O quarto nome parecia impossível.
Ampliei a fotografia até as letras começarem a perder definição.
Beatriz Almeida.
Minha tia.
A irmã mais velha do meu pai.
A mulher que, segundo tudo o que eu ouvira desde criança, havia morrido em um acidente de barco vinte e três anos antes.
— Não pode ser — murmurei.
Meu pai ainda estava na linha.
— Pai... por que o nome da tia Beatriz está nesse documento?
O silêncio dele voltou.
Dessa vez, eu não aceitei.
— Pai, chega de segredos. Eu quase fui jogada no oceano por causa dessa história. Quero saber tudo.
Ouvi minha mãe falando alguma coisa ao fundo.
Então meu pai respondeu:
— Beatriz não morreu naquele acidente.
Senti o ar desaparecer dos meus pulmões.
— O quê?
Lucas também ouviu.
Camila se aproximou.
Até Gertrude perdeu parte da segurança que demonstrara minutos antes.
— Onde ela está? — perguntei.
— Eu não sei.
— Como você pode não saber?
— Porque ela desapareceu por vontade própria.
Meu pai respirou profundamente antes de continuar.
— Beatriz fazia parte do Projeto Atlântico desde o início. Ela foi responsável por apresentar Roberto, Gertrude e eu aos primeiros investidores. Sem ela, provavelmente nada teria existido.
Olhei novamente para o documento.
Quatro fundadores.
Não três.
— Então por que apagaram o nome dela?
— Porque Beatriz descobriu algo.
Gertrude interrompeu:
— Não acredite nele.
Meu pai ouviu.
— Gertrude sabe exatamente do que estou falando.
Pela primeira vez, minha sogra pareceu nervosa.
— Do que Beatriz descobriu? — perguntei.
— As primeiras transferências.
Olhei para os documentos encontrados no armário.
Meu pai continuou:
— Dinheiro estava desaparecendo antes mesmo de o grupo se tornar uma grande empresa. Beatriz começou a investigar sozinha.
— E descobriu que Gertrude estava roubando?
— Não exatamente.
Gertrude fechou os olhos.
Meu pai disse:
— Ela descobriu que Gertrude não trabalhava sozinha.
Todos ficaram em silêncio.
— Com quem?
Antes que meu pai respondesse, o telefone vibrou.
Outra mensagem de Roderick.
Dessa vez havia apenas uma localização.
E uma frase:
“Se quiser saber por que Beatriz desapareceu, venha buscar o pendrive.”
Eduardo tomou o celular da minha mão.
— Você não vai a lugar nenhum.
— Ele tem as provas.
— E quer você. Isso é uma armadilha.
— Então o que fazemos?
Eduardo olhou para a localização.
— Deixamos que ele pense que funcionou.
Quarenta minutos depois, eu já não estava mais no iate.
A equipe de segurança havia assumido o controle da embarcação. Gertrude foi mantida em uma cabine separada, sob supervisão. Camila concordou em entregar seu telefone, seus registros bancários e todas as mensagens trocadas com Lucas e Roderick.
Lucas também foi separado dos demais.
Antes de levarem meu marido, ele parou diante de mim.
— Helena, eu preciso dizer uma coisa.
— Não precisa.
— Preciso.
Olhei para ele.
— Então diga.
Ele engoliu em seco.
— No começo, eu realmente me aproximei de você por causa do dinheiro.
Não senti surpresa.
Talvez porque alguma parte de mim já soubesse.
— Continue.
— Camila me apresentou a pessoas que sabiam onde você estaria. Eventos, restaurantes, festas beneficentes... Nosso primeiro encontro não foi coincidência.
Meu estômago se contraiu.
Aquele encontro havia sido uma das minhas memórias favoritas.
Lucas derrubara café na minha bolsa em um hotel.
Eu rira.
Ele insistira em comprar outra bebida para mim.
Durante anos, contei aquela história como se o universo tivesse nos colocado no mesmo lugar.
Nada daquilo havia sido acaso.
— Quanto pagaram para você?
Ele abaixou os olhos.
— Cinquenta mil no início.
Eu ri.
Não consegui evitar.
— Cinquenta mil dólares.
— Helena...
— Continue.
— Depois eu me apaixonei por você.
Olhei para ele durante alguns segundos.
— E mesmo assim planejou me jogar no oceano.
Lucas começou a chorar.
— Meu pai disse que seria apenas um susto no começo. Depois tudo mudou. Quando percebi onde aquilo estava indo...
— Você continuou.
Ele não respondeu.
— Você colocou comprimidos na minha comida.
Silêncio.
— Você conversou sobre minha morte enquanto bebia champanhe.
Ele baixou a cabeça.
— Não existe “eu me apaixonei por você” que conserte isso, Lucas.
Pela primeira vez, senti algo inesperado.
Não era tristeza.
Era liberdade.
— Nosso casamento acabou.
Lucas fechou os olhos.
— Eu sei.
— Não. Você ainda não sabe.
Tirei minha aliança.
Olhei para ela por um instante.
Então coloquei-a sobre a mesa.
— Quando eu sair daqui, meus advogados cuidarão do resto.
E fui embora sem olhar para trás.
A localização enviada por Roderick apontava para uma pequena marina particular na costa.
Eduardo insistiu que eu permanecesse em uma embarcação segura enquanto sua equipe verificava o lugar.
Não encontramos Roderick.
Encontramos a lancha.
Vazia.
Sobre o banco havia um envelope com meu nome.
Eduardo colocou luvas antes de abri-lo.
Dentro havia uma fotografia antiga.
Meu pai.
Roberto.
Gertrude.
E Beatriz.
Atrás deles havia um quinto homem.
— Quem é esse? — perguntei.
Camila, que havia sido levada conosco para identificar documentos relacionados ao pai, ficou branca.
— Eu conheço esse homem.
— Quem?
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Álvaro Mendes.
Eduardo olhou para ela.
— Quem é Álvaro Mendes?
— Advogado do meu pai.
Meu coração acelerou.
— Ele ainda está vivo?
Camila assentiu.
— E trabalha para uma empresa em São Paulo.
Eduardo virou a fotografia.
Havia uma frase escrita à mão:
“Procurem quem preparou o primeiro contrato.”
Na manhã seguinte, a verdade começou a aparecer.
E era muito diferente daquela que todos esperávamos.
Álvaro Mendes foi localizado.
Tinha setenta e oito anos.
Quando Eduardo mencionou o nome de Beatriz Almeida, ele concordou imediatamente em falar.
A conversa foi feita por vídeo.
O homem apareceu sentado diante de uma estante cheia de livros.
— Esperei vinte e três anos por esta ligação — disse.
Meu pai estava ao meu lado.
Minha mãe segurava minha mão.
— Minha irmã está viva? — perguntou meu pai.
Álvaro permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Está.
Meu pai levou a mão ao rosto.
Eu nunca o tinha visto daquele jeito.
— Onde?
— Antes de responder, Augusto, preciso contar à sua filha por que Beatriz foi embora.
Álvaro abriu uma pasta.
— Em 2003, Beatriz descobriu que dinheiro estava sendo desviado do Fundo Atlântico.
— Por Gertrude? — perguntei.
— Gertrude participava. Roderick também. Mas eles não comandavam o esquema.
Meu coração acelerou.
— Então quem comandava?
Álvaro aproximou um documento da câmera.
— Roberto Duarte.
Camila soltou um pequeno grito.
— Meu pai?
— Seu pai iniciou as primeiras transferências.
Camila começou a chorar.
Álvaro continuou:
— Quando Beatriz descobriu, Roberto percebeu que poderia ser preso. Então tentou incriminar Augusto e Gertrude. Gertrude, por sua vez, percebeu que poderia lucrar dos dois lados.
Era uma teia de traições.
Ninguém confiava em ninguém.
— E Beatriz? — perguntei.
— Ela reuniu provas.
— Então por que desapareceu?
Álvaro olhou diretamente para meu pai.
— Porque alguém tentou matá-la.
Meu pai ficou pálido.
— Quem?
— Nunca descobrimos.
Álvaro abriu outra pasta.
— Naquela noite, Beatriz deveria entregar todas as provas às autoridades. O barco dela explodiu antes do encontro.
Minha mãe apertou minha mão.
— Mas ela sobreviveu.
— Um pescador a encontrou algumas horas depois.
— E por que não voltou?
— Porque alguém entrou no hospital procurando por ela.
Eduardo imediatamente perguntou:
— Quem?
— Um homem usando documentos falsos.
Álvaro fez uma pausa.
— Beatriz percebeu que não sabia em quem podia confiar. Então desapareceu.
Meu pai estava chorando silenciosamente.
— Durante vinte e três anos?
Álvaro assentiu.
— Durante vinte e três anos.
Então pegou um pequeno papel.
— Mas há três semanas ela entrou em contato comigo novamente.
Meu coração disparou.
— Por quê?
— Porque descobriu que Helena iria se casar com Lucas.
Olhei para Eduardo.
— Ela conhecia Lucas?
— Não.
Álvaro balançou a cabeça.
— Ela conhecia o sobrenome dele.
Meu pai levantou a cabeça.
— O que isso significa?
Álvaro respondeu:
— Roderick não entrou na família de vocês por acaso.
Silêncio.
— Explique — disse Eduardo.
— Roderick trabalhava para Roberto Duarte antes mesmo de conhecer Gertrude.
Camila ficou completamente imóvel.
Álvaro colocou outro documento diante da câmera.
Era um registro de pagamentos.
O primeiro tinha quase trinta anos.
O beneficiário era Roderick.
— Seu pai contratou Roderick para observar Augusto e Beatriz — disse Álvaro a Camila.
Ela começou a balançar a cabeça.
— Não...
— E anos depois, Gertrude se casou com ele.
Tudo estava conectado.
Meu casamento.
Lucas.
Camila.
Roderick.
Gertrude.
O Projeto Atlântico.
Até a suposta morte da minha tia.
— Onde está Beatriz agora? — perguntei.
Álvaro olhou para alguém fora da câmera.
Meu coração começou a bater tão forte que quase doeu.
— Você pode entrar — disse ele.
Uma mulher apareceu lentamente atrás dele.
Cabelos grisalhos.
Rosto marcado pelo tempo.
Devia ter pouco mais de sessenta anos.
Ela olhou para meu pai.
Augusto ficou de pé.
— Bia?
A mulher levou a mão à boca.
— Oi, irmão.
Meu pai desabou em lágrimas.
Eu também.
Mas então Beatriz olhou diretamente para mim.
Sua expressão mudou.
— Helena, escute com atenção.
— Estou ouvindo.
— Roderick não quer apenas aquele pendrive.
— O que ele quer?
— Existe uma cópia dos registros originais do Fundo Atlântico. A única cópia que prova quem realmente desviou o dinheiro e quem tentou me matar.
Eduardo se inclinou para a tela.
— Onde está?
Beatriz respirou fundo.
— Eu escondi há vinte e três anos.
— Onde?
Ela respondeu:
— Dentro do primeiro escritório do Projeto Atlântico.
Meu pai ficou imóvel.
— Aquele prédio foi vendido há anos.
— Eu sei.
— Para quem?
Beatriz olhou para ele.
— Esse é o problema.
Ela colocou um documento diante da câmera.
O comprador do prédio aparecia claramente.
Roderick Ferreira.
E então compreendi.
Ele não estava fugindo de nós.
Estava correndo para chegar às provas antes de nós.






