A mensagem de Patrícia mudou completamente o rumo daquela noite.
Eu queria ir direto à delegacia, mas Helena segurou meu braço antes que eu chegasse à porta.
— Linda, espere.
— Augusto está entregando os documentos. Ricardo está lá. É exatamente o que queríamos.
— Não é disso que estou falando.
A expressão dela me fez parar.
— Patrícia não faz nada sem pensar vários passos à frente. Se resolveu aparecer depois de oito anos, existe um motivo.
Júlio concordou.
— Então vamos deixar a polícia falar com ela.
Helena olhou para mim.
— É o mais seguro. Não aceite encontrá-la sozinha, independentemente do que ela diga.
Dessa vez, não discuti.
Fomos até a delegacia.
Quando chegamos, Ricardo estava sentado no corredor. Levantou-se assim que me viu.
— Linda...
Passei por ele.
— Agora não.
Augusto estava em outra sala, acompanhado por um advogado. A velha pasta marrom estava sobre a mesa diante dele.
Pela primeira vez, meu cunhado parecia realmente derrotado.
— Eu entreguei tudo — disse quando entrei.
— Oito anos atrasado.
Ele baixou a cabeça.
— Eu sei.
— Por que agora?
Augusto ficou alguns segundos em silêncio.
— Porque passei oito anos tentando salvar meu nome e acabei destruindo tudo que ainda poderia salvar.
Ele abriu a pasta.
Havia contratos, extratos bancários, cópias de transferências e correspondências antigas.
— Patrícia começou como parceira — explicou. — Eu criei empresas para esconder prejuízos e movimentar dinheiro temporariamente. Era ilegal. Não vou fingir que não era.
— E depois?
— Ela percebeu que podia usar aquelas empresas para retirar muito mais dinheiro do que havíamos combinado.
— Você está tentando colocar tudo nas costas dela?
— Não. Minha parte está aqui.
Augusto apontou para uma declaração assinada.
— Estou assumindo o que fiz.
Aquilo me surpreendeu.
Ele continuou:
— Roberto descobriu. Quando percebeu que clientes estavam sendo prejudicados, começou a recuperar os valores. Eu tentei fazê-lo parar porque sabia que, se tudo viesse à tona, eu perderia a empresa e provavelmente responderia judicialmente.
— E naquela noite você seguiu Roberto.
— Sim.
— Mas diz que não causou o acidente.
Augusto ergueu os olhos.
— Não causei.
— Então por que escondeu a gravação?
Ele demorou a responder.
— Porque ela também mostrava meu carro seguindo Roberto. Eu sabia como pareceria.
— Você protegeu a si mesmo.
— Sim.
Não havia desculpa.
Apenas uma admissão.
Júlio perguntou:
— E Patrícia?
Augusto retirou uma cópia de uma mensagem antiga.
— Depois do acidente, ela me disse para esquecer aquela noite. Em troca, ficaria longe da empresa.
— E você aceitou?
— Aceitei.
Olhei para ele com incredulidade.
— Meu marido estava morto e você fez um acordo para proteger a própria reputação?
Augusto fechou os olhos.
— Foi a pior decisão da minha vida.
Antes que eu pudesse responder, um policial entrou.
— Senhora Linda?
Levantei-me.
— Patrícia Nogueira entrou em contato. Disse que aceita prestar depoimento.
— Quando?
— Amanhã de manhã.
Senti Júlio tocar meu ombro.
Finalmente.
Talvez estivéssemos chegando ao fim.
Mas, naquela madrugada, meu telefone recebeu outra mensagem.
Desta vez, era Patrícia diretamente.
“Eles estão contando apenas a versão que os protege. Roberto também cometeu um erro naquela noite. Se quiser saber qual foi, pergunte a Ricardo por que ele ficou com o segundo envelope.”
Li duas vezes.
Depois olhei para Ricardo, que esperava do outro lado do corredor.
— Que segundo envelope?
Ele congelou.
Foi uma reação pequena, mas eu percebi.
— Linda...
— Não minta para mim novamente.
Ricardo passou a mão pelo rosto.
— Roberto me entregou dois envelopes no posto.
Lembrei-me imediatamente da gravação da câmera.
— Nós vimos você entregar alguma coisa a ele.
— Aquilo era um dos envelopes. O outro ficou comigo.
— Durante oito anos?
— Sim.
Júlio se aproximou.
— Onde está?
Ricardo olhou para mim.
— Na minha casa.
— O que tem dentro?
— Eu nunca abri.
Soltei uma risada amarga.
— Depois de tudo, espera que eu acredite nisso?
— Roberto escreveu seu nome na frente. Disse que eu só deveria entregar quando tivesse certeza de que você não correria perigo por causa do conteúdo.
— Você não tinha o direito de decidir isso.
— Eu sei.
— Então vamos buscar.
Uma hora depois, estávamos na casa de Ricardo.
Ele abriu um pequeno cofre e retirou um envelope amarelado.
Meu nome estava escrito na frente.
Linda.
Reconheci a letra de Roberto.
Minhas mãos tremeram quando rasguei cuidadosamente a borda.
Dentro havia uma carta e uma chave pequena.
Comecei a ler.
“Linda,
Se Ricardo entregou isto, então provavelmente chegou o momento em que esconder a verdade passou a ser mais perigoso do que revelá-la.”
Continuei.
Roberto explicava que havia encontrado um conjunto de documentos que poderia provar definitivamente como o dinheiro tinha sido movimentado.
Mas a chave não era de um cofre bancário.
Era de um armário particular alugado em uma antiga estação rodoviária.
No final da carta havia uma frase sublinhada:
“Não procure apenas dinheiro. Procure os nomes.”
Na manhã seguinte, antes do depoimento de Patrícia, fomos até o local indicado.
O prédio havia sido reformado, mas os antigos armários permaneciam numa área de armazenamento.
A chave abriu o número 214.
Dentro havia apenas uma caixa.
Júlio a retirou.
Esperávamos encontrar mais extratos.
Em vez disso, encontramos vinte e três envelopes.
Cada um tinha o nome de uma pessoa.
Abri o primeiro.
Havia comprovantes de valores devolvidos.
No segundo, a mesma coisa.
No terceiro também.
Eduardo estava certo.
Roberto havia conseguido devolver silenciosamente parte do dinheiro às famílias prejudicadas.
Mas havia um vigésimo quarto envelope escondido no fundo.
Sem nome.
Dentro havia uma fotografia de Patrícia, Augusto e outro homem que nenhum de nós conhecia.
Atrás dela, Roberto escrevera:
“Ele é quem controla as contas.”
Júlio virou a fotografia para Ricardo.
— Quem é esse homem?
Ricardo empalideceu.
— Eu conheço.
— Quem?
— César Nogueira.
— Parente da Patrícia?
— Irmão dela.
Ricardo sentou-se lentamente.
— E ele não era funcionário da empresa.
— Então quem era?
— Gerente do banco que autorizava algumas das transferências.
Tudo finalmente começava a fazer sentido.
Patrícia não conseguira movimentar aquele dinheiro sozinha.
Augusto havia iniciado a fraude.
Patrícia a ampliara.
E César permitira que as operações passassem pelo sistema bancário.
Roberto estava prestes a revelar uma rede muito maior.
Às nove daquela manhã, Patrícia chegou para prestar depoimento acompanhada de um advogado.
Eu não pude assistir à conversa inteira.
Mas quase duas horas depois, um investigador veio falar conosco.
— Patrícia confirmou que seguiu Roberto naquela noite.
Meu coração acelerou.
— Ela admitiu ter causado o acidente?
— Não.
E isso importava.
Depois de oito anos de suspeitas, ninguém deveria transformar uma hipótese em certeza apenas porque queríamos um culpado.
— Segundo ela, Roberto dirigia sob chuva forte. Ela o seguia porque queria recuperar documentos. Afirma que viu o carro perder o controle numa curva, mas nega qualquer contato entre os veículos.
— Existe alguma forma de saber?
— Estamos reabrindo a análise das provas disponíveis. Não posso prometer uma resposta que os registros não permitam sustentar.
Aquilo não era a conclusão dramática que eu imaginara.
Mas era a primeira resposta verdadeiramente responsável que alguém me dava.
Então ele colocou a fotografia de César sobre a mesa.
— Isto, porém, muda outra parte da investigação.
Patrícia havia confirmado a identidade do irmão.
Mais importante: admitira que César facilitara transferências.
Júlio perguntou:
— Então meu pai morreu tentando expor tudo isso?
— Pelo que os documentos indicam, seu pai estava reunindo provas e tentando recuperar recursos das pessoas prejudicadas. Sobre o acidente, ainda precisamos separar o que sabemos do que apenas suspeitamos.
Saí da delegacia algumas horas depois sentindo algo estranho.
Ainda não tinha todas as respostas sobre os últimos segundos da vida de Roberto.
Talvez nunca tivesse.
Mas finalmente sabia quem ele tinha sido naqueles últimos meses.
Ele não estava abandonando nossa família.
Não tinha uma vida secreta.
Estava tentando proteger pessoas que haviam sido prejudicadas e corrigir uma situação que o próprio irmão ajudara a criar.
Quando cheguei ao estacionamento, Ricardo estava me esperando.
— Linda, eu sei que pedir desculpas não resolve o que fiz.
— Não resolve.
Ele assentiu.
— Eu me aproximei de você inicialmente por causa dos documentos. Essa é uma verdade horrível, mas é a verdade.
Fiquei em silêncio.
— Só que depois aconteceu algo que eu não planejei.
— Você se apaixonou.
— Sim.
Olhei para ele.
Seis meses antes, talvez aquelas palavras fossem suficientes.
Agora não eram.
— Eu também me apaixonei por você, Ricardo.
Seus olhos se encheram de esperança.
Mas continuei:
— E justamente por isso sua mentira dói tanto.
Ele baixou os olhos.
— Eu entendo.
— Preciso de tempo.
— Quanto?
— Não sei.
Ele assentiu.
E, pela primeira vez desde que aquela história começou, Ricardo não tentou escolher por mim.
Apenas respondeu:
— Então eu espero.
Entrei no carro com Júlio.
Enquanto nos afastávamos, meu filho olhou pela janela e depois para mim.
— Você acha que vai perdoá-lo?
Observei Ricardo diminuindo no retrovisor.
— Não sei.
Júlio sorriu discretamente.
— Acho que essa é a primeira resposta completamente sincera que alguém deu nessa família em oito anos.
Eu ri.
E percebi que ele tinha razão.
Mas nossa história ainda não havia terminado.
Porque, naquela mesma tarde, Eduardo ligou.
A polícia tinha encontrado algo entre os documentos de César.
Um registro feito dois dias depois da morte de Roberto.
Era uma transferência bancária.
O beneficiário não era Augusto.
Não era Patrícia.
E não era César.
O dinheiro havia sido enviado para uma pessoa cujo nome eu conhecia muito bem.
Quando Eduardo disse quem era, precisei me sentar.
Porque aquela pessoa estivera no funeral do meu marido.
E durante oito anos eu jamais suspeitara dela.






