Às 17h12, Júlio estacionou diante do endereço enviado por Helena.
Era uma pequena casa em uma rua tranquila, afastada do centro. Não havia placa, carros na garagem ou qualquer sinal de movimento. Durante todo o caminho, Ricardo havia ligado três vezes.
Eu não atendi.
Não porque tivesse deixado de confiar completamente nele, mas porque precisava ouvir Helena sem interferência.
— Se alguma coisa parecer estranha, vamos embora — disse Júlio.
Assenti.
Batemos à porta.
Alguns segundos depois, uma mulher de cabelos grisalhos abriu apenas o suficiente para nos observar.
Reconheci seus olhos imediatamente.
— Helena?
Ela abriu a porta.
— Entrem.
Oito anos haviam mudado seu rosto. Parecia mais cansada, mais magra, como alguém que passara muito tempo olhando por cima do próprio ombro.
Na sala havia caixas cheias de documentos.
Helena fechou as cortinas antes de se sentar.
— Antes de qualquer coisa, Linda, preciso pedir desculpas.
— Não quero desculpas. Quero saber o que aconteceu com meu marido.
Ela assentiu lentamente.
— Roberto saiu do posto naquela noite levando os documentos que eu havia entregado. Augusto foi atrás dele.
Meu coração acelerou.
— Você também?
— Sim.
— Por quê?
— Porque percebi que Augusto estava desesperado. Tive medo de que fizesse alguma loucura.
Júlio se inclinou para frente.
— Você viu o acidente?
— Vi o que aconteceu antes.
Helena respirou fundo.
Segundo ela, Augusto alcançou Roberto em uma estrada secundária e fez sinais para que ele parasse.
Roberto estacionou.
Os dois saíram dos carros.
Discutiram durante alguns minutos.
— Augusto queria os documentos — explicou Helena. — Roberto se recusou a entregar.
— Eles brigaram?
— Discutiram. Mas Augusto não atacou seu pai, Júlio.
Aquilo me surpreendeu.
— Então como Roberto morreu?
Helena olhou diretamente para mim.
— Roberto voltou ao carro e foi embora. Augusto ficou parado na estrada. Eu estava alguns metros atrás.
— E depois?
— Outro veículo apareceu.
Júlio ficou imóvel.
— O mesmo que estava seguindo meu pai?
— Sim.
— Quem dirigia?
Helena hesitou.
Foi nesse instante que compreendi por que ela não queria Ricardo conosco.
— Era Ricardo? — perguntei.
— Não.
Senti uma mistura estranha de alívio e confusão.
— Então quem?
Helena abriu uma das caixas e retirou uma fotografia.
Era de uma mulher de aproximadamente quarenta anos.
Eu nunca a tinha visto.
— O nome dela era Patrícia Nogueira.
Júlio pegou a fotografia.
— Quem era ela?
— Sócia de uma das empresas usadas por Augusto para movimentar dinheiro.
— Augusto trabalhava com ela?
— No começo, sim. Mas depois Patrícia começou a agir por conta própria. Quando Roberto descobriu o esquema, Augusto já havia perdido o controle de boa parte do dinheiro.
Tudo começou a ficar ainda mais complicado.
— Patrícia seguiu Roberto naquela noite?
Helena assentiu.
— Eu segui os dois.
Sua voz ficou mais baixa.
— Alguns quilômetros depois, encontrei o carro de Roberto fora da estrada.
Prendi a respiração.
— E Patrícia?
— Não estava mais lá.
— Você viu o carro dela atingir o de Roberto?
— Não.
Helena foi firme.
— E não vou inventar algo que não vi. Quando cheguei, o acidente já havia acontecido.
Aquilo importava.
Pela primeira vez, alguém estava separando claramente suspeitas de fatos.
— Roberto ainda estava consciente? — perguntei.
Os olhos de Helena se encheram de lágrimas.
— Sim.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
Durante oito anos, eu acreditara que meu marido não conseguira dizer nada depois do acidente.
— Você falou com ele?
— Falei.
Helena levou alguns segundos para continuar.
— Ele estava muito fraco. Pediu que eu chamasse ajuda. Depois segurou minha mão e falou: “Não deixe Linda pensar que eu fui embora escondendo outra vida.”
As lágrimas finalmente desceram pelo meu rosto.
Júlio segurou minha mão.
— Ele disse mais alguma coisa?
— Disse duas palavras.
Helena olhou para Júlio.
— “Proteja Ricardo.”
A sala ficou silenciosa.
— Por quê? — perguntei.
Helena levantou-se e trouxe um envelope.
— Porque Ricardo não era apenas amigo de Roberto.
Ela colocou uma fotografia antiga sobre a mesa.
Nela, Roberto e Ricardo apareciam muito mais jovens diante de um pequeno prédio comercial.
— Eles trabalharam juntos?
— Durante alguns anos.
Helena apontou para Ricardo.
— Foi ele quem percebeu as primeiras irregularidades nas contas.
Meu coração apertou.
— Então por que ele desapareceu?
— Porque Patrícia o ameaçou.
Isso coincidia com o que Ricardo havia me contado.
Mas Helena acrescentou algo novo.
— E porque Ricardo acreditava que tinha provocado a morte de Roberto.
— Como?
— Foi Ricardo quem descobriu onde Patrícia escondia parte do dinheiro. Ele contou a Roberto naquela tarde. Roberto decidiu confrontar tudo imediatamente.
Júlio balançou a cabeça.
— Isso não faz dele responsável.
— Hoje ele sabe disso. Na época, não.
Agora eu começava a entender aquele medo no rosto de Ricardo quando viu Júlio.
Ele não estava olhando apenas para o filho de um homem morto.
Estava olhando para alguém que acreditava ter decepcionado.
— Mas ainda não entendo uma coisa — falei. — Por que Ricardo começou um relacionamento comigo?
Helena desviou os olhos.
Meu coração afundou.
— Helena.
— Essa parte você precisa perguntar a ele.
— Quero ouvir de você.
Ela respirou fundo.
— Ricardo sabia exatamente quem você era desde o primeiro dia.
Fiquei imóvel.
Ele havia mentido.
Outra vez.
— Ele me disse que só descobriu depois de dois meses.
— Não é verdade.
Júlio levantou-se.
— Então ele se aproximou da minha mãe de propósito?
— Sim.
Aquela única palavra doeu mais do que eu esperava.
Todos os cafés.
Os jantares.
As caminhadas.
As conversas até tarde.
De repente, comecei a questionar cada momento.
— Por quê?
Helena pegou outra folha.
— Há seis meses, Patrícia voltou a movimentar uma conta que permanecia inativa desde a morte de Roberto. Ricardo descobriu. Ele acreditava que isso significava que alguém estava tentando apagar as últimas provas.
— E decidiu chegar perto de mim?
— Para descobrir se você ainda tinha os documentos de Roberto.
Fechei os olhos.
Júlio estava furioso.
— Ele usou minha mãe.
— No começo — respondeu Helena.
Abri os olhos.
— No começo?
— Eu falei com Ricardo há três meses. Disse que ele precisava terminar aquilo ou contar a verdade. Ele respondeu que não conseguia mais simplesmente desaparecer da sua vida.
— Porque?
Helena me encarou.
— Porque ele havia se apaixonado por você.
Eu não sabia se aquilo tornava tudo melhor ou pior.
Meu celular começou a tocar.
Ricardo.
Desta vez atendi.
— Linda, preciso contar uma coisa.
Minha voz saiu fria.
— Já sei que você sabia quem eu era desde o primeiro dia.
Silêncio.
— Helena contou.
— Sim.
— Então ela também contou por que me aproximei de você.
— Contou.
— Linda, eu posso explicar.
— Não hoje.
Eu ia desligar quando Ricardo falou rapidamente:
— Augusto acabou de me procurar.
Olhei para Helena.
— O quê?
— Ele trouxe a pasta.
— Onde vocês estão?
— Na delegacia.
Todos ficamos em silêncio.
— Augusto decidiu entregar tudo — continuou Ricardo. — Extratos, empresas, nomes. Tudo.
Helena empalideceu.
— Inclusive Patrícia?
— Principalmente Patrícia.
Então Ricardo disse algo ainda mais inesperado:
— Augusto guardou uma cópia do registro de uma câmera instalada em uma propriedade próxima à estrada. A polícia nunca recebeu essa gravação.
Júlio se aproximou do telefone.
— O vídeo mostra o acidente?
— Mostra a estrada segundos antes.
— E o que aparece?
Ricardo demorou a responder.
— O carro de Patrícia seguindo Roberto.
Meu coração disparou.
— Isso prova que ela causou o acidente?
— Não. Mas prova que ela mentiu quando declarou, anos atrás, que estava em outra cidade naquela noite.
Helena fechou os olhos.
Finalmente havia algo concreto.
Mas Ricardo ainda não tinha terminado.
— E há mais uma coisa.
— O quê?
— Patrícia está viva.
— Onde?
— Aqui no Brasil.
Meu corpo gelou.
— Como você sabe?
— Porque Augusto recebeu uma mensagem dela há vinte minutos.
— O que dizia?
Ricardo respirou fundo.
— “Se Linda encontrou a caixa, acabou. Quero conversar antes que ela entregue tudo.”
Olhei para Júlio.
Depois para Helena.
Durante oito anos, eu procurara respostas sobre uma noite que acreditava estar enterrada no passado.
Agora percebia que aquela história ainda estava acontecendo.
E, pela primeira vez, a mulher que talvez soubesse exatamente o que aconteceu nos últimos minutos antes do acidente de Roberto queria falar diretamente comigo.






