Na manhã seguinte, eu acordei antes do despertador.
Na verdade, quase não dormi.
Gabriel estava sentado perto da janela do quarto do hotel quando abri os olhos. Ainda usava a camiseta escura com que tinha dormido, e duas xícaras de café estavam sobre a mesa.
— Você ficou acordado? — perguntei.
— Um pouco.
Sentei-me.
— Está preocupado?
Ele me entregou uma das xícaras.
— Estou preocupado com você. Mas não vou decidir o que você deve fazer.
Essa era uma das razões pelas quais eu o amava.
Gabriel nunca confundira proteção com controle.
Meu pai fizera isso durante toda a minha vida.
Às nove da manhã, chegamos ao escritório de Henrique Valente, o advogado cujo nome aparecia no bilhete de nossa mãe.
Chloe e Daniel já estavam esperando.
Minha irmã parecia completamente diferente da noiva radiante da noite anterior. Sem maquiagem, cabelos presos e olhos inchados, ela segurava a carta de nossa mãe dentro de uma pasta transparente.
Arthur não estava lá.
— Ele não vem? — perguntei.
Chloe balançou a cabeça.
— Liguei seis vezes. Não respondeu.
Henrique Valente apareceu na porta alguns minutos depois.
Tinha quase setenta anos.
Quando nos viu, parou.
Seus olhos foram imediatamente para a carta nas mãos de Chloe.
— Então finalmente encontraram.
Meu coração acelerou.
— O senhor sabia?
— Eu sabia que Eleanor havia deixado instruções.
Ele nos levou para uma sala reservada.
Gabriel e Daniel permaneceram conosco, mas Henrique deixou algo claro antes de começar.
— O documento pertence às duas irmãs. Ninguém aqui precisa tomar qualquer decisão hoje.
Então colocou uma caixa cinza sobre a mesa.
O lacre estava intacto.
Henrique retirou três documentos.
O primeiro era o testamento complementar de nossa mãe.
O segundo estabelecia um fundo patrimonial para mim e Chloe.
O terceiro era uma declaração escrita por Eleanor apenas três dias antes de morrer.
Henrique começou a ler.
Nossa mãe explicava que, meses antes de adoecer, havia descoberto retiradas frequentes das empresas da família. Arthur justificava tudo como investimentos temporários, mas alguns valores nunca retornavam.
Quando ela o confrontou, ele prometeu corrigir a situação.
Não corrigiu.
Por isso, Eleanor separou parte do patrimônio que havia herdado dos próprios pais e criou uma estrutura independente para proteger as duas filhas.
Metade seria minha.
Metade seria de Chloe.
Nenhuma parcela pertencia a Arthur.
Minha irmã apertou minha mão.
Então Henrique chegou ao trecho que mudou tudo.
— “Caso minhas filhas encontrem documentos assinados em nome delas sem seu conhecimento…”
Ele parou.
Olhou para nós.
— Continuo?
— Por favor — respondi.
Ele leu:
— “…peço que não presumam imediatamente que sabem toda a verdade. Arthur cometeu erros graves, mas existe outra pessoa envolvida nas movimentações financeiras.”
Chloe e eu nos entreolhamos.
— Outra pessoa? — perguntou Daniel.
Henrique assentiu.
Continuou lendo.
Nossa mãe havia identificado um homem chamado Maurício Ferraz.
Eu conhecia aquele nome.
Ele fora diretor financeiro do Grupo Sterling durante quase quinze anos.
E também era padrinho de Chloe.
— Isso não faz sentido — ela murmurou. — Maurício praticamente fazia parte da família.
Henrique colocou sobre a mesa uma cópia de um relatório antigo.
— Justamente por isso Eleanor confiou nele durante muito tempo.
Segundo os documentos, Maurício havia criado uma rede de empresas intermediárias para esconder movimentações financeiras. Quando nossa mãe começou a investigar, ele convenceu Arthur de que poderia recuperar perdas provocadas por alguns investimentos ruins.
Arthur aceitou.
Depois perdeu o controle da situação.
— Então nosso pai foi enganado? — Chloe perguntou.
Henrique respirou fundo.
— Parcialmente.
A palavra ficou suspensa no ar.
— O que significa “parcialmente”? — perguntei.
— Arthur descobriu o esquema.
— E denunciou?
Henrique me encarou.
— Não.
Meu estômago afundou.
— Ele decidiu participar.
Chloe soltou minha mão.
Henrique explicou que, quando Arthur percebeu quanto dinheiro poderia movimentar sem chamar atenção, passou a autorizar operações que sabia serem irregulares.
A Aurora acabou sendo usada como passagem para alguns desses valores.
Mas havia um problema.
Depois da morte de Eleanor, o fundo deveria ter sido entregue a nós.
Para continuar movimentando parte daquele patrimônio, alguém precisava demonstrar que eu havia autorizado Arthur a administrá-lo.
Foi quando surgiu a procuração com minha assinatura.
— Então ele falsificou — falei.
— Ainda precisamos de perícia para determinar quem produziu o documento — respondeu Henrique. — Mas você está dizendo que nunca assinou.
— Nunca.
Chloe virou-se para ele.
— E o meu dinheiro?
Henrique abriu outra pasta.
Seu rosto ficou sério.
— Sua situação é diferente.
— Diferente como?
Ele colocou um extrato diante dela.
Minha irmã levou alguns segundos para entender.
Depois ficou branca.
— Não…
Daniel aproximou a cadeira.
— O que aconteceu?
Chloe apontou para uma sequência de retiradas.
— Essas datas…
Olhei.
Quase todas coincidiam com acontecimentos importantes da vida dela.
A entrada do apartamento.
A abertura da empresa de decoração.
O carro.
E, finalmente, o casamento.
Chloe levantou os olhos lentamente.
— Foi assim que ele pagou tudo?
Henrique assentiu.
— Ao que tudo indica, seu pai retirava dinheiro do patrimônio que já pertencia a você e apresentava esses valores como presentes dele.
Minha irmã ficou completamente imóvel.
Então começou a chorar.
Durante anos, Arthur havia repetido para todos que Chloe precisava dele.
O apartamento que “papai comprou”.
A empresa que “papai financiou”.
O casamento que “papai proporcionou”.
Mas ele não estava sustentando a filha favorita.
Estava devolvendo pequenas partes do dinheiro que já era dela e usando isso para mantê-la dependente.
Chloe cobriu o rosto.
— Minha vida inteira eu achei que ele fazia tudo por mim.
Aproximei minha cadeira.
— Chloe…
— E eu deixei ele tratar você daquele jeito.
Aquilo me pegou desprevenida.
Ela levantou os olhos.
— Eu ria também, Jessi.
Não respondi.
— Às vezes eu sabia que estava errado — continuou. — Mas enquanto ele estava zombando de você, ele estava me elogiando. E eu gostava disso.
Daniel apertou o ombro dela.
— Você não precisa resolver trinta anos hoje.
Chloe olhou para mim.
— Desculpa.
Era provavelmente a primeira vez que minha irmã me pedia desculpas sem acrescentar uma justificativa depois.
Eu poderia ter dito que estava tudo bem.
Mas não estava.
Então escolhi a verdade.
— Ainda dói.
Ela assentiu, chorando.
— Eu sei.
— Mas talvez possamos começar daqui.
Chloe segurou minha mão novamente.
Henrique esperou alguns segundos antes de colocar o último documento sobre a mesa.
— Existe mais uma coisa.
O envelope tinha meu nome.
JESSICA.
Reconheci imediatamente a letra de minha mãe.
Abri com cuidado.
Dentro havia uma única folha.
“Minha querida Jessi,
se você estiver lendo isto, provavelmente passou muitos anos acreditando que eu não percebia o que acontecia dentro da nossa família.
Eu percebia.
E esse é um dos maiores arrependimentos da minha vida.
Eu deveria ter defendido você mais vezes.
Arthur sempre teve medo da sua independência. Não porque você fosse fraca, mas porque você era a única pessoa da casa que nunca precisou acreditar na versão dele sobre quem você deveria ser.
Não deixe que a raiva transforme você em alguém que vive apenas para provar que ele estava errado.
Construa uma vida tão sua que a opinião dele simplesmente deixe de importar.”
Parei de ler.
As lágrimas finalmente vieram.
Gabriel colocou a mão sobre meu ombro.
No fim da carta havia uma frase escrita à mão, menor que as outras:
“E quando encontrar alguém que enxergue quem você realmente é, não esconda essa felicidade para sempre.”
Soltei uma pequena risada entre as lágrimas.
— Parece que ela conhecia você antes de mim — falei para Gabriel.
Ele sorriu.
Foi então que a porta da sala se abriu.
A recepcionista apareceu.
— Doutor Henrique, desculpe interromper.
— O que aconteceu?
Ela olhou para mim e Chloe.
— O pai delas chegou.
Chloe soltou minha mão.
— Finalmente.
Mas a recepcionista não havia terminado.
— Ele não está sozinho.
Henrique franziu a testa.
— Quem está com ele?
Ela respondeu:
— Maurício Ferraz.
O silêncio tomou conta da sala.
Olhei para os documentos espalhados sobre a mesa.
Depois para minha irmã.
Arthur não havia vindo para confessar.
Ele havia trazido justamente o homem que nossa mãe apontara como o início de tudo.
E, pela primeira vez desde que saí daquela fonte, senti que ainda não conhecíamos nem metade da verdade.






