Júlio e eu ficamos olhando para a fotografia por alguns segundos. Eu conhecia aquela varanda melhor do que qualquer pessoa.
Era da casa onde Roberto e eu criamos nosso filho.
A mesma casa onde comemoramos aniversários, Natais e vinte e sete anos de casamento.
E, de repente, três palavras escritas pelo meu marido morto haviam transformado todas aquelas lembranças em perguntas.
— A casa ainda é sua? — Júlio perguntou.
Balancei a cabeça.
— Nunca consegui vender.
Depois da morte de Roberto, eu havia me mudado. Permanecer ali era doloroso demais. Mas toda vez que um corretor sugeria colocar o imóvel à venda, alguma coisa dentro de mim dizia para esperar.
Talvez agora eu soubesse o motivo.
Quarenta minutos depois, estacionamos diante da antiga casa.
O jardim estava alto e a pintura da varanda começava a descascar. Júlio trouxe uma caixa de ferramentas do carro.
— Onde exatamente?
Observei a fotografia novamente.
Roberto estava parado perto do canto esquerdo da varanda. Atrás dele havia uma pequena marca no terceiro degrau.
— Ali.
Júlio se ajoelhou e começou a retirar cuidadosamente uma das tábuas.
Nada.
Removeu outra.
Ainda nada.
Na terceira, ouvimos um som metálico.
Meu coração disparou.
Escondida sob a madeira havia uma pequena caixa de metal envolvida em plástico grosso.
— Meu Deus... — murmurei.
Júlio puxou a caixa.
Estava trancada.
Mas havia uma pequena etiqueta colada na parte inferior.
L + J
Linda e Júlio.
Meu filho olhou para mim.
— Ele deixou isso para nós.
Tentamos algumas combinações óbvias até que me lembrei de uma data que Roberto jamais esquecia: o dia em que Júlio nasceu.
Digitei os números.
Clique.
A fechadura abriu.
Dentro havia um pen drive, várias cópias de extratos bancários, documentos da empresa e um envelope com meu nome.
Minhas mãos começaram a tremer.
Abri primeiro a carta.
“Linda, se você estiver lendo isto, significa que não consegui voltar para casa e explicar tudo pessoalmente.”
Precisei parar.
Júlio colocou a mão sobre a minha.
Continuei.
Roberto dizia ter descoberto que Augusto vinha retirando dinheiro da empresa havia anos usando empresas registradas em nomes de terceiros. Quando Roberto percebeu, tentou confrontá-lo.
Augusto negou tudo.
Então Roberto começou a reunir provas.
Mas a parte seguinte me deixou sem ar.
“Ricardo está me ajudando. Ele não participa disso. Se alguma coisa acontecer comigo, talvez ele seja a única pessoa que saiba onde procurar.”
Olhei para Júlio.
— Ricardo estava dizendo a verdade.
— Pelo menos sobre isso.
Continuamos lendo.
Roberto explicava que havia guardado cópias dos documentos em dois lugares diferentes. Aquela caixa continha apenas uma parte.
A outra estava com Ricardo.
Foi então que entendi por que ele carregava o bilhete durante todos aqueles anos.
— Precisamos falar com ele — falei.
Júlio permaneceu em silêncio.
— Filho...
— Ele teve oito anos, mãe.
— Eu sei.
— E seis meses ao seu lado.
Aquilo eu não conseguia defender.
Ricardo talvez não fosse responsável pela morte de Roberto, mas tinha escolhido esconder de mim uma verdade que mudava toda a história.
Antes que eu respondesse, meu celular tocou.
Era Ricardo.
Não atendi.
Ele ligou novamente.
Depois uma terceira vez.
Finalmente chegou uma mensagem:
“Linda, não entregue nada à polícia ainda. Primeiro veja o arquivo chamado AGOSTO_28 no pen drive. Roberto queria que você visse isso antes de confiar em qualquer pessoa.”
Júlio leu por cima do meu ombro.
— Como ele sabe que encontramos o pen drive?
Essa pergunta me gelou.
— Ligue para ele.
Júlio colocou o telefone no viva-voz.
Ricardo atendeu imediatamente.
— Linda?
— Como você sabe da caixa?
Silêncio.
— Porque fui eu quem ajudou Roberto a escondê-la.
— Então quem mandou a fotografia para Júlio?
— Que fotografia?
Júlio explicou.
Ricardo ficou completamente quieto.
— Escutem com atenção — disse finalmente. — Eu não mandei mensagem nenhuma.
— Então quem mandou?
— Não sei. Mas se alguém conhece aquela fotografia, essa pessoa sabia do plano de Roberto.
Olhei instintivamente para a rua vazia.
Pela primeira vez, senti que talvez alguém ainda estivesse observando aquela história de muito perto.
— Abra o pen drive — Ricardo pediu. — Agora.
Júlio pegou o notebook que mantinha no carro.
Voltamos para dentro da casa, conectamos o dispositivo e encontramos dezenas de pastas.
Uma delas tinha o nome indicado por Ricardo:
AGOSTO_28.
Dentro havia apenas um arquivo de áudio.
Júlio apertou o botão.
Durante alguns segundos ouvimos apenas ruídos.
Então reconheci a voz de Roberto.
Depois veio outra.
Augusto.
A conversa havia sido gravada três dias antes da morte do meu marido.
— Você não entende o tamanho do problema — dizia Roberto. — Vou entregar tudo.
Augusto respondeu:
— Se fizer isso, vai destruir nossa família.
— Não. Você fez isso sozinho.
Houve silêncio.
Então Augusto disse algo que fez Júlio olhar imediatamente para mim:
— E quando Linda descobrir que a assinatura dela também aparece nos documentos?
Meu sangue gelou.
Eu nunca havia assinado documento algum.
Roberto respondeu:
— Você falsificou a assinatura da minha esposa. Essa foi sua pior decisão.
O áudio terminou pouco depois.
Fiquei olhando para a tela.
Agora eu entendia.
Não se tratava apenas de dinheiro roubado da empresa.
Meu nome havia sido usado.
Se Roberto não tivesse descoberto tudo, eu poderia ter sido responsabilizada por algo que nunca fiz.
Júlio fechou o notebook.
— Vamos procurar um advogado antes de qualquer outra coisa.
Concordei.
Mas então ouvimos um carro estacionar diante da casa.
Olhei pela janela.
Não era Ricardo.
Um homem saiu lentamente do veículo.
Mesmo depois de oito anos, reconheci imediatamente aquele jeito de andar.
Augusto.
Meu cunhado caminhou até a varanda como se ainda tivesse o direito de entrar naquela casa.
E nas mãos carregava uma velha pasta marrom.
Ele bateu duas vezes na porta.
— Linda — chamou. — Acho que finalmente precisamos conversar sobre o que Roberto realmente estava fazendo naquela noite.






