O nome que Eduardo pronunciou era Marta Ferreira.
Por alguns segundos, não consegui falar.
Marta não era apenas alguém que estivera no funeral de Roberto. Ela tinha sido nossa vizinha durante quase vinte anos. Nossos filhos cresceram juntos. Quando Roberto morreu, foi Marta quem apareceu na minha casa com comida, quem passou noites comigo quando eu não conseguia dormir e quem me ajudou a separar as roupas dele meses depois.
— Isso deve ser algum engano — falei.
— Eu também pensei — respondeu Eduardo. — Mas a transferência foi para uma conta registrada no nome dela.
— Quanto?
— Cento e oitenta mil reais.
Meu estômago se contraiu.
— Dois dias depois do acidente?
— Exatamente.
Júlio ouviu tudo no viva-voz.
— Por que César mandaria dinheiro para Marta?
Eduardo respirou fundo.
— É isso que precisamos descobrir.
Desligamos e permanecemos dentro do carro.
Então Júlio falou:
— Mãe, você ainda tem contato com ela?
— Tenho.
Na verdade, Marta havia me enviado uma mensagem apenas três semanas antes perguntando como eu estava.
Peguei o celular e procurei nossa conversa.
Foi quando percebi algo que antes parecera completamente inocente.
Seis meses atrás, pouco depois de eu conhecer Ricardo, Marta havia me perguntado:
“E esse novo namorado? Você sabe alguma coisa sobre o passado dele?”
Na época, interpretei aquilo como preocupação de uma amiga.
Agora parecia diferente.
Continuei subindo a conversa.
Outra mensagem:
“Você ainda mantém a casa antiga?”
Outra:
“Júlio encontrou alguma coisa do Roberto quando vocês esvaziaram o escritório?”
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Ela estava procurando alguma coisa — disse Júlio.
— Ou tentando descobrir se nós já tínhamos encontrado.
Decidimos não confrontá-la.
Entregamos as mensagens à polícia e fomos para casa.
Naquela noite, porém, Marta me ligou.
Fiquei olhando para o nome dela na tela.
Atendi.
— Linda? Está tudo bem?
A voz era exatamente a mesma de sempre.
Calma.
Familiar.
— Está.
— Fiquei sabendo que vocês estão fazendo perguntas sobre a morte do Roberto novamente.
Aquilo confirmou que alguém estava falando.
— Quem contou?
Silêncio.
— Cidade pequena, você sabe como é.
Não respondi.
Então Marta perguntou:
— Você encontrou alguma coisa na casa antiga?
Meu corpo inteiro ficou alerta.
— Por que está perguntando?
— Curiosidade.
— Você perguntou a mesma coisa meses atrás.
Outro silêncio.
— Linda...
— César transferiu cento e oitenta mil reais para você dois dias depois da morte do Roberto.
Dessa vez, o silêncio durou muito mais.
— Quem contou isso?
— Então é verdade.
Ela respirou profundamente.
— Podemos conversar pessoalmente?
— Não.
— Linda, por favor.
— Diga agora.
A voz dela começou a tremer.
— Aquele dinheiro não era meu.
— Então por que estava na sua conta?
— Porque Roberto pediu.
Aquilo eu não esperava.
— Roberto?
— Sim.
Sentei-me.
— Explique.
Marta contou que, semanas antes de morrer, Roberto havia procurado por ela. Sabia que algumas contas poderiam ser bloqueadas quando a fraude viesse à tona e precisava de uma pessoa fora da empresa para receber temporariamente um valor.
— Por que você?
— Porque confiava em mim.
— E César?
— César não sabia que a conta era minha. Roberto forneceu os dados como parte de uma operação preparada para recuperar dinheiro que havia sido desviado.
— Mas a transferência aconteceu depois da morte dele.
— Porque já estava programada.
Aquilo podia ser verdade.
Mas havia um problema.
— Por que nunca me contou?
Marta começou a chorar.
— Porque fiquei com medo.
Eu já estava cansada daquela resposta.
Todos naquela história tinham ficado com medo.
E todos haviam decidido que o melhor seria me deixar no escuro.
— O que aconteceu com o dinheiro?
— Eu devolvi.
— Para quem?
— Para as famílias.
Meu coração acelerou.
— Tem comprovantes?
— Todos.
No dia seguinte, Marta entregou os documentos às autoridades.
Eduardo também os analisou.
Para minha surpresa, a história dela era verdadeira.
Os cento e oitenta mil reais tinham sido distribuídos, em várias transferências, para pessoas cujos nomes apareciam nos registros de Roberto.
Marta não havia ficado com o dinheiro.
Mas ainda escondia alguma coisa.
Percebi quando Júlio perguntou:
— Você esteve com meu pai no dia do acidente?
Marta baixou os olhos.
— Estive.
— Onde?
— Naquela tarde, na casa dele.
Olhei para ela.
— Na nossa casa?
— Sim.
— Eu estava trabalhando naquele dia.
— Eu sei.
Marta abriu a bolsa e retirou uma pequena fotografia.
Era Roberto sentado à mesa da nossa cozinha.
Diante dele estava uma pasta azul.
— Seu marido estava com medo, Linda.
Minha garganta apertou.
— Do Augusto?
— De todos eles.
— Inclusive Ricardo?
— Não.
Marta balançou a cabeça.
— Roberto confiava no Ricardo mais do que você imagina.
Aquilo me surpreendeu.
— Então por que ele não contou nada para mim?
Marta segurou minha mão.
— Porque sabia que você tentaria impedi-lo.
Ela tinha razão.
Eu teria feito exatamente isso.
— E existe mais uma coisa — continuou.
— O quê?
— Roberto não pretendia apenas entregar as provas.
Marta respirou fundo.
— Ele pretendia sair da empresa naquela semana.
— Para onde?
— Para lugar nenhum. Ele queria ficar com você.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
Marta explicou que Roberto estava planejando vender sua participação depois que tudo fosse resolvido.
Ele queria viajar comigo.
Descansar.
Recuperar os anos em que o trabalho havia ocupado quase toda a nossa vida.
Então ela me entregou um envelope.
— Ele deixou isso comigo.
Olhei para ela, incrédula.
— Você guardou outra coisa durante oito anos?
— Sim.
Minha raiva voltou.
— Marta...
— Eu sei. Não tenho desculpa.
Dentro havia duas passagens antigas.
Salvador.
Roberto havia comprado uma viagem para nós.
A data era três semanas depois do acidente.
Atrás de uma das passagens, ele escrevera:
“Linda merece finalmente ver o mar sem eu atender o telefone a cada cinco minutos.”
Eu comecei a rir e chorar ao mesmo tempo.
Era exatamente o tipo de coisa que Roberto escreveria.
Durante oito anos, minhas últimas lembranças dele tinham sido dominadas pela noite de sua morte.
Agora, pela primeira vez, eu conseguia lembrar do homem antes do acidente.
Do marido que fazia café forte demais.
Que esquecia onde colocava as chaves.
Que prometia férias todos os anos e sempre acabava trabalhando.
Júlio abraçou meus ombros.
Marta chorava diante de nós.
— Me perdoe por ter guardado isso.
Olhei para ela.
— Não sei se consigo perdoar todo mundo tão rapidamente.
— Eu entendo.
— Mas obrigada por finalmente me contar.
Nos dias seguintes, a investigação financeira avançou rapidamente.
Augusto assumiu formalmente sua participação nas irregularidades e entregou os registros que ainda possuía. Patrícia e César passaram a responder pelas movimentações que os documentos conseguiam comprovar.
Sobre o acidente de Roberto, porém, a conclusão foi mais difícil.
As novas evidências confirmavam que Patrícia o seguira naquela noite.
Mas não havia prova suficiente de que seu veículo tivesse provocado a saída do carro de Roberto da estrada.
O laudo revisado apontava chuva forte, baixa visibilidade e uma curva perigosa.
Talvez Patrícia tivesse contribuído para a situação ao persegui-lo.
Talvez Roberto tivesse simplesmente perdido o controle.
Depois de oito anos, algumas respostas tinham desaparecido para sempre.
Estranhamente, consegui aceitar isso.
Porque finalmente compreendi que descobrir a verdade não significava inventar certeza onde as provas não permitiam.
Uma semana depois, encontrei Ricardo em um café.
Ele parecia nervoso.
— Pensei que você nunca mais fosse me ligar.
— Eu também pensei.
Sentei-me diante dele.
— Não consigo continuar de onde paramos.
Seu rosto caiu.
— Entendo.
— Se existir alguma coisa entre nós depois disso, terá que começar novamente.
Ele levantou os olhos.
— Sem segredos?
— Nenhum.
— Sem tentar me proteger escondendo coisas?
— Principalmente isso.
Pela primeira vez em muitos dias, Ricardo sorriu.
— Então talvez possamos começar com um café.
Olhei para a xícara entre nós.
— Só um café.
Ele riu.
E eu também.
Três meses depois, Júlio apareceu na minha casa numa manhã de sábado carregando uma pequena caixa.
— Tenho uma surpresa.
Dentro estavam duas passagens.
Salvador.
Fiquei olhando para ele.
— Filho...
— Pai queria que você fizesse essa viagem.
— Há oito anos.
— Então está atrasada.
Comecei a rir.
— E quem vai comigo?
Júlio sorriu.
— Isso você decide.
Naquela noite, coloquei as passagens antigas de Roberto dentro de uma moldura.
Não como lembrança da viagem que nunca aconteceu.
Mas como lembrança de algo que eu finalmente havia aprendido.
Aos 60 anos, minha vida não precisava terminar porque uma parte dela tinha terminado oito anos antes.
Eu podia sentir saudade de Roberto sem viver presa ao passado.
Podia amar meu filho sem exigir que ele me protegesse de tudo.
E talvez, um dia, pudesse confiar novamente em Ricardo — não porque tivesse esquecido suas mentiras, mas porque ele teria que provar, com o tempo, que aprendera a viver sem elas.
Antes de dormir, meu celular vibrou.
Era uma mensagem de Ricardo.
“Como foi seu dia?”
Sorri.
Durante seis meses, eu teria respondido imediatamente.
Naquela noite, pensei por alguns segundos e escrevi:
“Foi bom. Quer tomar um café amanhã?”
A resposta chegou quase instantaneamente:
“Quero.”
Coloquei o telefone sobre a mesa.
Na parede, havia uma fotografia antiga de Roberto sorrindo.
Olhei para ela e, pela primeira vez em oito anos, aquela imagem não me trouxe apenas tristeza.
Trouxe paz.
Eu achava que aquela história tinha começado no dia em que levei meu novo namorado para conhecer meu filho.
Agora entendia que ela havia começado muito antes.
Mas o que aconteceria dali em diante finalmente pertencia a mim.






