Quando ouvi Júlio dizer “Pergunte onde ele estava naquela noite”, senti como se o chão tivesse desaparecido sob meus pés.
Olhei primeiro para meu filho, depois para Ricardo. O homem que, durante seis meses, tinha sido tão tranquilo comigo agora parecia incapaz de sustentar meu olhar.
— Que noite? — perguntei.
Ninguém respondeu.
Ricardo caminhou até o carro, mas Júlio avançou alguns passos.
— Você realmente vai fugir de novo?
Ricardo parou.
A palavra “de novo” foi suficiente para fazer meu estômago se apertar.
— Vocês se conhecem — eu disse. Não era mais uma pergunta.
Júlio passou a mão pelo rosto.
— Conheço o rosto dele. Nunca soube o nome verdadeiro.
Ricardo se virou lentamente.
— Júlio, por favor...
— Não diga meu nome como se fôssemos amigos.
Eu nunca tinha visto meu filho daquela maneira. Ele não estava apenas irritado. Havia algo muito mais antigo em seus olhos.
Aproximei-me dele.
— Filho, me diga o que está acontecendo.
Júlio olhou para mim por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir quanto da verdade eu conseguiria suportar.
— Mãe, lembra do acidente do pai?
Meu coração parou por um instante.
Claro que eu lembrava.
Oito anos antes, meu marido, Roberto, havia saído de casa numa noite chuvosa depois de receber uma ligação. Horas depois, seu carro foi encontrado fora da estrada. Ele morreu antes de chegar ao hospital.
A polícia concluiu que Roberto havia perdido o controle do veículo.
Durante oito anos, eu aceitei aquela explicação porque não tinha outra.
— O que isso tem a ver com Ricardo?
Júlio apontou para ele.
— Ele estava lá naquela noite.
Senti minhas pernas enfraquecerem.
Ricardo finalmente falou:
— Não aconteceu como você está pensando.
— Então explique — respondi.
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
Ricardo voltou lentamente do carro.
— Linda, eu queria contar. Muitas vezes.
— Contar o quê?
Ele respirou fundo.
— Eu conhecia Roberto.
Meu peito apertou.
— Você conhecia meu marido?
— Sim.
— E nunca me contou?
Ricardo baixou os olhos.
Aquilo doeu quase tanto quanto ouvir o nome de Roberto.
Júlio entrou rapidamente em casa e voltou segurando o celular.
— Eu sabia que já tinha visto você.
Ele abriu uma fotografia antiga e colocou a tela diante de mim.
A imagem estava granulada e escura. Parecia ter sido tirada de uma câmera de segurança. Nela, dois homens estavam diante de um posto de gasolina.
Reconheci Roberto imediatamente.
O outro homem era mais jovem, tinha o cabelo mais escuro e não usava barba.
Mas era Ricardo.
A data no canto inferior da imagem era exatamente a noite em que meu marido morreu.
Olhei para Ricardo.
— Por quê?
Ele fechou os olhos.
— Porque Roberto me ligou naquela noite.
— Para quê?
Ricardo hesitou.
Júlio respondeu por ele:
— É exatamente isso que tento descobrir há oito anos.
Ricardo ficou em silêncio por alguns segundos. Então colocou a mão no bolso e retirou a carteira.
De dentro dela, tirou um pequeno pedaço de papel dobrado várias vezes.
— Eu carreguei isto durante oito anos.
Ele me entregou.
O papel estava velho, amarelado nas bordas.
Quando o abri, reconheci imediatamente a letra de Roberto.
Havia apenas uma frase:
“Se alguma coisa acontecer comigo, proteja Linda e Júlio. Não confie em Augusto.”
Meu sangue gelou.
Augusto era o irmão mais velho do meu marido.
O homem que estivera ao meu lado no funeral.
O homem que ajudara Júlio e a mim depois da morte de Roberto.
— Isso não pode ser verdade — murmurei.
Ricardo me encarou.
— Roberto descobriu algo sobre o próprio irmão poucos dias antes de morrer. Naquela noite, ele marcou um encontro comigo porque precisava entregar documentos a alguém em quem pudesse confiar.
— Que documentos?
Ricardo olhou para Júlio e depois para mim.
— Provas de que Augusto estava usando a empresa da família para movimentar dinheiro sem o conhecimento de Roberto.
Minha cabeça começou a girar.
— Então por que você desapareceu?
O rosto de Ricardo mudou.
— Porque eu fui covarde.
Pela primeira vez desde que o conheci, não tentou justificar nada.
— Depois do acidente, recebi uma ligação anônima. A pessoa sabia onde minha filha morava. Sabia onde eu trabalhava. Mandou que eu esquecesse Roberto e tudo o que ele tinha me contado.
Júlio cruzou os braços.
— E você simplesmente obedeceu?
— Sim.
Ricardo engoliu em seco.
— E passei oito anos me odiando por isso.
Eu ainda segurava o bilhete.
— Então você começou a namorar comigo sabendo quem eu era?
— Não.
Ele respondeu imediatamente.
— Quando nos conhecemos, eu só sabia seu primeiro nome. Você nunca usava o sobrenome do Roberto. Quando percebi quem você era, já estávamos juntos havia quase dois meses.
— E mesmo assim ficou calado.
— Fiquei.
Aquilo foi suficiente.
Entreguei o papel de volta.
— Vá embora.
— Linda...
— Vá.
Ricardo não discutiu.
Entrou no carro e foi embora.
Fiquei observando até o veículo desaparecer no final da rua.
Então Júlio colocou a mão no meu ombro.
— Mãe, tem mais uma coisa.
Olhei para ele, exausta.
— O quê?
— Eu não convidei vocês para este churrasco por acaso.
Meu coração voltou a acelerar.
Júlio desbloqueou o celular e abriu uma mensagem recebida naquela manhã.
O remetente era um número desconhecido.
A mensagem dizia:
“Se sua mãe ainda estiver vendo Ricardo, faça os dois se encontrarem hoje. Está na hora de vocês descobrirem o que Roberto escondeu.”
Abaixo havia uma fotografia.
Era uma imagem de Roberto parado diante da nossa antiga casa, tirada poucos dias antes de sua morte.
No verso fotografado apareciam três palavras escritas à mão:
“Debaixo da varanda.”
Júlio olhou para mim.
— Mãe, acho que o pai deixou alguma coisa para nós.
E naquele instante percebi que aquele churrasco nunca tinha sido apenas sobre apresentar meu namorado ao meu filho.
Alguém vinha esperando oito anos para nos colocar novamente no caminho daquela noite.






