Naquela noite, eu não consegui voltar para casa.
Júlio insistiu que ficássemos juntos na antiga casa até entendermos melhor o que estava acontecendo. Ricardo permaneceu conosco, mas a presença dele me deixava dividida. Parte de mim queria acreditar que ele realmente tinha tentado ajudar Roberto. Outra parte ainda não conseguia esquecer que ele passara meses ao meu lado escondendo tudo aquilo.
Sentamo-nos à mesa da antiga sala de jantar, com o notebook aberto e os documentos espalhados diante de nós.
— Precisamos descobrir a quem pertencia essa conta — disse Júlio.
Ricardo puxou uma cadeira.
— Roberto nunca me falou sobre dinheiro em nome dele. Tudo o que ele dizia era que Augusto estava desviando recursos.
Comecei a revisar os extratos encontrados na caixa.
Transferências.
Empresas que eu nunca tinha ouvido falar.
Datas.
Valores.
Até que encontrei uma sequência repetida.
Todos os meses, durante quase três anos, uma quantia saía de uma das empresas controladas por Augusto e terminava em uma conta identificada apenas pelos últimos quatro dígitos:
7319.
— Ricardo, você conhece esse número?
Ele ficou imóvel.
— Conheço.
Júlio ergueu os olhos.
— De onde?
Ricardo demorou a responder.
— Era a conta que Roberto usava para pagar um investigador particular.
Senti um arrepio.
— Um investigador?
— Roberto suspeitava de Augusto muito antes de encontrar os documentos. Contratou alguém para descobrir para onde o dinheiro estava indo.
— Quem?
— Nunca soube o nome.
Nesse momento, Júlio encontrou outro arquivo no pen drive.
Era uma planilha protegida por senha.
Tentamos aniversários, datas importantes e nomes.
Nada funcionou.
Então me lembrei de algo.
Roberto tinha uma frase que repetia sempre que enfrentávamos alguma dificuldade:
“Família primeiro.”
Digitei:
FAMILIAPRIMEIRO
A planilha abriu.
Havia dezenas de registros.
Na primeira coluna estavam datas. Na segunda, valores. Na terceira, nomes.
Augusto aparecia várias vezes.
Helena também.
Mas o último nome fez meu coração acelerar.
Eduardo Mendes.
— Quem é Eduardo Mendes? — perguntei.
Ricardo empalideceu novamente.
— O investigador.
Júlio imediatamente pesquisou o nome.
Depois de alguns minutos, encontrou uma empresa antiga de investigação empresarial. O endereço já não existia, mas havia um telefone associado ao cadastro.
Júlio ligou.
Uma mulher atendeu.
— Procuro Eduardo Mendes.
— Quem gostaria?
— Júlio Almeida. Meu pai era Roberto Almeida.
Houve um silêncio longo demais.
— Um momento.
Escutamos ruídos do outro lado.
Então uma voz masculina apareceu.
— Júlio?
Meu filho olhou para mim.
— Sim.
— Esperei muito tempo por essa ligação.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— O senhor conhecia meu pai?
— Conhecia. E antes de morrer, ele me deixou instruções muito específicas.
Júlio colocou o telefone no viva-voz.
— Que instruções?
Eduardo respirou fundo.
— Roberto acreditava que alguma coisa poderia acontecer com ele. Pediu que eu guardasse determinados documentos até que Linda ou Júlio me procurassem por vontade própria.
— Por que nunca entrou em contato conosco?
— Porque ele me proibiu.
Aquilo me irritou.
— Aqui é Linda. Meu marido morreu há oito anos. Se você tinha informações, deveria ter me procurado.
— Eu sei. E sinto muito. Mas Roberto tinha medo de que qualquer contato colocasse vocês em risco.
Fechei os olhos.
Novamente aquela palavra.
Proteção.
Eu estava começando a odiá-la.
— O que você guardou?
— Uma cópia completa da investigação financeira. E uma gravação feita poucas horas antes do acidente.
Júlio se inclinou sobre a mesa.
— Outra gravação?
— Sim.
— Do Augusto?
— Não.
Eduardo hesitou.
— Do próprio Roberto.
A sala ficou silenciosa.
— O que ele disse?
— Prefiro que vocês escutem diretamente.
Combinamos um encontro para a manhã seguinte.
Antes de desligar, porém, Eduardo acrescentou:
— Há uma coisa que vocês precisam saber antes de chegar aqui.
— O quê?
— A conta 7319 realmente estava registrada no nome de Roberto.
Meu estômago apertou.
— Então Augusto estava dizendo a verdade?
— Só sobre o nome.
— Não estou entendendo.
— Roberto não estava roubando dinheiro. Ele estava devolvendo dinheiro.
Ricardo se levantou.
— Devolvendo para quem?
— Para várias famílias.
A ligação terminou pouco depois.
Passei aquela noite praticamente acordada.
Na manhã seguinte, fomos até um pequeno escritório no centro da cidade. Eduardo tinha quase setenta anos, cabelos brancos e uma expressão cansada.
Ele colocou diante de nós uma caixa.
— Isso pertence a vocês agora.
Dentro havia documentos bancários, fotografias e um gravador antigo.
Eduardo explicou tudo.
Anos antes, Augusto havia criado um esquema usando investimentos de pequenos clientes da empresa familiar. Parte do dinheiro desaparecia através de empresas intermediárias.
Quando Roberto descobriu, percebeu algo ainda pior: dezenas de pessoas poderiam perder suas economias.
Em vez de denunciar imediatamente Augusto e correr o risco de o dinheiro desaparecer, Roberto começou secretamente a recuperar os valores.
A conta 7319 servia como passagem temporária.
O dinheiro entrava.
Depois era devolvido às vítimas.
— Por isso a conta estava no nome dele — disse Eduardo. — Roberto precisava controlar os valores antes que Augusto percebesse.
Senti lágrimas nos olhos.
Durante algumas horas, eu havia temido descobrir que meu marido levava uma vida que eu desconhecia.
Mas ele estava tentando consertar silenciosamente o estrago causado pelo próprio irmão.
— E a gravação? — perguntou Júlio.
Eduardo colocou o aparelho sobre a mesa.
— Foi feita naquela tarde.
A voz de Roberto surgiu.
“Se Linda estiver ouvindo isto, provavelmente alguma coisa deu errado.”
Levei a mão à boca.
Era a primeira vez em oito anos que eu ouvia a voz dele dizendo meu nome.
“Linda, me desculpe por não ter contado. Achei que conseguiria resolver tudo antes que isso chegasse até você.”
Minha visão ficou embaçada.
“Júlio, cuide da sua mãe. Mas não transforme o que aconteceu comigo em uma razão para passar a vida com raiva.”
Meu filho virou o rosto.
Então veio a parte que nenhum de nós esperava.
“Ricardo sabe parte da verdade. Ele tentou me convencer a ir diretamente à polícia. Eu não ouvi. Se ele estiver vivo e vocês o encontrarem algum dia, não culpem aquele homem pelo que aconteceu comigo.”
Olhei para Ricardo.
Ele estava chorando silenciosamente.
Mas Roberto ainda não tinha terminado.
“Existe uma pessoa que conhece toda a verdade sobre aquela noite. Helena.”
A gravação parou.
Eduardo retirou um envelope da caixa.
— Roberto deixou isto separado.
Dentro havia um endereço escrito à mão.
O mesmo nome estava acima dele:
Helena Duarte.
Júlio olhou para Eduardo.
— Esse endereço ainda é válido?
— Não sei. Mas recebi uma ligação de Helena três semanas atrás.
— O que ela queria?
Eduardo ficou sério.
— Saber se vocês já tinham encontrado a caixa.
Meu coração acelerou.
— Então foi ela quem colocou tudo em movimento.
— Provavelmente.
— Por quê depois de oito anos?
Eduardo me encarou.
— Porque Augusto está vendendo a empresa.
Júlio franziu a testa.
— E o que isso muda?
Eduardo abriu outro documento.
— Se a venda acontecer, alguns registros financeiros antigos serão destruídos legalmente depois da transferência e reorganização dos arquivos. Helena acredita que essa pode ser a última oportunidade de provar tudo.
Peguei meu celular.
Havia uma nova mensagem.
Número desconhecido.
Desta vez, não havia fotografia.
Apenas um endereço e um horário.
17h30. Venha apenas com Júlio. Não traga Ricardo.
Abaixo, outra frase:
“Eu estava no local do acidente antes da ambulância chegar. Sei exatamente o que aconteceu com Roberto.”
Mostrei a mensagem aos dois.
Ricardo ficou em silêncio.
Júlio pegou as chaves do carro.
— Então finalmente vamos encontrar Helena.
Olhei novamente para a mensagem.
Depois para Ricardo.
Alguma coisa ainda me incomodava.
Se Helena queria revelar a verdade, por que estava tão determinada a impedir que Ricardo estivesse presente?
Às 17h30, eu descobriria que a resposta não estava apenas na morte do meu marido.
Ela estava ligada ao motivo pelo qual Ricardo havia entrado novamente na minha vida oito anos depois.






