Eu ainda sentia o balanço do navio sob os pés quando Lucas me conduziu até o convés naquela noite.
Ele segurava minha mão com delicadeza, como um marido preocupado com a esposa. Para qualquer pessoa que nos observasse, parecíamos um casal apaixonado aproveitando alguns minutos a sós durante a lua de mel.
Mas eu sabia por que ele havia me levado até ali.
E sabia que, em algum momento, aquela mão carinhosa tentaria me empurrar para o oceano.
O vento estava mais forte. Nuvens pesadas cobriam parte do céu, e as luzes do iate refletiam sobre a água escura. Lucas olhou ao redor antes de se aproximar da grade.
— Está se sentindo melhor? — perguntou.
Forcei um sorriso.
— Um pouco. Acho que o ar fresco está ajudando.
Ele passou o braço pelos meus ombros.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Eu havia fingido engolir os comprimidos pouco antes. Na verdade, escondi os dois debaixo da língua e os cuspi no banheiro assim que Lucas virou as costas.
Mesmo assim, parte das doses anteriores ainda estava no meu organismo. Minhas pernas estavam fracas, e minha visão parecia oscilar sempre que eu fazia um movimento rápido.
Eu precisava ganhar tempo.
— Lucas...
— Sim, amor?
— Você realmente me ama?
Por uma fração de segundo, alguma coisa mudou em seu rosto.
Então ele sorriu.
— Que pergunta é essa? Claro que amo.
Quase ri.
Horas antes, eu teria acreditado nele.
Agora, cada palavra parecia ensaiada.
Ele me levou alguns passos mais perto da grade.
Foi então que ouvimos a porta do convés se abrir.
Lucas virou a cabeça.
Eu também.
Um oficial do navio apareceu primeiro. O uniforme branco brilhava sob as luzes externas. Nas mãos, ele carregava uma pequena caixa preta.
Atrás dele vinha um homem alto, de cabelos grisalhos, usando uma camisa clara de linho.
Lucas congelou.
Eu conhecia aquele homem.
Eduardo Vasconcelos.
Durante quase vinte anos, Eduardo havia sido responsável pela segurança corporativa do grupo empresarial do meu pai. Ex-oficial da Marinha, ele era o tipo de homem que falava pouco e percebia tudo.
Meu pai sempre confiara nele.
Eu nunca havia entendido por que, antes do meu casamento, meu pai insistira tanto para que eu salvasse o número particular de Eduardo.
Agora entendia.
— O que está acontecendo? — Lucas perguntou.
Eduardo não respondeu imediatamente.
O oficial caminhou até a mesa protegida do vento e colocou a caixa preta sobre ela.
Lucas olhou para mim.
— Você chamou alguém?
Eu não precisei responder.
Eduardo abriu a caixa.
Dentro havia um pequeno dispositivo eletrônico.
E um celular.
O meu celular.
Ou melhor, o segundo celular que Eduardo havia providenciado secretamente depois da minha ligação.
— Acho que vocês dois precisam ouvir uma coisa — disse ele.
Lucas recuou.
— Isso é ridículo. Estamos em lua de mel. Quem autorizou você a entrar neste iate?
Eduardo finalmente sorriu.
— A proprietária.
Lucas olhou para mim.
Eu sustentei seu olhar.
— O iate pertence à holding da minha família, Lucas. Não a você.
O sorriso dele desapareceu.
Eduardo tocou no aparelho.
Uma gravação começou.
Primeiro veio o som distante das taças.
Depois, a voz de Roderick.
“Então estamos fazendo isso esta noite?”
Lucas ficou branco.
Em seguida, sua própria voz ecoou pelo convés:
“Hoje à noite. Perto da meia-noite, ela mal vai conseguir manter os olhos abertos.”
Ele avançou na direção da mesa.
— Desligue isso!
O oficial imediatamente se colocou entre Lucas e o aparelho.
Eduardo continuou imóvel.
A gravação prosseguiu.
O plano.
Os comprimidos.
A herança.
As contas no exterior.
E, finalmente, a conversa sobre meus pais.
Quando a gravação terminou, ninguém falou durante alguns segundos.
Lucas respirava rapidamente.
Então começou a rir.
— Isso não prova nada.
Olhei para ele.
— Não?
— Uma gravação fora de contexto? Você está delirando. Está doente há dias. Provavelmente nem sabe o que ouviu.
A facilidade com que ele voltou a mentir me assustou mais do que seus gritos teriam assustado.
Lucas apontou para mim.
— Ela está confusa. Pergunte a qualquer pessoa. Está tomando remédios desde que embarcamos.
Eduardo inclinou ligeiramente a cabeça.
— Sobre esses remédios...
Abriu outro compartimento da caixa.
Dentro havia um pequeno saco transparente.
Reconheci imediatamente os dois comprimidos que eu havia fingido tomar.
— Foram recolhidos e preservados — explicou Eduardo. — E o médico de bordo já coletou uma amostra do sangue dela.
Pela primeira vez, Lucas não conseguiu responder.
Mas então ouvi outra voz atrás de nós.
— Lucas?
Gertrude surgiu na porta do convés.
Roderick estava ao lado dela.
Os dois olharam para Eduardo.
Depois para a caixa.
Depois para mim.
Gertrude entendeu primeiro.
— O que você fez? — perguntou ao filho.
Foi quase engraçado.
Horas antes, eu a ouvira participando da conversa.
Agora ela tentava representar o papel de mãe horrorizada.
— Não faça isso — falei.
Ela piscou.
— Fazer o quê?
— Fingir que não sabe.
Roderick agarrou o braço dela.
— Não diga mais nada.
Eduardo olhou para os dois.
— Excelente conselho.
Foi então que ouvimos um ruído vindo do céu.
No início, pensei que fosse um trovão.
Mas ficou mais alto.
Um helicóptero apareceu ao longe.
Lucas olhou para Eduardo.
— Você chamou a polícia?
Eduardo não respondeu.
O helicóptero se aproximou.
E, pela primeira vez naquela noite, eu senti que talvez realmente saísse viva daquele iate.
Mas minha sensação de alívio durou pouco.
Meu celular vibrou sobre a mesa.
Uma mensagem havia acabado de chegar.
Eduardo pegou o aparelho e leu.
Seu rosto mudou imediatamente.
— O que foi? — perguntei.
Ele não respondeu.
— Eduardo, o que aconteceu?
Ele me entregou o telefone.
A mensagem vinha da equipe de segurança que havia sido enviada para proteger meus pais.
Li duas vezes antes de conseguir compreender.
“O veículo do Sr. e da Sra. Almeida foi encontrado abandonado. Eles não estão dentro dele.”
Meu sangue gelou.
Olhei para Lucas.
Ele parecia tão surpreso quanto eu.
Então percebi uma coisa que não havia considerado até aquele momento.
Talvez Lucas não fosse a pessoa que comandava aquele plano.
Talvez ele fosse apenas uma peça.
E se meus pais já haviam desaparecido, alguém havia colocado a segunda parte do plano em movimento antes mesmo de eu fazer minha ligação.
Aproximei-me dele.
— Onde estão meus pais?
— Eu não sei.
— Onde estão eles, Lucas?
— Eu juro que não sei!
Roderick fechou os olhos por um instante.
Foi um gesto pequeno.
Quase imperceptível.
Mas Eduardo viu.
Eu também.
Eduardo virou-se lentamente para meu sogro.
— O senhor sabe.
Roderick permaneceu em silêncio.
— Pai? — Lucas perguntou.
Nada.
Gertrude deu um passo para trás.
E então Roderick disse quatro palavras que mudaram tudo outra vez:
— Isso nunca foi sobre Lucas.
O vento pareceu desaparecer ao meu redor.
Lucas encarou o próprio pai.
— O que você quer dizer?
Roderick olhou diretamente para mim.
Não havia mais sorriso em seu rosto.
Nem falsa gentileza.
— Seu marido acha que estava planejando roubar sua herança — disse ele. — Mas os 300 milhões de dólares nunca foram o verdadeiro objetivo.
Meu coração acelerou.
— Então qual era?
Roderick olhou para o helicóptero que se aproximava.
Depois voltou os olhos para mim.
— A empresa do seu pai.
E naquele instante percebi que o homem com quem eu havia acabado de me casar talvez fosse apenas o começo do pesadelo.






