Gertrude encostou as costas na porta e girou a pequena trava metálica.
O clique pareceu ensurdecedor.
Lucas olhou para a própria mãe como se estivesse vendo uma desconhecida.
— Mãe... o que você está fazendo?
Ela nem sequer olhou para ele.
Seus olhos estavam em mim.
— Durante meses, eu me perguntei quando você perceberia — disse ela. — Esperava que fosse antes.
— Percebesse o quê?
Gertrude caminhou lentamente até a mesa onde estavam espalhados os documentos.
— Que Roderick nunca teve inteligência suficiente para organizar uma operação desse tamanho.
Camila ficou pálida.
— Então foi você?
— Parte dela.
Lucas balançou a cabeça.
— Não. Eu ouvi meu pai falando sobre as contas, os documentos...
— Porque eu entreguei tudo a ele.
Gertrude abriu uma das pastas e retirou algumas folhas.
— Seu pai sempre gostou de se sentir importante. Bastava dar a ele alguns números, algumas contas bancárias e a promessa de uma fortuna. Roderick fazia o resto sozinho.
— E eu? — perguntou Lucas.
Pela primeira vez, ela olhou para o filho.
— Você foi ainda mais fácil.
A expressão dele desmoronou.
— Eu sou seu filho.
— Exatamente. Por isso eu sabia como manipulá-lo.
Lucas parecia incapaz de respirar.
Eu não senti pena.
Aquele homem ainda havia concordado em me colocar em perigo por dinheiro.
Mas ver a própria mãe admitir que o usara parecia destruir alguma coisa dentro dele.
Eduardo se aproximou de Gertrude.
— Abra a porta.
Ela sorriu.
— Você continua pensando que controla este navio.
Então retirou o telefone do bolso.
Tocou na tela.
O alarme parou.
Silêncio absoluto.
Eduardo estreitou os olhos.
— Você tem acesso ao sistema.
— Tenho acesso a muito mais do que isso.
Meu telefone continuava conectado com minha mãe.
— Helena? — ela chamou. — Você ainda está aí?
— Estou.
— Seu pai quer falar com você.
Ouvi alguns ruídos.
Então a voz dele surgiu.
Fraca.
Mas dessa vez eu soube imediatamente.
Era realmente meu pai.
— Filha...
Fechei os olhos.
— Pai.
— Escute Eduardo. Não tente enfrentar ninguém.
Gertrude soltou uma risada.
Meu pai ouviu.
— Ela está aí?
— Está.
O tom dele mudou.
— Gertrude.
Minha sogra ficou imóvel.
Foi a primeira vez que vi insegurança em seu rosto.
— Faz muito tempo, Augusto — respondeu ela.
Meu coração disparou.
— Vocês se conheciam?
Meu pai permaneceu em silêncio.
Gertrude respondeu por ele.
— Há trinta e quatro anos.
Lucas encarou a mãe.
— Trinta e quatro?
— Muito antes de você nascer.
Ela se aproximou de mim.
— Seu pai e eu trabalhamos juntos quando ele ainda não era o grande Augusto Almeida.
Olhei para o telefone.
— Pai?
— É verdade.
Gertrude abriu outra pasta.
Dentro havia fotografias antigas.
Em uma delas, meu pai aparecia muito jovem diante de um pequeno escritório.
Ao lado dele estavam Roberto Duarte, pai de Camila...
e Gertrude.
Peguei a fotografia.
No verso havia três palavras:
Projeto Atlântico — 1992.
Camila ficou sem reação.
— Minha mãe nunca apareceu nessas fotografias.
Gertrude olhou para ela.
— Porque você nunca conheceu a história inteira.
Ela apontou para Roberto.
— Seu pai criou a tecnologia.
Depois apontou para meu pai.
— Augusto conseguiu o financiamento.
Por fim, tocou no próprio rosto na fotografia.
— E eu construí o modelo financeiro.
— Então por que você desapareceu da empresa? — perguntei.
Seu sorriso morreu.
— Porque quando chegaram os investidores, decidiram que três fundadores eram demais.
Meu pai respondeu pelo telefone:
— Não foi assim.
— Claro que foi.
— Gertrude, você desviou dinheiro.
Ela bateu a mão na mesa.
— Eu peguei o que era meu!
Finalmente tudo começou a fazer sentido.
As transferências.
As empresas de fachada.
O ódio contra minha família.
O plano não havia começado com meu casamento.
Começara décadas antes.
— Você desviou aqueles milhões? — perguntei.
— Recuperei uma pequena parte do que deveria ter sido meu.
Eduardo pegou uma das folhas.
— Quase cento e vinte milhões de dólares não parecem uma pequena parte.
Lucas recuou.
— Cento e vinte milhões?
Gertrude olhou para ele com desprezo.
— E você estava disposto a destruir uma mulher por 300 milhões sem perceber que sua própria mãe movimentava fortunas diante dos seus olhos.
Lucas baixou a cabeça.
Então perguntei o que realmente importava.
— Por que precisava de mim?
Gertrude sorriu novamente.
— Porque existe uma coisa que nem seu pai consegue alterar sozinho.
Meu pai gritou pelo telefone:
— Não diga mais nada!
Tarde demais.
— O Fundo Atlântico — disse Gertrude.
Eduardo ficou imóvel.
Eu nunca tinha ouvido aquele nome.
— O que é isso?
Meu pai tentou interromper.
— Helena, falaremos disso depois.
— Não. Estou cansada de “depois”. Quero saber agora.
Houve alguns segundos de silêncio.
Então ele respondeu:
— É um fundo criado quando a empresa começou.
— Quanto?
Silêncio novamente.
— Pai, quanto?
— Hoje... aproximadamente 1,8 bilhão de dólares.
Ninguém falou.
Até Lucas ergueu a cabeça.
Um bilhão e oitocentos milhões.
De repente, minha herança de 300 milhões parecia apenas uma distração.
— E o que isso tem a ver comigo?
Gertrude respondeu:
— Tudo.
Meu pai tentou impedi-la novamente.
Ela ignorou.
— O fundo exige autorização de dois membros da família Almeida para qualquer mudança definitiva de controle.
Senti um arrepio.
— Meu pai e...
— Você.
Finalmente compreendi.
— Então vocês precisavam da minha assinatura.
— Precisávamos que você acreditasse estar assinando outra coisa.
Lembrei-me imediatamente dos documentos antes do casamento.
A procuração.
Lucas.
Tudo fazia parte do mesmo plano.
— Mas meu pai substituiu os documentos.
Gertrude assentiu.
— E arruinou três anos de preparação.
Olhei para Lucas.
— Três anos.
Ele não conseguiu sustentar meu olhar.
Eduardo perguntou:
— Por isso decidiram eliminá-la?
Gertrude permaneceu em silêncio.
A resposta era suficiente.
Então algo inesperado aconteceu.
Lucas começou a rir.
Não era uma risada feliz.
Parecia a risada de alguém percebendo o tamanho da própria estupidez.
— Então Camila me manipulou. Meu pai me manipulou. E minha própria mãe me manipulou.
Gertrude deu de ombros.
— Você queria dinheiro. Eu ofereci uma maneira de consegui-lo.
Lucas olhou para mim.
— Helena...
— Nem tente.
Ele fechou a boca.
Eu não precisava de desculpas.
Não naquela noite.
Talvez nunca.
Eduardo caminhou lentamente em direção à porta.
Gertrude levantou o celular.
— Mais um passo e desligo os motores completamente.
— Faça isso — respondeu Eduardo.
Ela pareceu surpresa.
— O quê?
— Desligue.
Ele apontou para a pequena janela.
— Estamos praticamente parados.
Olhei para fora.
Era verdade.
O ruído dos motores havia diminuído.
Então ouvi novamente o helicóptero.
Muito mais perto.
Gertrude correu até a janela.
Um poderoso feixe de luz atravessou a escuridão e iluminou o convés.
O rosto dela mudou.
— Não...
Eduardo sorriu.
— O piloto automático foi interrompido há quatro minutos.
— Como?
Ele ergueu discretamente o dispositivo que estava em sua mão.
— Você não era a única pessoa com acesso remoto.
Gertrude correu para a porta.
Antes que conseguisse abrir, Lucas ficou na frente dela.
Os dois se encararam.
— Saia — ordenou ela.
— Não.
— Lucas.
— Você já acabou comigo uma vez esta noite.
Ele olhou para mim.
— Não vou deixar você fazer o mesmo com ela.
Eu quase respondi que aquilo não o transformava em herói.
Mas não precisei.
Eduardo disse por mim:
— Fazer a coisa certa agora não apaga o que você fez antes.
Lucas assentiu lentamente.
— Eu sei.
Pouco depois, ouvimos vozes no convés.
A equipe de segurança havia chegado.
Dessa vez, Gertrude não tinha para onde correr.
Mas ainda faltava Roderick.
Eduardo percebeu isso ao mesmo tempo que eu.
— Onde está seu marido?
Gertrude sorriu.
— Se eu fosse vocês, não estaria preocupada com Roderick.
— Por quê?
Ela olhou para o relógio.
— Porque ele está fugindo.
Meu estômago apertou.
— Com o quê?
Gertrude não respondeu.
Então Camila correu até o armário.
Começou a mexer nas pastas.
De repente, parou.
— Sumiu.
— O quê?
— O pendrive.
Aquele que supostamente continha os arquivos originais do Projeto Atlântico.
Eduardo abriu imediatamente a porta.
— Procurem Roderick!
Dois agentes correram pelo corredor.
Lucas foi atrás.
Eu permaneci com Camila.
Ela parecia devastada.
— Eu passei metade da minha vida acreditando que sua família tinha destruído a minha.
— E por isso ajudou Lucas a se aproximar de mim.
Ela assentiu.
— Eu queria provas. Queria recuperar o que acreditava pertencer ao meu pai.
— Mas sabia que Lucas estava planejando me matar?
Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Descobri hoje.
— E não me avisou.
Ela não respondeu.
Aquilo também era uma resposta.
Minutos depois, um agente retornou.
— Encontramos uma embarcação auxiliar faltando.
Eduardo fechou os olhos.
— Roderick.
— Ele saiu antes de o helicóptero chegar.
Meu telefone tocou novamente.
Dessa vez era uma mensagem.
Número desconhecido.
Abri.
Havia uma fotografia.
Roderick estava sentado em uma pequena lancha, segurando o pendrive.
Abaixo, uma única frase:
“Vocês ainda não sabem o que realmente existe nesses arquivos.”
Em seguida chegou outra imagem.
Era a fotografia de um documento antigo.
Ampliei.
No topo estava escrito:
FUNDO ATLÂNTICO — BENEFICIÁRIOS ORIGINAIS.
Havia três nomes.
Augusto Almeida.
Roberto Duarte.
Gertrude Ferreira.
Mas existia um quarto nome.
Um nome que alguém havia riscado à mão.
Aproximei a tela.
Quando consegui ler, meu coração disparou.
Eu conhecia aquele nome.
E a pessoa a quem ele pertencia estava supostamente morta havia mais de vinte anos.






