Por alguns segundos, ninguém disse nada.
O som do mar contra o casco parecia ter ficado mais alto.
— Pai? — perguntei, ainda segurando o telefone. — O que é o Projeto Atlântico?
Do outro lado da ligação, ouvi apenas a respiração dele.
Meu pai nunca hesitava.
Era um homem capaz de entrar em uma sala cheia de investidores furiosos e assumir o controle da conversa em segundos. Eu crescera vendo executivos, advogados e políticos esperarem por uma única palavra dele.
Mas agora ele estava em silêncio.
Camila percebeu.
— Interessante, não é? — disse ela. — O homem que sempre tem uma resposta finalmente não sabe o que dizer.
— Camila, pare — Lucas murmurou.
Ela virou-se para ele.
— Você ainda acha que pode voltar atrás?
— Você me disse que ninguém precisava morrer.
Meu olhar foi imediatamente para Lucas.
— O quê?
Camila soltou uma pequena risada.
— Lucas realmente não é tão inteligente quanto você imaginava, Helena.
Roderick finalmente se levantou.
— Isso já foi longe demais.
Camila olhou para ele.
— Foi você quem transformou isso em assassinato.
A expressão de Roderick mudou.
— Cuidado.
Eduardo se colocou discretamente ao meu lado.
Camila continuou:
— Meu plano nunca foi jogar Helena no oceano. Eu precisava que ela desaparecesse legalmente por tempo suficiente para provocar uma transferência temporária de controle dentro da holding.
Olhei para Lucas.
— Então aquela conversa que ouvi...
— Era o plano de Roderick — respondeu Camila. — Ele percebeu que poderia ganhar muito mais se você nunca voltasse.
Gertrude começou a chorar.
— Eu não queria isso.
Virei-me para ela.
— Eu ouvi você rindo.
Ela baixou os olhos.
Não havia resposta capaz de apagar aquilo.
Voltei minha atenção para Camila.
— Projeto Atlântico.
O sorriso dela desapareceu.
— Dezoito anos atrás, meu pai, Roberto Duarte, era sócio de uma pequena empresa brasileira de engenharia marítima. Ele desenvolveu um sistema que poderia reduzir drasticamente os custos de manutenção de plataformas e embarcações.
Ela colocou sobre a mesa uma fotografia antiga.
Nela, dois homens apertavam as mãos diante de um estaleiro.
Um deles era meu pai, muito mais jovem.
O outro eu não conhecia.
— Esse é meu pai — disse Camila.
Aproximei a fotografia da luz de emergência.
— O que aconteceu?
— A empresa dele quebrou seis meses depois. As patentes foram compradas por uma subsidiária ligada ao grupo do seu pai por uma fração do valor.
— Isso não significa que meu pai tenha feito alguma coisa ilegal.
— Não.
Camila tirou um pequeno pendrive do bolso.
— Mas isto talvez signifique.
Meu pai falou imediatamente pelo telefone:
— Helena, não toque nisso.
Olhei para o aparelho.
— Por quê?
Silêncio novamente.
Camila sorriu.
— Porque finalmente chegamos à parte que ele nunca contou à filha perfeita.
Eu estava prestes a pegar o pendrive quando Eduardo segurou meu pulso.
— Não.
Olhei para ele.
— Por quê?
— Porque estamos cometendo exatamente o erro que ela quer.
Camila ergueu uma sobrancelha.
Eduardo apontou para o mar.
— O iate continua mudando de rota. Nossas comunicações internas foram cortadas. Existe alguém controlando esta embarcação enquanto todos nós estamos aqui discutindo uma história de dezoito anos atrás.
Ele tinha razão.
Olhei para o painel próximo à porta.
Ainda estávamos avançando rapidamente.
— Quem está pilotando? — perguntei.
Camila não respondeu.
Eduardo levantou o rádio.
— Ponte, responda.
Silêncio.
Ele tentou novamente.
Nada.
Então Lucas falou:
— Eu sei como chegar à ponte por outro caminho.
Todos olharam para ele.
— Existe uma escada de serviço atrás da cozinha.
Camila riu.
— E devemos confiar em você agora?
Lucas encarou-a.
— Você me usou.
— Você estava disposto a matar sua esposa por dinheiro. Não finja que virou uma boa pessoa porque descobriu que também estava sendo enganado.
Aquelas palavras atingiram Lucas em cheio.
Ele não respondeu.
Eduardo tomou a decisão.
— Você vem comigo.
Apontou para o oficial.
— Fique com elas.
Antes de sair, Eduardo me entregou o pequeno aparelho de gravação.
— Não desligue.
Assenti.
Ele e Lucas desapareceram pelo corredor.
Eu fiquei ali com Camila, Roderick, Gertrude e o oficial.
Uma combinação que poucas horas antes seria inimaginável.
Meu telefone ainda estava conectado.
— Pai — falei. — Quero a verdade.
Minha mãe tentou interromper:
— Helena, podemos explicar quando estivermos juntos.
— Não. Agora.
Meu pai respirou fundo.
— Roberto Duarte foi meu sócio.
Camila ficou imóvel.
— Continue — pedi.
— Criamos uma empresa juntos. O projeto era dele, mas eu financiei quase toda a operação. Quando descobri que Roberto estava desviando dinheiro, confrontei-o.
Camila balançou a cabeça.
— Mentira.
— Ele tinha dívidas enormes — continuou meu pai. — E começou a usar dinheiro da empresa para cobri-las.
— Você roubou as patentes dele!
— Eu comprei as patentes depois que o banco executou as garantias.
Camila bateu a mão na mesa.
— Por causa de você ele perdeu tudo!
— Porque seu pai falsificou documentos, Camila!
Ela ficou em silêncio.
Meu pai continuou:
— Eu nunca contei isso publicamente porque Roberto tinha uma filha adolescente. Você. Eu poderia ter levado o caso à Justiça. Em vez disso, paguei as dívidas que poderiam mandar seu pai para a prisão e deixei que ele fosse embora.
Camila parecia ter levado um tapa.
— Não.
— Tenho os documentos.
— Não!
Ela avançou e arrancou o telefone da minha mão.
— Você destruiu meu pai!
A voz dele continuou pelo alto-falante:
— Camila, seu pai me procurou novamente quatro anos atrás.
Ela congelou.
— O quê?
— Ele estava doente. Queria consertar o passado.
O rosto dela perdeu a cor.
— Meu pai morreu há quatro anos.
— Eu sei.
— Ele nunca falou com você.
— Falou.
Meu pai respirou fundo.
— E deixou uma carta para você.
Camila não disse nada.
— A carta está guardada no meu escritório — continuou ele. — Roberto pediu que eu só entregasse se algum dia você viesse atrás da minha família.
Vi os olhos dela se encherem de lágrimas.
Mas antes que pudesse responder, um alarme começou a tocar.
Dessa vez não era o sistema de comunicação.
Era um alerta de navegação.
O oficial correu até a porta.
— Alguma coisa está errada.
As luzes piscaram.
Então o motor diminuiu abruptamente.
Quase perdi o equilíbrio.
Gertrude gritou.
Segundos depois, Eduardo reapareceu correndo.
Lucas vinha atrás dele.
— A ponte está vazia — disse Eduardo.
— Vazia? — perguntei.
— O piloto automático foi programado.
— Para onde?
Eduardo olhou para Camila.
— Diretamente para uma área onde não deveríamos estar.
Camila franziu a testa.
— Eu não programei isso.
Roderick deu um passo para trás.
Eduardo percebeu.
— Você.
Roderick correu.
O oficial tentou segurá-lo, mas ele conseguiu alcançar a porta lateral.
— Pai! — Lucas gritou.
Roderick desapareceu escada abaixo.
Lucas começou a segui-lo.
— Não! — Eduardo ordenou.
Mas Lucas continuou.
Então um estrondo metálico ecoou do andar inferior.
Todos ficaram imóveis.
Poucos segundos depois, ouvimos Lucas gritar:
— Eduardo!
Corremos.
Descemos até a cabine de controle auxiliar.
Lucas estava parado diante de um armário aberto.
Roderick não estava ali.
Mas havia algo dentro do compartimento.
Pastas.
Passaportes.
Celulares descartáveis.
E dezenas de documentos bancários.
Eduardo pegou um deles.
Seu rosto mudou.
— O que é isso? — perguntei.
Ele virou o documento para mim.
Era uma transferência internacional.
US$ 47.800.000.
Destinatário: uma empresa que eu nunca tinha visto.
Havia mais transferências.
Onze milhões.
Vinte e três milhões.
Trinta e seis milhões.
Todas saindo de subsidiárias diferentes do grupo do meu pai.
Camila se aproximou.
— Eu não sabia disso.
Eduardo começou a folhear os documentos.
— Alguém vem desviando dinheiro da holding há anos.
— Minha mãe disse isso — respondi.
Então encontrei uma pasta menor.
Meu nome estava escrito na capa.
Abri.
Dentro havia cópias dos meus documentos, informações médicas, registros de viagens e até fotografias minhas tiradas sem que eu percebesse.
A última fotografia havia sido feita apenas dois dias antes do meu casamento.
Senti náusea.
Mas havia outra pasta.
LUCAS.
Ele a arrancou das minhas mãos.
Abriu.
Seu rosto empalideceu.
— Meu Deus.
— O quê?
Ele me entregou uma folha.
Era um contrato.
No topo estava o nome de uma empresa de consultoria.
Embaixo, o nome completo de Lucas.
E uma data.
Três anos antes de ele me conhecer.
Continuei lendo.
O contrato descrevia pagamentos mensais para que Lucas se aproximasse de determinados círculos sociais, frequentasse eventos específicos e, eventualmente, estabelecesse contato comigo.
Lucas balançava a cabeça.
— Eu nunca assinei isso.
Camila tomou o papel.
— Eu também nunca vi esse documento.
Eduardo examinou a assinatura.
— Pode ser falsificada.
Virei a última página.
Ali estava o nome do responsável pela empresa.
Quando li, senti o chão desaparecer sob meus pés.
Eu conhecia aquele sobrenome.
— Não pode ser...
Meu telefone tocou novamente.
Era minha mãe.
Atendi imediatamente.
— Mãe?
Ela estava chorando.
— Helena, encontramos seu pai.
— Graças a Deus.
Mas ela não parecia aliviada.
— Ele estava trancado dentro de um depósito perto da marina.
Meu coração disparou.
— Mas eu acabei de falar com ele.
Silêncio.
Minha mãe respondeu quase sussurrando:
— Não, filha.
Olhei para todos ao meu redor.
— O quê?
— Seu pai está aqui comigo. Ele ficou inconsciente durante horas. Acabou de acordar.
Minha mão começou a tremer.
— Então quem estava falando conosco?
Ninguém respondeu.
Olhei para o celular.
A ligação anterior.
A voz.
As informações sobre o Projeto Atlântico.
Tudo havia parecido real.
Então percebi que uma pessoa naquela cabine não demonstrava surpresa.
Gertrude.
Ela estava parada junto à porta.
Quietíssima.
Olhei para ela.
— Você sabia.
Gertrude levantou lentamente os olhos.
E, pela primeira vez desde que a conheci, aquela mulher doce e exageradamente carinhosa desapareceu completamente.
— Finalmente — disse ela. — Você começou a prestar atenção.
Então fechou a porta atrás de si.
E eu entendi que talvez tivéssemos passado a noite inteira olhando para o vilão errado.






