia mudado.
— Jessi… pouco mais de quarenta e oito milhões de reais.
Senti as pernas enfraquecerem.
Gabriel percebeu e veio até mim.
— Está tudo bem?
Balancei a cabeça.
Nada estava bem.
— Laura, quem movimentava essa conta?
— É justamente aí que está o problema. A documentação indica que você deveria assumir o controle aos trinta anos.
Eu tinha trinta e dois.
— Então por que nunca fui informada?
— Porque alguém apresentou uma procuração dizendo que você havia renunciado temporariamente à administração.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Eu nunca assinei isso.
— Eu imaginei.
— Quem apresentou a procuração?
Laura demorou alguns segundos para responder.
— Arthur Sterling.
Desliguei lentamente.
Quando voltei para o centro do salão, meu pai já sabia pela minha expressão que alguma coisa havia mudado.
— Quanto? — perguntei.
Ele não respondeu.
— Quanto dinheiro da mamãe você movimentou usando meu nome?
Chloe levou a mão à boca.
— Jessi…
— Quarenta e oito milhões — falei.
O salão explodiu em murmúrios.
Arthur fechou os olhos.
— Não é tão simples.
— Então explique.
— Eu estava protegendo a empresa.
— Com dinheiro que mamãe deixou para mim?
— Com dinheiro que um dia seria seu de qualquer maneira!
Aquilo foi praticamente uma confissão.
Meu pai percebeu tarde demais.
Roberto recuou.
Daniel olhou para Arthur com absoluto desprezo.
Chloe começou a chorar novamente.
Mas eu não gritei.
Não precisei.
— E a assinatura?
Arthur não respondeu.
— A procuração tem minha assinatura. Eu nunca assinei.
Ele continuou em silêncio.
Gabriel tocou suavemente meu braço.
— Jessi, daqui para frente você precisa deixar os advogados cuidarem disso.
Assenti.
Não queria vingança improvisada.
Queria respostas documentadas.
— Amanhã — falei para Arthur — meus advogados vão pedir todos os registros.
Meu pai soltou uma risada nervosa.
— Você acha que seu marido vai salvar você?
Olhei para Gabriel.
Depois para Arthur.
— Ainda não entendeu, não é?
— O quê?
— Gabriel nunca precisou me salvar.
Aproximei-me do meu pai.
— Durante três anos, escondi meu casamento porque queria construir uma vida que não dependesse do sobrenome Sterling. Meu trabalho é meu. Minha carreira é minha. Minha casa é minha.
Então olhei para o salão.
— E seja qual for o dinheiro que mamãe deixou, eu quero descobrir a verdade sobre ele não porque preciso ficar rica.
Voltei os olhos para Arthur.
— Quero descobrir porque você usou meu nome.
Ele ficou em silêncio.
Então Chloe falou atrás de mim:
— E o meu?
Virei-me.
Ela segurava a carta de nossa mãe contra o peito.
— Se mamãe deixou alguma coisa para Jessi… deixou alguma coisa para mim também?
Arthur perdeu completamente a expressão.
Foi a resposta que precisávamos.
Chloe percebeu.
— Meu Deus.
Ela começou a andar em direção ao pai.
— Você mexeu no meu dinheiro também?
— Chloe, escute…
— Quanto?
— Não faça isso aqui.
— Quanto, pai?
Arthur baixou os olhos.
E foi Daniel quem percebeu algo estranho.
— Esperem.
Ele pegou novamente o envelope da carta.
— Tem alguma coisa dentro.
Rasgou cuidadosamente o forro.
Um pequeno papel dobrado caiu sobre a mesa.
Chloe o abriu.
Havia apenas uma frase escrita pela nossa mãe:
“Metade para cada uma. Nenhuma das minhas filhas deve depender de Arthur.”
Chloe ficou pálida.
Mas abaixo da frase havia outra anotação.
Uma que fez meu pai sentar-se lentamente na cadeira mais próxima.
Era o nome de um advogado.
E ao lado dele, uma data.
A data era de três dias antes da morte de nossa mãe.
Eu conhecia aquele nome.
Todos na família conheciam.
Porque aquele homem estaria presente na manhã seguinte para abrir oficialmente o último documento que Eleanor Sterling havia deixado.
E, pelo terror no rosto do meu pai, ficou claro que ele sabia exatamente o que encontraríamos nele.






