Augusto permaneceu diante da porta, segurando a pasta marrom contra o peito.
Durante oito anos, eu o enxergara como parte da família que restara depois da morte de Roberto. Ele tinha me acompanhado ao cartório, ajudado com documentos, aparecido nos aniversários de Júlio e até me telefonado em algumas datas difíceis.
Agora, depois de ouvir aquela gravação, cada gesto dele parecia diferente.
Júlio se colocou na minha frente.
— Você não vai entrar.
Augusto soltou um suspiro.
— Júlio, não vim brigar.
— Então por que está aqui?
Ele olhou diretamente para mim.
— Porque alguém está fazendo vocês acreditarem numa história incompleta.
Levantei o celular.
— Ouvi a gravação, Augusto.
Seu rosto mudou por apenas um segundo.
Foi suficiente.
— Então você também ouviu Roberto me acusando — respondeu. — Mas uma acusação não é uma prova.
— Minha assinatura foi falsificada?
Ele não respondeu.
— Augusto, minha assinatura foi falsificada?
— Sim.
A palavra caiu pesada entre nós.
Júlio avançou, mas segurei seu braço.
— Continue — ordenei.
Augusto colocou a pasta sobre uma pequena mesa da varanda.
— Eu fiz coisas das quais não me orgulho. A empresa estava afundando. Fiz transferências sem contar ao Roberto e usei seu nome em alguns documentos, Linda. Achei que conseguiria devolver o dinheiro antes que alguém percebesse.
— Você cometeu uma fraude e colocou a culpa em mim.
— Eu estava desesperado.
— E Roberto descobriu.
Augusto assentiu.
— Foi por isso que discutimos.
Olhei para ele.
— Você matou meu marido?
O silêncio pareceu durar uma eternidade.
— Não.
— Então o que aconteceu naquela noite?
Augusto abriu a pasta.
Lá dentro havia fotografias, recibos e uma cópia de um boletim antigo.
Ele retirou uma fotografia.
Mostrava o carro de Roberto parado no posto de gasolina.
Ao lado dele estava Ricardo.
— Seu namorado não contou tudo — disse Augusto.
Júlio pegou a fotografia.
— O que está tentando insinuar?
— Não estou insinuando nada. Ricardo foi a última pessoa conhecida a conversar com Roberto antes do acidente.
— Nós sabemos disso.
Augusto tirou outro documento.
— Sabem também que os dois discutiram?
Meu coração apertou.
— Ricardo disse que estava ajudando Roberto.
Augusto soltou uma risada sem humor.
— É claro que disse.
Meu telefone vibrou.
Outra mensagem de número desconhecido.
Desta vez havia apenas uma frase:
“Não acredite em nenhum dos dois. Procure a câmera do posto.”
Mostrei a Júlio.
Ele imediatamente perguntou:
— Quem está enviando isso?
Augusto pareceu genuinamente confuso.
— Enviando o quê?
Antes que pudéssemos responder, outro carro apareceu no final da rua.
Ricardo.
Ele estacionou bruscamente e saiu.
Ao ver Augusto na varanda, parou.
Os dois homens ficaram frente a frente pela primeira vez em oito anos.
— Você — Augusto murmurou.
Ricardo caminhou até nós.
— Linda, não acredite nele.
Augusto riu.
— Interessante. Eu estava dizendo exatamente a mesma coisa sobre você.
— Chega! — gritei.
Os dois ficaram em silêncio.
— Durante oito anos, homens decidiram quais partes dessa história eu podia conhecer. Roberto tentou me proteger. Augusto mentiu. Ricardo se calou. Acabou.
Peguei a fotografia das mãos de Júlio.
— Quero a verdade inteira.
Ricardo olhou para Augusto.
— Então mostre a ela.
Augusto franziu a testa.
— Mostrar o quê?
— A gravação do posto.
O rosto de Augusto perdeu a cor.
Júlio percebeu.
— Então existe uma gravação.
Ricardo assentiu.
— Existia. Roberto conseguiu uma cópia antes de morrer.
— Onde está?
Ricardo apontou para o pen drive.
Voltamos para dentro.
Augusto tentou acompanhar, mas Júlio bloqueou a entrada.
— Você espera aqui.
No computador, Ricardo abriu uma pasta que eu nem havia percebido.
Dentro havia um vídeo curto, sem áudio.
A data era a mesma noite.
Roberto aparecia conversando com Ricardo perto do carro.
Pareciam discutir, mas então Ricardo entregava alguma coisa a ele.
Um envelope.
Roberto entrou no veículo.
Ricardo permaneceu no posto.
O vídeo continuou.
Dois minutos depois, outro carro entrou no estacionamento.
Meu coração disparou.
Reconheci o veículo.
Era de Augusto.
Ele estacionou longe das câmeras e saiu.
Roberto desceu novamente.
Os irmãos discutiram.
Então aconteceu algo inesperado.
Uma terceira pessoa apareceu.
Uma mulher.
Ela caminhou diretamente até Roberto.
Mesmo com a imagem ruim, reconheci imediatamente seu rosto.
Levei a mão à boca.
— Não pode ser.
Júlio se aproximou da tela.
— Mãe... você conhece essa mulher?
Conhecia.
Chamava-se Helena.
Ela havia trabalhado como contadora da empresa da família durante quase quinze anos.
E, segundo Augusto, tinha se mudado para outro estado uma semana antes da morte de Roberto.
No vídeo, Helena entregava alguma coisa ao meu marido.
Depois, Roberto entrou no carro e foi embora sozinho.
Augusto e Helena permaneceram no estacionamento.
Ricardo apontou para a tela.
— Eu nunca soube que ela estava lá.
Júlio voltou o vídeo.
— Então talvez seja ela quem está mandando as mensagens.
Nesse instante, meu celular tocou.
Número desconhecido.
Atendi.
— Alô?
Por alguns segundos, ouvi apenas uma respiração baixa.
Então uma voz feminina respondeu:
— Linda?
Meu corpo inteiro arrepiou.
Eu reconheceria aquela voz mesmo depois de oito anos.
— Helena?
Houve uma pausa.
— Sim.
Júlio colocou o telefone no viva-voz.
— Foi você quem mandou as mensagens?
— Fui.
— Por quê agora?
A voz dela ficou mais baixa.
— Porque Augusto descobriu que voltei ao Brasil.
Olhei para a porta.
Meu cunhado continuava do lado de fora.
— Helena, o que aconteceu naquela noite?
Ela respirou fundo.
— Roberto estava tentando proteger você. Eu entreguei a ele o último documento que precisava para provar a fraude.
— E depois?
— Ele saiu do posto.
— Augusto foi atrás dele?
Silêncio.
— Helena?
— Sim.
Meu coração disparou.
Mas ela continuou:
— Só que Augusto não era a única pessoa seguindo Roberto.
Júlio e eu nos entreolhamos.
— Quem mais?
Antes que Helena respondesse, ouvimos um barulho forte do lado de fora.
Ricardo correu até a janela.
O carro de Augusto estava indo embora.
— Ele fugiu — disse Júlio.
Helena falou rapidamente:
— Linda, escute. Naquela pasta que Augusto levou até você existe uma folha com três números de conta. Não deixe ele destruir aquilo.
Olhei para a mesa da varanda.
A pasta havia desaparecido.
Augusto a levara.
— Por que esses números são importantes?
A resposta de Helena mudou tudo.
— Porque uma dessas contas nunca pertenceu a Augusto.
— Então pertencia a quem?
Helena ficou em silêncio por alguns segundos.
— A Roberto.
Meu coração parou.
— Isso é impossível.
— Não, Linda. E é justamente por isso que ainda falta a parte mais importante da história.
A ligação caiu.
Tentei retornar.
Número inexistente.
Júlio ficou olhando para mim.
Ricardo não disse nada.
E pela primeira vez desde que tudo começara, uma pergunta que eu jamais imaginaria fazer surgiu em minha cabeça:
E se meu marido não estivesse apenas investigando aquela fraude?
E se Roberto também tivesse um segredo que ninguém jamais me contou?






